O Caso Guilherme: sinal de um problema maior

Guilherme cometeu suicídio durante a apresentação do seu Trabalho de Conclusão de Curso. Dados sobre a população universitária brasileira demonstram quão significativo foi seu caso.

Texto por Amanda Macêdo

Guilherme Santos Andrade não ouviu o último professor de sua banca. Desistiu antes. Com 24 anos o estudante da Faculdade Baiana de Direito desligou o computador na apresentação do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), em 7 de julho, e se jogou do prédio onde morava em Salvador. Segundo informações divulgadas por amigos e familiares, uma das professoras da banca avaliadora proferiu comentários humilhantes durante sua avaliação, incluindo “duras críticas” e “desmerecendo toda a carreira acadêmica” de Guilherme.

O corpo do estudante foi sepultado na sexta-feira (8/7), na cidade de Santo Antônio de Jesus, sua cidade natal, no interior da Bahia. A Faculdade Baiana de Direito lamentou o episódio e determinou luto oficial de três dias, publicando em nota:

“Toda a comunidade da Faculdade Baiana de Direito está abalada com o falecimento do aluno Guilherme Santos de Andrade. Estamos em luto e profundamente consternados com a perda de um membro da nossa comunidade acadêmica. Entendemos e compartilhamos o momento de aflição vivenciado. É difícil privar-se da dor da perda tão inesperada e precoce de uma pessoa, e comunicar o seu falecimento é um dever doloroso: a assimilação foi triste e pesarosa. Para todos aqueles que estão em busca de apoio psicológico para superar este momento, colocamo-nos à disposição para atendimento, acolhimento e escuta através do Núcleo de Apoio Psicopedagógico, por meio do telefone (71) 9 9969-1100”

Já aprovado na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e prestando serviços na defensoria pública, Guilherme representa uma parcela significativa da população universitária brasileira.

Feita majoritariamente por veículos de menor circulação, a cobertura do caso do jovem reduziu uma discussão profunda apenas à atitude da professora citada. O foco em uma atitude isolada resume questões complexas como adoecimento mental, suicídio e depressão a um acontecimento eventual. E os dados comprovam que não são eventualidades. No Brasil, a taxa de suicídio entre universitários cresce ano a ano, desde 2002, e o país ocupa o primeiro lugar na América Latina, de acordo com as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A 5ª edição da Pesquisa do Perfil Socioeconômico dos Estudantes das Universidades Federais, feita em 2018 pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), aponta outros dados alarmantes: 83,5% dos estudantes entrevistados responderam que vivenciaram alguma dificuldade emocional que interferiu na vida acadêmica. O mesmo índice estava em 79,8% no ano de 2014. Dados mais preocupantes estão na porcentagem de ideação de morte e pensamento suicida, 10,8% e 8,5%, respectivamente.

O período universitário se mostra um momento delicado de transição entre adolescência e vida adulta, com mais instabilidade emocional e adaptações difíceis. Para além disso, os casos de abusos emocionais, sobrecarga e exaustão dentro da academia não são raros. Sentimentos suicidas e transtornos mentais não acontecem de um dia para o outro. Esse período se mostra ainda sensível aliado a outros fatores comuns à juventude, como sexualidade, relacionamentos, autoreconhecimento e início de uma independência adulta, sendo frequentemente uma fase de instabilidade emocional.

O caso teve repercussão ainda maior nas redes sociais, trazendo à pauta a discussão sobre pressões dentro de algumas universidades. Um discurso institucional que prioriza resultados a qualquer custo, acima da saúde do estudante, é citado extensivamente. Frieza e desumanidade por parte de docentes são ainda outro tema frequente entre discentes de diferentes áreas do conhecimento e regiões brasileiras, demonstrando fundamental o debate sobre responsabilidade e sensibilidade de professores ao longo da graduação e em avaliações.

Em entrevista à revista Gama, o psiquiatra e professor de Medicina Preventiva e Social Helian Nunes de Oliveira cita exemplos que  podem tornar o ambiente do ensino superior danoso: “excesso de carga horária, cursos e disciplinas mal planejadas que acabam sobrecarregando os alunos, calendários mal estruturados e a pressão de professores, colegas e dos próprios estudantes.” Dois momentos da vida acadêmica são citados por Nunes como cruciais para a saúde mental dos alunos: a entrada na universidade e a saída.

“Se a entrada em um mundo novo, completamente diferente de tudo o que o aluno conhecia antes, pode ser assustadora, o adeus a esse ambiente também tende a ser difícil. O jovem, que por toda sua vida enxergava um trilho acadêmico à sua frente (ensino fundamental, ensino médio e ensino superior), se vê pela primeira vez sem direção certa. No último ano o aluno começa a olhar para o mercado de trabalho e perceber que, daqui há pouco, o cordão umbilical com as instituições de ensino será cortado. Tanto o começo quanto o final da faculdade são momentos de grande apreensão, é necessário monitorar esses alunos e agir quando necessário.”

Além de falar sobre casos isolados e contar histórias de estudantes como Guilherme, é fundamental, ainda, debater o que adoece brasileiros jovens e quais são as raízes desse problema. O Brasil enfrenta uma crise sanitária que inclui questões mentais. É importante não deixar casos serem percebidos como anomalias em um sistema e adicionados aos dados sem que ocorra um debate a respeito das causas e soluções, sem que se vá a fundo nessa questão tão presente e insistente, e a universidade tem papel indispensável aqui . A prevenção e o combate partem primeiramente do Estado, e a universidade, como espaço de ensino, pesquisa e extensão se faz palco principal de debates como esse, com potenciais extraordinários. É necessária a disponibilização de apoio psicológico funcional e pleno, capaz de apoiar integrantes da academia antes que casos extremos se instalem, além de garantir um ambiente saudável e propício à formação de profissionais capazes. Que não deixemos ser em vão.

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