Sensacionalismo estético: como a mídia resume a carreira e a vida das mulheres à aparência delas

Apesar de tantas discussões, artistas e famosas ainda vêem suas carreiras reduzidas à estética

Por Ana Luiza Brandão

A Guerra de Tróia é um dos mitos mais famosos da cultura grega, que começa com uma disputa de ego entre três grandes divindades: Hera, rainha do Olimpo; Atena, deusa da sabedoria e da estratégia em combate; e Afrodite, deusa do amor e da beleza. As imortais disputavam qual delas seria a mais bela olimpiana — o primeiro concurso de beleza da humanidade. Páris, mortal escolhido para juiz, recebeu de cada uma delas propostas tentadoras: caso escolhesse Hera, receberia poder e riqueza. Se escolhesse Atena, ganharia glória e fama na guerra. Afrodite, no entanto, ofereceu ao homem o amor da mais bela entre as mortais. Foi assim que Páris, por escolher a última deusa, conheceu Helena e, raptando-a, deu início à Guerra de Tróia.

Embora esse mito tenha sido criado há séculos, a origem da Guerra de Tróia reflete ainda hoje o imaginário das pessoas a respeito da principal qualidade de uma mulher: sua aparência física. Mesmo que duas das três deusas envolvidas tivessem tudo o que um homem pudesse querer — o título de nobreza do Olimpo, a inteligência estratégica no combate, fama e glória — Hera e Atena se sujeitaram a uma disputa por um simples título de ‘deusa mais bela’. Isso mostra o tanto que mulheres, por mais capazes e qualificadas que sejam, ainda se vêem reduzidas a sua aparência.

No dia 24 de julho, Manu Gavassi foi capa da revista feminina Ela, produzida pelo grupo Globo. A matéria e a escolha da manchete, no entanto, causaram descontentamento na jovem artista que, aos 29 anos, tem mais experiências em seu currículo do que tantos outros famosos das gerações anteriores. Manu usou o perfil dela no twitter  e no Instagram para comentar o quanto ficou insatisfeita com as escolhas da repórter Mariana Rosário.

A manchete “Explante de silicone, transição capilar e novo timbre: essa moça ‘tá’ diferente!” destaca mudanças estéticas recentes da famosa. No entanto, Manu se diz “chateada de uma notícia a respeito do meu corpo ter ofuscado o lançamento de um trabalho gigantesco”. Ela está atualmente em turnê pelo Brasil, depois de 3 meses de produção, e estreou como protagonista da série ‘Maldivas’, maior investimento da Netflix no Brasil.

Manu carrega no currículo os títulos de cantora, compositora, atriz, dubladora, apresentadora, escritora, diretora, produtora, roteirista e influenciadora digital brasileira. Já trabalhava artisticamente desde os 13 anos e, aos 17, suas músicas já faziam parte da trilha sonora de Rebeldes, novela da Record TV, com o clipe de “Garoto Errado” chegando a 2 milhões de visualizações em semanas. Entretanto, o nome dela teve grande repercussão em 2020, quando foi terceira colocada no Big Brother Brasil, maior reality show do país, por criar sozinha uma estratégia de divulgação nas redes sociais inédita, que foi copiada nas edições seguintes por outros influenciadores digitais.

Em toda sua produção artística e também em publicações da vida pessoal, Manu gosta de deixar claros os posicionamentos políticos e sociais, o que não foi diferente durante a entrevista para a Ela. Apesar disso, a reportagem comenta brevemente que Gavassi “fala firme sobre assuntos que julga importantes”, mencionando o posicionamento político da artista e pautas atuais, como aborto e hipersexualização feminina. Esses assuntos, no entanto, não preenchem nem um parágrafo completo, retornando logo para a pauta de liberdade criativa da artista. Há muito tempo, Manu tem atrelado sua imagem à militância feminista e expressou publicamente diversas vezes o quanto se sente incomodada por figuras femininas terem a carreira reduzida à aparência ou a pressões externas, algo que não acontece com a mesma frequência no universo masculino.

A entrevista já começa falando da transição capilar da cantora, o afastamento das redes sociais e da retirada de silicone. Embora sejam relevantes, esses assuntos ocupam um espaço na matéria que Gavassi diz não corresponder à realidade. Para ela, o destaque deveria ser dado às conquistas em sua carreira.

A narração segue comentando sobre a estética da turnê “Eu só queria ser normal”. Menciona que a artista costuma trabalhar em diversos projetos ao mesmo tempo e cita brevemente ‘Maldivas’, série que entrou no top 10 mundial das mais assistidas de língua não inglesa. Apesar de Manu ser uma das protagonistas e ter recebido um dos maiores cachês já negociados por uma atriz no Brasil, a reportagem volta-se rapidamente para o relacionamento amoroso dela com o modelo Jullio Reis.

Nos comentários, outra figura de destaque criticou a postura da revista Ela: Rafa Kalimann. A empresária e influenciadora digital, que teve destaque na carreira no mesmo momento em que Gavassi — na 20° edição do BBB, em que foi vice-campeã — comentou sobre a sua própria experiência com a revista: “também me senti reduzida com as chamadas depois de ter passado horas dando uma das minhas melhores e mais completas entrevistas”.

A entrevista a que Kalimann se refere foi produzida também por uma repórter mulher (Alessandra Medina), publicada em junho deste ano. A chamada: “Rafa Kalimann fala sobre síndrome do pânico e medo de engordar: ‘’porrada muito grande”, mistura um tema de saúde mental grave com algo que poderia ser uma vaidade da influenciadora, deixando-a fútil aos olhos do público.

Contudo, diferente do que aconteceu com Manu, a entrevista de Rafa deu mais espaço para pensamentos, o que destaca a dissonância entre as falas completas da influenciadora e as aspas escolhidas para a manchete. Kalimann aborda, durante a conversa, temas como profissão, vida pessoal, religião — um dos principais assuntos relacionados a sua figura — críticas, principalmente sobre o corpo, e como essas e outras questões a levaram a desenvolver síndrome do pânico e a precisar de terapia.

Um dos momentos mais sensíveis da entrevista é quando Rafa conta da cobrança pelo corpo perfeito: “Com 13 anos, fui para São Paulo trabalhar como modelo. Na agência, tem uma fita métrica para checarem suas medidas todos os dias. Na época, não tinha consciência do trauma que aquilo me causaria, das noias que eu teria com o meu corpo.” Depois de anos lidando com a pressão externa sobre sua aparência, a influenciadora percebeu que havia chegado ao seu limite. “(…) fui a uma médica e disse que não aguentava mais. Ela me perguntou por que queria perder peso. Eu não sabia responder. Falei que era porque o meu marido gostava, minha mãe achava que estava acima do peso. Nunca porque eu queria”, contou. 

O trecho evidencia como a manchete reduziu as reflexões da jovem que, aos 29 anos, se vê cobrada pela mídia constantemente em relação a sua aparência. A escolha das palavras ‘medo de engordar’, que poderia facilmente ser substituída por ‘culto à magreza’ ou qualquer outra frase que evidenciasse o sofrimento de Rafa para se encaixar em padrões estéticos, só mostra o enquadramento que a mídia ainda opta por dar para essas mulheres, seja em busca de engajamento na mídia, seja qualquer outra forma de autopropaganda. 

Apesar disso, essas e outras figuras públicas seguem acreditando que a mídia pode sim dar mais espaço para assuntos menos sensacionalistas e mais verossímeis na produção de suas matérias. A leitura crítica do público e a cobrança por jornalismo de qualidade têm grande poder de influência nos rumos que os jornais seguem, e só com verdadeiro interesse por parte do público a imprensa será capaz de redefinir seus critérios e abordar uma nova estratégia.

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