Viver e morrer por uma causa

Como o desmonte das políticas de preservação ambiental influenciaram os assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips

Por Pedro Sales

Ninguém quer ser herói pagando o preço da própria vida. O indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips foram assassinados em 5 de junho, no Vale do Javari, no Amazonas, e seus corpos foram encontrados dez dias depois, após a confissão de um dos suspeitos do crime. Bruno e Dom morreram porque lutavam pelos povos indígenas, porque se opuseram à invasão de terras e à exploração ilegal. Morreram pela falta de fiscalização e proteção no território indígena.

É, em certa medida, sintomático no Brasil atual que um jornalista estivesse desaparecido no Dia Nacional da Liberdade de Imprensa, 7 de junho. Esse fato é a síntese de autoridades descompromissadas com o exercício profissional do jornalismo. Um governo que teme a investigação e as denúncias, as quais são realizadas à custa de um extenso trabalho de apuração. O crime contra Bruno e Dom é ainda um reflexo do desmonte das políticas de preservação ambiental durante o governo do Presidente Jair Bolsonaro. Em meio à situação, o jornalismo foi bastante ágil em relembrar uma das frases do presidente, antes mesmo de ser empossado: “Vamos botar um ponto final em todos os ativismos no Brasil” declarou Bolsonaro em uma de suas lives em 2018.

Foto: Chris J Ratcliffe/Greenpeace

Não faltou tentativas para tal. A nomeação do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles escancarou o descaso do governo federal com a preservação da Amazônia e sua conivência com medidas de exploração não autorizadas em terras indígenas, como extração ilegal de madeira, caça e pesca. A própria Funai (Fundação Nacional do Índio) foi desvirtuada. Com um corpo majoritariamente militar, incluindo o seu presidente Marcelo Xavier, houve perseguição a servidores e indígenas, como aponta o dossiê divulgado no dia 13 e a entrevista exclusiva de Bruno Pereira à Folha, pouco mais de 40 dias antes do assassinato. Inclusive, o próprio indigenista foi perseguido e exonerado da Coordenação-Geral de Índios Isolados e do Recente Contato (CGIIRC), departamento da Funai, em 2019.

Uma história de resistência na Amazônia

Historicamente é perigoso ser ativista ambiental no Brasil. De acordo com a ONG Global Witness, em 2020 ao menos 20 ativistas ambientais foram mortos no Brasil. O problema, no entanto, é mais antigo. O ecologista e líder sindical dos seringueiros Chico Mendes foi assassinado no Acre em 1988, a mando de um fazendeiro. A missionária estadunidense Dorothy Steng foi assassinada por intermediar conflitos agrários no Pará, em 2005. 

Mais recentemente, Maxciel Pereira dos Santos,  funcionário da Funai, foi morto em 2019. O crime ocorreu na mesma região onde  Bruno e Dom foram assassinados, a Terra Indígena do Vale do Javari. Outra vítima da brutalidade contra ativistas ambientais foi Paulo Paulino Guajajara, indígena de Araribóia, no Maranhão. Seu empenho em fiscalizar e denunciar invasões às terras indígenas foi interrompido com tiros nas costas. 

Dom e Bruno não foram os primeiros e nem serão os últimos a serem covardemente assassinados por lutarem pela preservação do meio ambiente e dos povos indígenas. Enquanto existir vista grossa para as irregularidades que ocorrem em terras indígenas, casos fatídicos como esse continuarão acontecendo. Garimpeiros e madeireiros permanecerão ameaçando a soberania indígena, destruindo a população original brasileira e, consequentemente, nossas florestas.

Cobertura jornalística e invisibilização dos povos indígenas

A pressão exercida pelos veículos noticiosos foi determinante para a descoberta dos corpos de Bruno Pereira e Dom Phillips. A Polícia Federal entrou no caso quando a pergunta “Onde está Dom e Bruno?” ganhava um coro maior, com a mídia e a opinião pública. O jornalismo declaratório também obteve seu espaço durante os dez dias de buscas. Os veículos usaram citações do presidente, as quais evidenciaram a sua insensibilidade com o desaparecimento. Frases como “esse inglês era mal visto na região, porque ele fazia matéria contra os garimpeiros” e “foram para uma aventura, a gente lamenta pelo pior” demonstram  descaso do chefe do executivo. 

O caráter urgente das hard news e do furo jornalístico é, muitas vezes, responsável por erros de apuração. Atualmente, com a instantaneidade das notícias, isso ocorre com cada vez mais frequência . No caso de Dom e Bruno, houve precipitação na divulgação de informações acerca da descoberta dos corpos. O embaixador do Brasil no Reino Unido, Fred Arruda, informou às famílias que os corpos foram localizados amarrados em árvores no dia 13 de junho. Diante dessa fonte, vários veículos noticiaram o equívoco , inclusive o The Guardian, jornal em que Dom Phillips era colaborador. A veracidade da informação, no entanto, logo foi contestada pela Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). 

Houve, de certa forma, um deliberado apagamento do esforço indígena nas buscas. Os principais jornais do país, como Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo, deram maior destaque em suas manchetes para a Polícia Federal, dedicando poucas matérias aos povos indígenas. Em nota, a Univaja afirma que “fomos nós, indígenas, que encontramos a área que, posteriormente, passou a ser alvo das investigações por parte de outras instâncias, como a Polícia Federal, o Exército e a Marinha.” Por fim, a nota agradece a colaboração do 8º Batalhão em Tabatinga (AM) que tratou os indígenas como parceiros de busca, e conclui constatando que os assassinatos foram um crime político. 

A coletiva de imprensa realizada pela PF em Manaus, no dia 15, expôs ainda mais a indiferença das autoridades para o papel crucial dos povos indígenas na busca dos corpos. Nenhum deles sequer agradeceu a ajuda dos indígenas —foi um momento de exaltação  à eficiência da investigação. O papel dos indígenas só foi mencionado quando uma correspondente estrangeira questionou as autoridades acerca da ausência de créditos a eles. “De fato foi um equívoco não mencionar os indígenas e ribeirinhos”, respondeu o delegado da PF.  

Desdobramentos do caso, mandantes e crime político

Apesar de ter omitido os esforços dos povos indígenas, é válido apontar a eficiência da Polícia Federal na força-tarefa. Dois dias após o desaparecimento, o órgão prendeu Amarildo da Costa Oliveira, conhecido como “Pelado”. Inicialmente, o homem foi preso por porte ilegal de armas. Conforme a investigação avançou, confirmou-se o envolvimento do suspeito no assassinato do jornalista e do indigenista. Posteriormente, o irmão de Pelado, Oseney, conhecido como “Dos Santos” também foi preso pela PF. O último suspeito preso foi Jefferson Lima, vulgo “Pelado da Dinha”.

Até o momento, a Polícia Federal investiga mais oito suspeitos envolvidos no crime. O único problema nas investigações da PF é a rejeição da ideia de um possível mandante do crime. O órgão despreza informações levantadas pelos próprios indígenas do Vale do Javari, denúncias que já colocavam no radar os assassinos. A hesitação em investigar a possibilidade de um mandante é política, uma vez que a eventual descoberta pode ligar o crime a políticos da região. Mesmo com essa resistência, uma coisa é certa: a apuração e o empenho dos jornalistas não cessará até encontrar a verdade.

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