Autismo na mídia

Caso de influencer que zombou de vagas exclusivas para autistas levanta discussão sobre a necessidade de se compreender melhor o transtorno

Por Cairo Tondato

A influenciadora digital e maquiadora Larissa Rosa, dona de um ateliê de beleza em Anápolis, cidade goiana, divulgou em seu perfil no Instagram uma sequência de vídeos em que zomba das vagas exclusivas para autistas em um shopping da cidade. Ao lado da mãe, que também brinca com a situação, Larissa reclama por não conseguir um local para estacionar o carro e diz ter pensado que as vagas destinadas a pessoas autistas fossem, na verdade, para pessoas LGBTQIA+, por conta das cores utilizadas na sinalização. Em seguida, aponta ironicamente a necessidade de serem criadas vagas para pessoas gordas. Em menos de um minuto, mãe e filha conseguiram ofender autistas, causas LGBTQIA+ e obesos. O caso ocorreu em 14 de junho.

Com a repercussão negativa dos vídeos, a influenciadora se pronunciou — mais com a intenção de se defender do que de se retratar — dizendo que as falas seriam uma brincadeira e que os vídeos deveriam ter sido publicados apenas para uma lista específica de seguidores, que  inclui 18 amigos próximos. Ela assumiu que o conteúdo compartilhado não representa o que acredita de fato. Já a mãe, Vânia Rosa, apareceu em seu perfil aos prantos, se desculpou e disse acreditar que o ser humano seja sujeito a falhas. 

A Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil, da subseção de Anápolis, enviou uma notícia-crime para a Polícia Civil pedindo o indiciamento de Larissa por homofobia, após o uso de termo pejorativo por parte da influenciadora para se referir à comunidade gay. Em um dado momento dos vídeos, ela diz que a vaga é tão colorida que achou “que era vaga pra viado”. Em depoimento prestado à polícia, mãe e filha alegaram que “jamais houve a intenção de ofender quem quer que seja.”  

O episódio evidencia, além da clara falta de empatia e de respeito para com o próximo, o desconhecimento por parte da população em geral quanto às necessidades da pessoa autista. O portal do Ministério da Saúde traz uma definição do transtorno do espectro autista (TEA), segundo a qual trata-se de “um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado por desenvolvimento atípico, manifestações comportamentais, déficits na comunicação e na interação social, padrões de comportamentos repetitivos e estereotipados, podendo apresentar um repertório restrito de interesses e atividades”. Contudo, dentro de um amplo espectro, existem diferentes manifestações do transtorno, que influenciam a gravidade da condição. 

No Brasil, há um caso de autismo a cada 110 pessoas. Estima-se que o país, com cerca de  200 milhões de habitantes, possua cerca de 2 milhões de autistas. Para todos os efeitos legais, alguém  com transtorno do espectro autista é considerada uma pessoa com deficiência. Dessa forma, desde 2012, com a lei n° 12.764, indivíduos autistas têm direito a vagas preferenciais em estacionamentos de todo o país. Só é preciso fazer uma credencial para conseguir usufruir do direito. A lei, chamada de “Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa Com Transtorno do Espectro Autista”, também garante que portadores da condição podem frequentar escolas regulares e, se necessário, solicitar acompanhamento nesses locais. 

Contudo, apesar dos relativos avanços na legislação, grande parte do que se conhece sobre o autismo vem de representações estereotipadas da condição por parte da mídia. Um exemplo é a série de televisão estadunidense The Good Doctor. Na produção, o protagonista Shaun Murphy, jovem portador da síndrome de Savant, um tipo de autismo, se vale de características associadas ao transtorno, como o apego a detalhes minuciosos, para se destacar como um talentoso cirurgião. 

Se, por um lado, a narrativa mostra a capacidade de pessoas autistas investirem em suas habilidades e se tornarem profissionais de prestígio, por outro,  pode contribuir para a manutenção de um estereótipo. Especialistas da área da saúde enviaram uma carta aberta à revista norte-americana The Hollywood Reporter em que afirmam que a série, assim como outros títulos, descreve autistas como “homens brancos que são genuinamente estranhos”, ao mesmo tempo que traz o personagem como uma espécie de super-herói. Com isso, ainda que a produção aborde as limitações impostas pelo transtorno ao personagem, cria-se um mito em torno da figura do autista que representa mal o quão incapacitante o autismo pode ser. 

Shaun Murphy, personagem da série The Good Doctor, é a representação de um estereótipo que associa o autismo à genialidade

O fato de o autismo aparecer retratado pela mídia como sinônimo de genialidade e, fora dela, ser alvo de discursos preconceituosos e capacitistas, expõe uma contradição que dificulta o entendimento acerca do transtorno e dos direitos que devem ser garantidos aos seus portadores.

As obras de ficção exercem um papel fundamental para garantir visibilidade e relevância ao tema, mas é também papel da mídia fomentar uma discussão mais próxima da realidade, que considere a pluralidade de condições possíveis entre autistas e desmistifique o transtorno. Representações plurais são essenciais para que a sociedade compreenda as necessidades atreladas ao autismo – que vão muito além de uma vaga de estacionamento -, de modo a não deslegitimar direitos que levaram anos para serem garantidos. Um exemplo importante é a resolução que permitiu aos autistas usufruírem da legislação voltada para pessoas com deficiência, sancionada há menos de uma década.

Além disso, é importante que pessoas autistas assumam posições de destaque na mídia, para que possam, elas mesmas, apresentarem suas perspectivas. O jornalista Eric Garcia, que atua como correspondente de Washington para o jornal britânico The Independent, escreveu, em 2021, o livro “Nós não estamos quebrados: mudando a conversa sobre o autismo”, como forma de humanizar o transtorno a partir da própria vivência. Na obra, ele detalha desafios impostos pela condição e pela falta de compreensão por parte da sociedade. Outros comunicadores autistas, incluindo brasileiros, têm conseguido alcance na mídia através das redes sociais e utilizam seus perfis como uma espécie de diário. Willian Chimura, pesquisador e divulgador científico, reúne mais de 200 mil inscritos em seu canal do YouTube, onde fornece ao público conteúdos informativos a respeito do autismo.

O transtorno do espectro autista carece de um espaço mais robusto na agenda midiática. Todos os portadores do transtorno, sejam eles enquadrados como gênios ou como deficientes, merecem representação e respeito. A informação deve, portanto, ser a principal aliada no combate à discriminação e servir para que se alcance uma inclusão mais efetiva.

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