Bolsonaro se rende à Globo com verbas de propaganda governamental

Na contramão do discurso bolsonarista, os investimentos de imagem do governo na Globo superam as emissoras mais alinhadas ao presidente

Por Júlio Camargo

O Governo Federal aumentou as verbas de propaganda do executivo na TV Globo no primeiro semestre de 2022. A Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência (SECOM) destinou de janeiro a junho R$11,4 milhões em valores líquidos, quantia que representa 41% do total (R$27,5 milhões) investido no canal desde o início do mandato de Jair Bolsonaro. As informações foram pulicadas no portal UOL.

Na primeira metade do ano, os investimentos públicos colocaram nas vitrines da maior emissora do país 72 propagandas institucionais e duas campanhas de utilidade pública. No mesmo período do ano passado, foram 46 veiculações de utilidade pública e 10 de propaganda institucional, movimento que representa também uma mudança de foco na tática publicitária.

Imagem: Jornal Nacional e Alan Santos/PR

Os atuais valores recebidos pela Globo superam quantias destinadas às redes concorrentes, que já deram apoio explícito ao Planalto, como Record, SBT e a recém criada TV Jovem Pan. A preferência pela emissora carioca vai na contramão do discurso propalado pelo ainda presidente e seus seguidores. No mesmo dia em que o portal UOL publicou a matéria sobre a inserção de material do governo na Globo, um bolsonarista invadiu uma transmissão do telejornal local SPTV e gritou “GLOBO LIXO!!!GLOBO LIXO!!!”. O chefe do executivo já desfilou publicamente erguendo esse bordão em letras grandes e inclusive fez diversas ameaças de retirar da família Marinho a concessão pública da qual as emissoras privadas dependem para lançar sinal de transmissão.

A retomada da maior fatia de verba de propaganda televisiva mostra que, apesar de vários danos que vem sofrendo — destaque para grandes demissões no quadro de funcionários, reestruturação das redações e revisionismo do passado —, a Rede Globo ainda mantém a hegemonia desse setor de mídia. Esse posto favorável até mesmo nos momentos de crise se deve à presença massiva conquistada com base em diversas conciliações políticas com o generalato da ditadura militar (1964-1981) tão exaltado por Bolsonaro.

Ainda se mantém atual o texto Mídia e Política no Brasil de 2002, escrito pelo cientista político e pesquisador da Universidade de Brasília Luis Felipe Miguel¹:

O fundamento da influência da Rede Globo está na simbiótica relação com o poder político, estabelecido a partir da ditadura militar (1964-1985). Hoje, ela é um conglomerado gigantesco, que envolve jornais, revistas, livros, discos, software, cinema, home-video, rádio, televisão (de sinal aberto e por assinatura), comunicação de dados, paging, telefonia celular, lançamento e exploração de satélites, equipamentos de comunicação e outros setores, mas esse crescimento só se deu após o golpe de 1964. […] No início, as operações da TV Globo contavam com apoio técnico e capital do grupo estadunidense Time-Life, num acordo que violava a legislação brasileira sobre a participação de estrangeiros em grupos de comunicação e que foi dissolvido em 1969, após os trabalhos de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. De qualquer maneira, o aporte dos parceiros estrangeiros permitiu que a Globo logo se destacasse tecnicamente das outras emissoras brasileiras e alavancasse seu predomínio. Assim, a Rede Globo se credenciou, perante os governantes militares, para a posição de vetor da “integração nacional”.

Tamanho suporte e alcance garante uma posição de destaque que nenhum competidor do poder ouse ignorar. Durante os 14 anos de governos petistas, iniciados em 2003, as corporações Marinho mantiveram em grande medida uma política editorial marcadamente de oposição, incluindo consequências golpistas e adesão velada ao PSDB. Antes mesmo que esse período se iniciasse, é memorável a militância neoliberal que o grupo teve nas eleições de 1989 para favorecer o Collor, tradição ideológica que se manteve nos pleitos seguintes. Nos últimos anos, a rede Globo foi entusiasta da Operação Lava-Jato e da derrubada de Dilma Rousseff do poder executivo em 2016. Porém, em nenhum momento Lula ou Dilma se levantaram de forma ofensiva contra a emissora, limitando-se a embates de críticas pontuais e várias vezes replicadas no horário nobre do Jornal Nacional.

Bolsonaro assumiu o poder em 2018 por consequência de uma grave crise política e se destacou com um discurso antissistêmico “contra tudo isso que está aí”. Sua natureza de extrema-direita o coloca em conflito permanente com inimigos forçados, à parte da formalização da mídia e competindo contra outros setores hegemônicos. Ele é resultado dos escombros deixados pela Lava-Jato e segue como efeito indesejado e imprevisível que os demais agitadores da operação ainda não souberam controlar — mais do que isso, foram suprimidos por ele.

O desespero por maior visibilidade repõe a liderança da Globo no recebimento desse montante publicitário, situação que antes era quase um consenso dos ocupantes do Planalto. O favorecimento e primazia para outras emissoras — principalmente Record e SBT — com fundos de propaganda se deu entre os anos 2019 e 2021. Isso foi possível enquanto era conveniente para Bolsonaro manter esse jogo não estando em ano eleitoral, mas um luxo fora de alcance num momento de alta rejeição popular.

No discurso do presidente, o repúdio à Globo tornou-se um bode expiatório para atacar o  trabalho jornalístico, cada vez mais crítico aos desmandos do Governo Federal. A crítica ao aparato de hegemonia nesse contexto se generaliza e se banaliza de maneira infantil, perde o sentido fundamental e passa a ser substituída de forma covarde por uma delirante linguagem residual da guerra-fria.  O clima esquenta principalmente quando Bolsonaro precisa responder por  casos de corrupção e crimes de responsabilidade.  Destaque para a reportagem do Jornal Nacional que aponta rumores do sobrenome do presidente no assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro em 2018 e conseguinte resposta dele em live nas redes sociais.

Porém, a oposição de centro-direita da emissora parece muitas vezes delimitar a caricatura pronta de Bolsonaro e seus escândalos. Muitas vezes, parece haver nos noticiários do canal uma separação das esferas administrativas e econômicas, como se fosse possível denunciar o projeto bolsonarista e, ao mesmo tempo, amenizar as ações de Paulo Guedes, ministro aplicador de políticas fiscais e alteridades que favorecem a elite empresarial da qual faz parte o Grupo Globo e seus anunciantes. Exemplo disso foi a edição do Jornal Nacional ao reportar a grotesca reunião ministerial de 22/04/2020. Todos os ministros falastrões foram expostos, com excessão do Chicago Boy que propôs vender logo a “porra” do Banco do Brasil.

A preservação em alguma medida sobre a imagem de Paulo Guedes se deve ao interesse que o grupo de mídia tem para que ele contenha as impulsividades de Bolsonaro. O jornalista Marcos Uchôa, com 34 anos de trabalho em diversas produções na Globo, em entrevista no programa Fórum Onze e Meia afirmou que

“Havia um clima de que nós estávamos lutando contra a corrupção, nós o Brasil. E a Globo embarcou. Quando chegou a eleição de 2018, eu diria que a Globo embarcou na história de que o Bolsonaro seria domado pelo Paulo Guedes. Que quando ele virasse presidente, viraria uma pessoa mais moderada. E eu acho que por isso, a Globo não viu o perigo que o Bolsonaro representava ou não quis ver porque preferia achar que o Paulo Guedes representaria os interesses da direita, da qual os donos da Globo fazem parte”.

O resultado possível desses vetores é a de permanência da emissora – é improvável que se realize um estapafúrdio de corte de concessão pública, por exemplo -, mas com algum nível de desconfiança irreparável de uma parcela da população depois dos ataques por parte do presidente. O bolsonarismo não sobrevive sem atacar espantalhos, então é provável que pelo menos uma camada reacionária continue hostilizando a Globo enquanto vagarem pela Terra, ainda que o messias venha a retroceder nessa questão. Com ou sem um novo mandato de Bolsonaro, a crise brasileira persistirá e o espetáculo noticioso também.

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s