O bolsonarismo e a falsa neutralidade da grande mídia

Como a imprensa brasileira escolhe noticiar o extremismo e violência política no país

Por Sthefany Rocha

Apoiador do presidente Jair Bolsonaro, Jorge José da Rocha Guaranho, invadiu a festa de aniversário de Marcelo Arruda, que tinha como tema o Partido dos Trabalhadores (PT) e a pré-candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, e atirou contra o aniversariante. Arruda morreu após levar três tiros, disparados pelo bolsonarista, enquanto comemorava os 50 anos de idade com família e amigos. O caso ocorreu na madrugada do último domingo (10/7), em Foz do Iguaçu, Paraná. 

De acordo com testemunhas, o assassino estava de carro com a família dele e interrompeu a festa aos gritos: “É Bolsonaro, seus filhos da puta”. Marcelo saiu para ver o que acontecia e Guaranho apontou a arma, enquanto a esposa pedia para que parasse com aquilo. O atirador deixou o local fazendo ameaças: “Eu vou matar todos vocês”. Arruda era guarda municipal e Guaranho, agente da Polícia Penal Federal.

Alguns minutos depois, o policial penal voltou à festa e efetuou disparos contra o aniversariante, que revidou com cinco tiros em direção a Guaranho. A notícia foi veiculada em primeira mão pela Revista Fórum, que detalhou o ocorrido, conforme descrito acima. 

O evento, que deveria ter sido de alegria e celebração, ficou marcado pela intolerância política. Infelizmente, não é de hoje que líderes autoritários de extrema-direita incentivam perseguição e violência contra opositores, a exemplo o presidente Jair Bolsonaro, que se elegeu com discurso declaradamente  racista, misógino, machista, homofóbico e contrário aos direitos humanos. Ainda em campanha eleitoral, em 2018, Bolsonaro fez um comício no Acre e utilizou um tripé de câmera para simular um fuzil e proferiu a seguinte frase: “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”, em uma ação acompanhada de  aplausos inflamados da plateia. 

Bolsonaro em vários momentos incentiva a violência contra adversários e fala em armar a população contra o “perigo comunista”. A incitação do ódio e o desrespeito aos princípios democráticos são utilizados pela extrema-direita, que se aproveita de uma falsa ideia de proteção aos valores da família e propagam uma moral carregada de preconceitos. E a mídia brasileira contribui para a ascensão desses discursos, atrelada a um conceito de neutralidade e uma inexistente equivalência entre as propostas de governo dos dois candidatos à presidência, Lula e Bolsonaro. 

O portal de notícias Poder360, ao repercutir a notícia do assassinato de Marcelo Arruda, exibiu a seguinte machete: “Bolsonarista e lulista morrem em troca de tiros no Paraná” e horas depois alterou para “Bolsonarista invade festa e atira em petista no Paraná”. No site da CNN Brasil: “Guarda municipal é morto em Foz do Iguaçu durante festa de aniversário com tema sobre o PT”. As frases não esclarecem que o crime de ódio foi motivado por intolerância e extremismo político, e vários comentários surgiram nas redes sociais, principalmente o Twitter, sobre como a imprensa tende a neutralizar alguns assuntos.

Poder360/Reprodução

CNN Brasil/Reprodução
Primeira matéria. Folha de SP/Reprodução
Atualização. Folha de SP/ Reprodução

Jornalista e diretora do Instituto Fogo Cruzado, Cecília Oliveira escreveu um comentário a respeito do primeiro título da matéria do Poder360: “Era um duelo? Achei que um cara tinha invadido uma casa para matar um adversário político, que tentou se defender como deu e morreu evitando uma tragédia maior. Devo ter lido errado…”. Outros portais trataram o ocorrido como troca de tiros por motivação política. A Folha de São Paulo e o Poder360 fizeram alterações no título e corrigiram algumas informações no texto durante o domingo.

Inicialmente, a morte dos dois foi a primeira versão veiculada em vários jornais, com base em nota divulgada pela Polícia Civil à imprensa. As mudanças ocorreram após o órgão público de segurança retificar a declaração, na tarde domingo (10), sobre a morte do agente penitenciário. Guaranho não morreu e está internado em estado de saúde estável.

O portal Uol teve acesso ao novo comunicado, publicado às 17h35 do mesmo dia: “A Secretaria da Segurança Pública do Paraná informa que a Polícia Civil está investigando a morte do guarda municipal Marcelo Aloizio de Arruda. Ele e o policial penal federal Jorge José da Rocha Guaranho se desentenderam durante a festa de aniversário de Arruda. Os dois acabaram baleados, Guaranho segue internado em estado grave…”.

Essa estratégia de não dar nomes aos bois é muito frequente no Brasil. Todos os dias jornais no país veiculam matérias que distorcem acontecimentos, ora com manchetes como “Estudante de medicina é preso 40 kg de cocaína” ou “Traficante é preso com 1,5kg de cocaína”, quando se trata de um jovem negro. E a manchete “É uma escolha muito difícil”, editorial do jornal Estadão em relação ao 2° turno das eleições de 2018, disputadas por Fernando Haddad e Jair Bolsonaro.

“O jornalismo não apenas informa, ele também dota de valor um dado, uma informação. Por isso que repórteres e editores escolhem noticiar alguns fatos e não outros, e por isso também que dão mais ênfase em alguns aspectos e não outros”.

Rogério Christofoletti, 2018, ObjETHOS.

Esses “erros” cometidos pela grande imprensa, entendidos como a linha editorial adotada por um veículo, são reflexo de uma mídia hegemônica, liberal, controlada por oligarquias políticas e familiares, que ao se apoiarem numa imparcialidade e isenção questionável levam a desinformação e fomentam discurso de ódio. A Constituição Federal de 1988 garante a liberdade política e ideológica, bem como a sua manifestação. Assim, se uma pessoa foi assassinada por defender um espectro político, é um sinal que os ideais democráticos e a cidadania não estão plenamente consolidados no Brasil.

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