A objetificação feminina no cinema

Mesmo com uma gradativa mudança de mentalidade, produções hollywoodianas ainda insistem em objetificar personagens femininas

Por Fernanda Fonseca e Maria Eduarda Carvalho

Ancorado em ideais de feminilidade e estereótipos de gênero, o cinema hollywoodiano tem sido, historicamente, um dos principais meios de disseminação de ideologias sobre a mulher. Em razão disso, diversas autoras feministas analisaram essa relação entre representações opressivas e gênero no cinema, sendo marcante a crítica cinematográfica Laura Mulvey. Em seu artigo intitulado “Prazer Visual e Cinema Narrativo”, publicado em 1975 pela revista Screen, a autora estabelece a Teoria do Olhar Masculino (“male gaze”), afirmando que as mulheres são retratadas na mídia a partir de uma perspectiva masculina que as objetifica. O conceito de “male gaze” se estende para a análise de que, no cinema, em vez de existirem por elas mesmas, personagens femininas são comumente utilizadas como acessórios nas histórias escritas e protagonizadas por homens, sendo resumidas apenas à aparência física e à sensualidade.

Na indústria cinematográfica hollywoodiana, por conta do grande número de diretores homens, o olhar masculino persiste sendo o olhar dominante. No filme The Batman (2022), por exemplo, dirigido por Matt Reeves, há uma abordagem hipersexualizada da personagem Mulher-Gato que, por mais que gere um incômodo em uma parcela da audiência, é o tipo de representação comum em filmes de heróis e em produtos audiovisuais produzidos predominantemente para o público masculino, como animes e jogos de videogame. Dentre as cenas do filme, as que mais chamaram atenção em termos de representação hipersexualizada foram: 

A introdução da personagem Selina Kyle (Mulher-Gato) no filme, na sua caminhada filmada de baixo pra cima:

Foto: HBO Max/ reprodução

Selina sendo espionada trocando de roupa:

Foto: HBO Max/ reprodução

A cena da primeira luta entre a personagem e Batman:

Foto: HBO Max/ reprodução

Sua caminhada:

Foto: HBO Max/ reprodução

Até quando a personagem estava sendo estrangulada durante uma cena de luta, ela foi retratada de forma hipersexualizada:

Foto: HBO Max/ reprodução

Contranarrativas 

Mesmo que a perspectiva masculina ainda prevaleça na indústria cinematográfica, existem diversas mulheres cineastas que questionam a dominação patriarcal de Hollywood, estabelecendo debates importantes sobre representação e subjetividade feminina no audiovisual. A diretora e roteirista Greta Gerwig, por exemplo, já foi indicada ao Oscar por produções como “Lady Bird” e “Adoráveis Mulheres”, filmes que trazem o protagonismo feminino através de uma narrativa sensível e mais humanizada. Essas cineastas, diretoras e roteiristas contam histórias valorizando a perspectiva de mulheres, na qual o enredo de um filme é construído de maneira em que o espectador seja capaz de testemunhar a real experiência feminina. Fugindo da objetificação tradicionalmente feita em filmes criados por homens, nessas produções as personagens trazem uma maior diversidade de vivências, sendo mais representativas para o público feminino que consegue se identificar com essas histórias. 

Foto: Universal/ reprodução
Foto: Columbia Pictures/ reprodução

Em uma cultura em que a beleza e o corpo das mulheres sempre foram supervalorizados em detrimento das histórias delas, a existência de filmes capazes de contemplar a complexidade e a diversidade da experiência feminina é essencial para a criação de referenciais positivos na mídia. Ao negar a objetificação das mulheres, essa contracultura, que desafia a perspectiva masculina, permite que mulheres se vejam verdadeiramente representadas no audiovisual e não apenas como estereótipos de gênero e hipersexualização. Outras alternativas também podem ser desenvolvidas em relação a esse tema, por exemplo, um bot no Twitter que gera publicações automáticas a cada objetificação/sexualização identificada para trazer luz a essa questão e iniciar conscientização. Ou um site de discussão crítica feminista voltado para o cinema, ou assim como a classificação indicativa ter flags para a audiência poder escolher assistir ou não.

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