Um repórter resolveu cantar

O jornalista da TV Tarobá (PR), Júnior Rocha, noticiou a morte de três criminosos com paródia de canção da Xuxa

Por Pedro Sales

O jornalista Júnior Rocha, repórter da TV Tarobá, afiliada paranaense da Rede Bandeirantes sediada em Cascavel, tomou a liberdade de noticiar a morte de três criminosos com a paródia de uma música infantil de Xuxa Meneghel, “Cinco Patinhos”. Assim que o vídeo começou a circular nas redes sociais, houve opiniões contrastantes acerca da legitimidade do improviso do jornalista para informar mortes. A situação ocorreu em Foz do Iguaçu, ao vivo no programa Brasil Urgente Paraná, no dia 20 de julho. 

Não é a primeira vez que o Brasil Urgente  se envolve em polêmicas. Na mesma semana do acontecimento, o programa, em sua edição nacional, foi mau exemplo de jornalismo ao relativizar escravidão e armar um circo midiático em torno da investigação de Margarida Bonetti, conhecida como a mulher da casa abandonada.

Desde o início do link ao vivo, o repórter demonstra bastante irreverência na notícia. “Rapaz, essa situação é tão boa. Essa notícia é tão maravilhosa que merece até uma música”, disse Rocha antes de iniciar os versos. “Três bandidos foram assaltar uma residência aqui na fronteira, o CHOQUE e a ROCAM chegaram e ‘pápápá’, e os bandidos estão no inferno a queimar”, cantarolou. Após sua manifestação musical, ele ri e, de fato, começa a informar de forma tradicional, mas com uma carga opinativa exacerbada, como na declaração: “Vamos supor que eles morreram de Covid. A variante 556 (calibre de fuzil), 9mm (milímetros). Agora o Satanás está recebendo esses criminosos”.

Repercussão

O assunto tomou as redes sociais. As opiniões polarizadas penderam mais ao lado contrário à cantoria do jornalista. Um dia depois do vídeo ser veiculado (21), em meio às críticas ao comportamento do profissional, a Band demitiu Júnior Rocha. Entretanto, isso não significou que Rocha cairia no ostracismo, pelo contrário. O repórter foi chamado pela Polícia Militar do Paraná para fazer parte da corporação, tendo seu nome publicado no Diário Oficial de Foz do Iguaçu.  Além disso, suas redes sociais foram bombardeadas com novos seguidores. Antes, ele possuía pouco mais de 5 mil seguidores, agora, já ultrapassa os 70 mil. 

Esse movimento de seguir pessoas envolvidas em polêmicas na mídia não é novo. Muitas vezes criminosos são seguidos logo após sua condenação, como o caso do anestesista Giovanni Bezerra, mais em um ímpeto de curiosidade do que apoio em si. Contudo, é importante frisar que Júnior não se enquadra como criminoso, apenas como polemista. Somado a isso, ele destila um discurso que encontra coro nas massas. A máxima “bandido bom é bandido morto” é muito usada em um país vítima de altas taxas de criminalidade. É por isso que Júnior Rocha aumenta seu número de seguidores, pois muitos compartilham da sua visão. 

No Twitter, a maioria dos comentários faziam troça da situação, dando destaque à falta de profissionalismo do repórter. O jornalista Guga Noblat publicou o vídeo com a legenda: “Aprendeu a fazer jornalismo assistindo o Programa do Ratinho”. Um internauta publicou: “Não me conformo em ver jornalista comemorando morte de pessoas”. Os defensores da situação, já após a demissão de Rocha, indicaram às emissoras a contratação do repórter.

A Ética Jornalística

As principais discussões acerca da paródia versaram sobre a ética jornalística. Afinal, pode um profissional comemorar mortes com tanta desinibição? Assim como em outras profissões, o jornalismo também possui uma deontologia bem delineada. A fim de guiar e orientar moralmente os jornalistas, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) foi responsável por redigir o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, em vigor desde 2007.

No documento há uma série de artigos que delimitam direitos e deveres dos profissionais. Analisando a atitude de Júnior Rocha à luz do Código, é perceptível o quanto a conduta dele se distancia da recomendada. A primeira discrepância diz respeito ao artigo 6º, que afirma ser dever do jornalista defender princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Entretanto, é notável a repulsa aos direitos humanos em alguns círculos políticos, como o do repórter. 

Fica mais evidente, entretanto, o uso do jornalismo para incitar a violência, proibido pelo sétimo artigo do Código. Independente da legitimidade da ação policial para enfrentar a criminalidade, culminando na morte dos criminosos, Rocha evidentemente faz um elogio à violência, mesmo sob um pretexto lógico de bem contra o mal. A música, talvez, seja a melhor representação disso. Ao usar termos como “papapá”, para simular o som de tiros, e “variante 556 e 9mm”, fica claro o caráter de celebração bélica. 

O caso pode até mesmo se enquadrar em sensacionalismo, uma vez que o fato é tratado de forma desrespeitosa, por meio de uma paródia de uma música infantil, ainda por cima. Na reportagem transparece um outro fator: a carga opinativa. Não é errado manifestar suas convicções pessoais, desde que seja o momento para tal. É, todavia, preferível que o jornalista busque atingir a neutralidade jornalística. 

Neutralidade e posicionamento

Não é proibido que um profissional da mídia tenha suas preferências políticas e ideológicas. Na prática jornalística, entretanto, existe a incessante busca pelo mito da neutralidade e objetividade. Mas por que mito? Geralmente, os jornalistas representam uma classe muito atacada por esferas políticas e públicas. Basta um comentário do profissional para que seja taxado de coxinha ou petralha — para não citar coisas piores. Por isso, convém estabelecer que o bom jornalismo é isento e objetivo. 

A notícia não surge sozinha, ou seja, falar que “os fatos falam por si só” é equivocado. A seleção das informações e os elementos verbais e não verbais demonstram uma subjetividade que se distancia do mito da objetividade. A neutralidade entra no mesmo caminho, uma vez que as convicções pessoais do jornalista podem influir no processo. Por isso, a pesquisadora Sylvia Moretzsohn afirma que “o jornalismo não é o discurso da realidade (como diz ser), mas um discurso sobre a realidade”.

No meio desse desafio de isenção e objetividade surge outro problema: a opinião. A separação entre informação e opinião é primordial para o desenvolvimento do bom jornalismo. No caso de Júnior Rocha, é indiscutível a forma como ele mistura os dois conceitos. Dessa forma, o público reconhece essa prática como um desvio ao que deveria ser o jornalismo ideal. Soma-se a isso, o choque causado pelo uso de uma paródia de canção infantil para noticiar mortes.

Apesar do caso Júnior Rocha ser um retrato da junção entre informação e opinião, neste caso, de caráter mórbido, a prática não é exclusiva do repórter. Em grandes programas policiais, como o próprio Brasil Urgente — apresentado por Datena —ou o Alerta Nacional de Sikêra Jr, é comum que não haja dissociação entre os dois, e infelizmente essa é uma prática que possui a tendência de permanecer.

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