A imprensa e os “mercadores de dúvidas” das mudanças climáticas

Como o negacionismo climático no Brasil utilizou a imprensa para se promover

Por Gabriel Pontes

No final de 2009, o site UOL publicou uma entrevista com o meteorologista Luiz Carlos Molion, da Universidade Federal de Alagoas, introduzido na ocasião como uma voz dissonante dentro da academia. Ao longo da publicação, Molion afirma categoricamente que o aquecimento global havia sido desacreditado pela ciência e que continuar a defender essa tese como válida estaria “prejudicando a Nação, a sociedade”. Anos mais tarde, Molion seria regularmente convidado para palestrar para agropecuaristas ao redor do Brasil e viria a ser considerado um dos mais notórios negacionistas climáticos no país.

Menos de três anos depois, em maio de 2012, o climatologista e professor da Universidade de São Paulo Ricardo Felício era entrevistado no programa do Jô Soares, contando de forma brincalhona como efeito estufa não existia e como a Floresta Amazônica, caso totalmente destruída, voltaria a renascer em sua área original em uma questão de 20 anos. No ano eleitoral de 2018, Felício se sentiria encorajado o bastante pela popularidade que vinha ganhando para se candidatar — sem sucesso — a deputado federal. 

Entrevista de Ricardo Felício para o Programa do Jô, em 2 de maio de 2012. Foto: TV Globo/ Reprodução

A historiadora da ciência da Universidade de Harvard Naomi Oreskes usa o termo “mercadores de dúvidas” para referir-se a cientistas e publicitários que trabalham questionando publicamente posições científicas bem estabelecidas. As primeiras grandes aparições públicas de Felício e Molion ajudaram a iniciar o debate popular acerca da ocorrência ou não das mudanças climáticas no Brasil. Compreender o papel da imprensa nesse processo é crucial para que a crise seja coberta de forma responsável nos próximos anos.

De cigarros para chaminés

No ano passado, um estudo liderado pela professora Krista Myers, da Universidade do Estado da Louisiana, mostrou que 98,7% dos especialistas em ciências do clima que participaram da pesquisa concordam que a temperatura da Terra está aumentando e que esse fenômeno tem uma importante influência humana. Mesmo em 2009, quando Molion teve a oportunidade de apresentar suas ideias a uma audiência muito mais ampla de leitores leigos, essa realidade não era muito diferente.

A história do negacionismo climático mostra que ele foi construído de forma sistemática ao longo de anos — pelo menos desde a década de 1970 —, desfrutando de recursos oferecidos por pessoas e setores da indústria interessados em sua promoção. A estratégia empregada foi similar à da indústria do tabaco após a década de 1960: paralisar qualquer mobilização política efetiva através da dúvida. Afinal, se ainda não fosse bem estabelecida a tese de que o tabaco levou a um aumento significativo em diagnósticos de câncer de pulmão, não haveria porque se tomar atitudes drásticas a respeito.

Nos Estados Unidos, Europa e Austrália, o financiamento da negação das mudanças climáticas parte principalmente de empresas ligadas a extração, distribuição e consumo em larga escala de combustíveis fósseis. Em 2018, instituições e think-tanks negacionistas nos Estados Unidos receberam US$808 milhões vindos de fundos privados. No Brasil, esse movimento possui algum financiamento de entidades associadas ao agronegócio — apesar de ainda haver considerável discordância quanto à necessidade de se combater as mudanças no clima dentro do próprio setor. 

Sob a obrigação de representar suas pautas com imparcialidade, o jornalismo caiu com frequência na armadilha de ceder espaço a mercadores de dúvidas, vendendo seu produto na forma de posições científicas de pouca credibilidade, mas apresentadas como novas, normalmente de fácil compreensão e que desafiam ousadamente o status quo. Por menos representativas que sejam das opiniões de seus colegas, vozes como as de Molion e Felício acabam sendo erguidas a posições de paridade com o consenso aos olhos de parte do público. O resultado desse falso debate científico acaba sendo um real debate político, com tangíveis e profundas consequências ambientais e socioeconômicas. 

O aprendizado com a pandemia e perspectivas futuras.

Comparando com outros países, como os Estados Unidos, no Brasil os discursos negacionistas a respeito da pandemia da COVID-19 obtiveram relativamente menos penetração nos setores mais tradicionais da mídia e do jornalismo. Nem mesmo as exceções brasileiras mais notórias se comparam ao papel que presta o apresentador Tucker Carlson, por exemplo, que constantemente nega a gravidade da COVID-19 em seu programa de televisão na Fox News, consistentemente um dos mais vistos dos EUA.

Especialistas como Natália Pasternak, Átila Iamarino e Dráuzio Varella, para citar alguns, receberam posições de destaque na mídia durante a pandemia, como colunas em jornais e participações regulares como comentaristas nos noticiários. Boa parte dessas personalidades — o que inclui todas as citadas — já possuía experiência com comunicação e um público considerável antes da pandemia. Na maior parte das vezes, essas participações foram recebidas de forma positiva pelo resto da comunidade acadêmica. 

Divulgadores científicos são importantes mediadores entre a mídia e a academia, que muitas vezes depende deles para ser ouvida. Havendo mais especialistas capazes de expor o consenso acadêmico para o público, há menos espaço para que posições excêntricas e pouco confiáveis se destaquem e ganhem credibilidade, mesmo entre os meios de comunicação. Assim, para melhor veicular a gravidade das mudanças climáticas, é necessário que a academia apresente mais comunicadores e divulgadores científicos capazes de abordar a emergência climática. Caberá, então, à imprensa aprender a identificá-los e selecioná-los dentre os mercadores de dúvidas.

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