Um circo em formato de casa

O que o sucesso do podcast A Mulher da Casa Abandonada diz sobre a espetacularização de assuntos sérios

Por Catarine Cavalcante

O podcast A Mulher da Casa Abandonada, veiculado pela Folha de São Paulo, é apresentado pelo repórter Chico Felitti e surgiu a partir da curiosidade sobre uma casa no bairro Higienópolis, onde o custo de vida é alto e a especulação imobiliária não costuma perdoar construções ultrapassadas que não fazem valer a sua boa localização. Só que nesta casa ninguém mexeu. Parada no tempo, parecia ter sido abandonada junto à mulher que vivia dentro dela.

No primeiro momento, identificada como Dona Mari, a moradora do casarão é uma senhora muito excêntrica, seja pela forma de se vestir, pela camada de pomada branca no rosto ou pela insistência em denunciar esquemas criminosos imaginários que derrubam árvores. Nas redondezas, não é das mais queridas. Tem quem a ache maluca, quem não goste das pequenas confusões que ela causa e tem os que conhecem a sua história.

O fato é que o nome dessa figura é Margarida Bonetti, membro de uma família tradicional com sobrenome de peso, mas que buscou se esconder por outros motivos. Acusada de manter uma pessoa em regime análogo à escravidão nos Estados Unidos, era uma foragida do FBI. Na década de 1980, se mudou para o estado de Maryland com o marido, René Bonetti, que pelo crime, foi julgado, condenado e cumpriu pena. Ao contrário da esposa, que voltou para o Brasil antes mesmo de qualquer julgamento e se recolheu na casa que tanto inquietou Chico Felitti. 

Quando alguém quer chamar atenção para algo a fim de que outros também vejam, é natural que o ilumine. Colocar luz sobre um objeto permite que ele possa ser observado com mais precisão, evidencia os detalhes, evita que características relevantes sejam ignoradas. Porém, essa não é uma dinâmica tão simples. Não se deve exagerar na claridade direcionada ao alvo, caso contrário ocorrerá o oposto do desejo inicial e ninguém vai conseguir ver nada. Luz demais cega.

Guy Debord, pensador francês, problematizou muito a questão do espetáculo e sobre como ele tomou conta de todos os âmbitos sociais. A realidade é deturpada, o excesso de imagens e luz a alteram até que a modificam, sem falar da interferência direta nas relações humanas. Por isso, ao contar uma história, é preciso ser cuidadoso. Não há aqui qualquer questionamento relacionado à qualidade do trabalho realizado pelos jornalistas da Folha de São Paulo encarregados do podcast, todavia é fato que a suposta denúncia feita por ele se tornou um espetáculo.

Desde o início, o narrador optou por construir um personagem quase folclórico em cima de Margarida Bonetti. Atribui a ela um caráter um tanto místico, a associa com imagens misteriosas como a de uma bruxa, tanto que no fim das contas a criminosa se tornou quase uma figura pop. O clímax foi durante a operação da polícia civil na famosa casa, que reuniu, além da equipe policial, diversos veículos de imprensa, ativistas dos direitos dos animais, moradores das redondezas, curiosos e qualquer um que estivesse com muita vontade de aparecer. O exagero foi tanto que a posição da mulher flertou, em inúmeros momentos, com o lugar de vítima. Inclusive, durante o programa Brasil Urgente, comandado pelo jornalista José Luiz Datena, ela chegou a ser descrita como “uma senhora indefesa”.

Uma situação que não surpreendeu, já que vinha sendo construída junto à alta popularidade de A Mulher da Casa Abandonada. O lugar havia se tornado um ponto turístico local, as pessoas visitavam, tiravam fotos, chamavam por Margarida e se vestiam como ela de acordo com o que foi descrito nos áudios, até mesmo coreografias de dança em frente a casa foram publicadas nas redes sociais. O espetáculo em sua gênese.

É claro que é importante denunciar casos como esse, espalhar informação sobre crimes desse tipo é essencial para combatê-los. Segundo a Folha, após a exibição do podcast, as denúncias de trabalho escravo doméstico duplicaram. Entretanto, existem formas mais prudentes e respeitosas de fazer isso. Um problema sério, apontado de um jeito tão espetacularizado e irresponsável faz com que o sentido real da denúncia fique em segundo plano. 

A vítima do crime foi desnecessariamente exposta inúmeras vezes pelo repórter. Ela que, mais de uma vez, deixou claro que não queria ser identificada e muito menos lembrar do que aconteceu no passado. Ele alega que a preservou porque não disse seu nome. O sofrimento e humilhação a que foi submetida são descritos com riqueza de detalhes, foram divulgadas tantas informações sobre ela que uma simples pesquisa no Google forneceria até fotos suas, mas ele jura que a preservou porque não disse o nome. O sociólogo Wellington Lopes, em entrevista para o programa Fantástico, da rede Globo, faz uma observação pertinente sobre a dona da casa: “as pessoas, principalmente na sociedade brasileira, têm um fetiche com a violência e com o horror. Estão consumindo como se não fosse real aquilo. Então, para as pessoas, essa mulher e a história, ela é mais uma história, mais uma série, é mais um personagem, é mais um vilão”. Muito do sucesso dessa história vem daí. 

A escolha do modo de relatar um fato às vezes revela mais que o fato em si. Todo discurso carrega algum nível de carga ideológica e isso não é nenhuma novidade. O último episódio do podcast é uma entrevista com Margarida, justificada pela máxima de que é preciso ouvir os dois lados. Por quase uma hora é possível escutar a mulher defendendo o indefensável, mentindo e fantasiando contra fatos comprovados apresentados por Chico. Ele, por sua vez, a confronta algumas vezes, mais para atacá-la do que qualquer outra coisa. Até porque qual objetivo de oferecer palco a alguém capaz de tamanha crueldade, senão puramente midiático?

Em um episódio de outro podcast da Folha, Café da Manhã, em que o tema é debatido, Felitti culpa outros veículos jornalísticos, como o de Datena, pelo circo que foi armado em torno da história que ele contou e que isso não é algo sobre o qual possui controle. Assim fica fácil.

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