A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NOS PADRÕES DE BELEZA

Como propagação de ideais de beleza podem ser prejudiciais a saúde mental e física das mulheres

Por Júlia Cerejo e Sthefany Rocha

Desde séculos passados, padrões de beleza são impostos às mulheres. Atualmente, a mídia contribui na criação da pressão estética sobre os corpos femininos. O que antes era divulgado pelos meios de comunicação impressos, como revistas e jornais, que exibiam mulheres magras, brancas e com curvas acentuadas, nos últimos anos, passou a ser, majoritariamente, disseminado na  publicação de vídeos e imagens nas redes sociais, como o Instagram, e na televisão.

A rede social que nasceu em 2010, com a função de compartilhar estilos de vida, fomenta uma cultura de corpos perfeitos inalcançáveis. Diariamente, inúmeras páginas associam saúde a corpos magros e definidos e estimulam procedimentos estéticos para atingir uma beleza ideal. Uma variedade de cirurgias plásticas são exibidas com tanta naturalidade que aparentam ser intervenções simples e sem riscos.

O Brasil é o segundo país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo, com uma média de 1,5 milhões de procedimentos realizados por ano, conforme a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). As justificativas mais frequentes são a insatisfação com o próprio corpo ou seguir tendências do momento.  

Era Kardashian

A década passada foi responsável por criar e reproduzir padrões de vida considerados perfeitos, mas em 2007, utilizando todos os mecanismos de beleza que percorriam o momento, o programa “Keeping Up with the Kardashians” foi ao ar pela primeira vez. O reality show que mostrava a rotina da família Kardashian – Jenner – , tornou-se mundialmente famoso e passou a atuar como um ditador do que era bonito, atraente e estava na moda.

As irmãs Kim, Kourtney, Khloé, Kendall e Kylie sempre aparecem perfeitas na televisão e nas redes sociais, onde, juntas, acumulam mais de um bilhão de seguidores só no Instagram. Donas de grandes marcas de roupas e maquiagens, elas consequentemente, adquirem um grande poder de influência e as tendências que lançam têm alcance mundial, 

Foto:Instagram @kimkardashian/ Reprodução

 Em maio de 2022, Kim passou pelo tapete vermelho do Met Gala com um vestido usado originalmente por Marilyn Monroe. Ao ser questionada por uma repórter da revista Vogue, a empresária falou abertamente que, em três semanas, perdeu 7 kg para entrar na roupa. Além de incentivar dietas compulsivas, a declaração sobre a perda relâmpago de peso em pouco tempo para entrar em um vestido reforça a narrativa do emagrecimento como uma tática para alcançar um padrão de beleza que se sustenta na magreza e influencia a maneira como muitas mulheres lidam com o próprio corpo.

A escritora Naomi Wolf aponta, em seu livro O mito da beleza, publicado no Brasil em 2018 pela editora Rosas do Tempo (RJ), o que chama de “Solução dos Sete Quilos”, em que mulheres entram em ciclos de perda e ganho de peso como uma maneira de se sentirem inseridas no padrão midiatizado. E entram em “ciclos inevitáveis de fracasso garantidos pela Solução do Sete Quilos que criam e intensificam nas mulheres essa nossa neurose exclusivamente moderna”.

Sobre a relação entre mídias sociais e procedimentos estéticos, o cirurgião plástico Victor Cutait, apontou em uma coluna da Veja Saúde de 2021, como os corpos veiculados pelas redes sociais intervém na maneira como o público feminino busca os padrões de beleza, visto que a divulgação intensa de imagens e propagandas de procedimentos que mudam a aparência influem um desejo em reproduzir o que é apresentado.”Com a expansão das mídias sociais e a ascensão dos influenciadores digitais, o corpo feminino perfeito passou a ser inspirado pelo o que está em nossos feeds do Instagram (…) Mas o que a cirurgia plástica tem a ver com isso? Absolutamente tudo! Há séculos, as mulheres são induzidas a se enquadrar em padrões irreais de beleza.”

Em 2017, Khloé, a terceira das irmãs Kardashian, que desde o início do reality  “Keeping Up with the Kardashians” recebeu ataques contra o seu corpo pela diferença física das outras irmãs, ao longo dos anos sofreu mudanças corporais acompanhadas pelo público e, coincidentemente, apresentou o programa Revenge Body. Significa  corpo de vingança, expressão que caracteriza uma transformação corporal como volta por cima-), com o conteúdo destinado a mulheres que vivenciaram traumas e problemas de autoestima e com a ajuda de especialistas emagreceram, o que associa, mais uma vez, a beleza a um corpo magro. Em seu livro “Mentes Insaciáveis”, publicado no Brasil  em 2005, pela editora Ediouro (RJ), a médica Ana Beatriz Barbosa explica: “[…] As belezas sintéticas e de consumo passaram a ser eficazmente administradas por normas econômicas e pela ‘mass media’, que determinam o que é belo e qual o padrão estético da beleza, especialmente, a feminina”.  

A fala da Dra. Barbosa, é explicativa também em relação às fotos de si mesmas que as irmãs costumam compartilhar. Da geração das Kardashian-Jenner, as jovens irmãs Kendall e Kylie ditam moda ao postarem simples fotos em suas redes sociais e uma das que recentemente chamou a atenção pela edição que sofreu, foi a em que Kendall posou para a marca de lingerie SKIMS, da irmã Kim. 

A foto que atinge com facilidade diversas jovens, circula um corpo inalcançável, construindo assim um ideal de padrão de beleza entre as mulheres. Ao tentar replicar esse padrão, Barbosa diz: “estaremos brincando de Deus pelo lado ruim: ao criar corpos clonados a partir de um ser perfeito fisicamente, porém inexistente”.    

Foto:Instagram @kendalljenner/Reprodução

Filtros do Instagram

O aumento da popularidade dos filtros nas redes sociais, principalmente no Instagram e no TikTok, que proporcionam uma  aparência supostamente melhor  aos usuários por meio de Realidade Aumentada (RA), pode ser considerado como uma consequência de um imaginário da beleza. “Esse ideal é um fenômeno observado em função da pressão das redes sociais, numa busca compulsiva por likes. Usando as ferramentas de modificação de imagem ou os filtros, muitos querem ter aquela aparência que no mundo real é difícil ou até impossível de atingir”, analisa André Maranhão, médico cirurgião plástico membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, em entrevista para editoria Universa no Portal Uol em 2022. Maranhão alerta sobre os efeitos colaterais a longo prazo do simples ato de adicionar um filtro. Esse comportamento é potencialmente prejudicial à saúde mental, podendo levar a uma baixa autoestima e, em casos mais severos, a depressão. 

De acordo com o censo realizado em 2018 pela SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica),  os dois procedimentos não cirúrgicos mais procurados foram: aplicação de toxina botulínica, uma proteína que aplicada em pequenas quantidades causa paralisação dos músculos faciais localizados, comumente usada para retirar linhas de expressão e rugas; e o preenchimento, aplicação de ácido hialurônico em regiões do rosto para promoção da “harmonização facial”. Já as cirurgias plásticas mais buscadas foram o aumento de mama,  aplicação de prótese de silicone nos seios, e a lipoaspiração, que retira gorduras de determinadas áreas do corpo.

Outro ponto importante a ser destacado, é que o padrão de beleza utilizado como referência para a criação dos filtros das redes sociais se baseia em uma estética branca e eurocêntrica, e, consequentemente reproduz racismo, ao clarear a pele, afinar o nariz e mudar a cor dos olhos, retiram e apagam características fenotípicas negras. A criadora de conteúdo e fundadora do Clube da Preta, Débora Luz, em entrevista publicada em 2021 na agência de jornalismo Alma Preta, relatou que alguns filtros podem ser danosos à autoestima negra.

“Quando você utiliza filtros, eles ‘tiram’ tudo que a sociedade diz não ser bonito. Manchas de melasma, espinhas, características de um rosto negroide. Tudo que é caracteristicamente normal uma pele ter, ele vai tirar. Os filtros tentam trazer uma perfeição segundo padrões da sociedade. Os nossos traços negros são os mais modificados”, apontou Débora.

“A ‘beleza’ é um sistema monetário semelhante ao padrão-ouro. Como qualquer sistema, ele é determinado pela política, e na era moderna no mundo ocidental, consiste no último e melhor conjunto de crenças a manter intacto o domínio masculino”, afirma Naomi Wolf, em “O Mito da Beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres”, publicado pela editora Rosa dos Tempos, em 2018.

A pressão estética sobre as mulheres, além de ser reflexo de um sistema estruturado no machismo, que reforça o patriarcado, é mercadológica e, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), e movimenta bilhões todos os anos. É, portanto, segundo Naomi Wolf em O Mito da Beleza, uma estratégia de retroalimentação do mercado, uma vez que, para manter o controle sobre os corpos das mulheres, a cultura machista cria um padrão de beleza inalcançável e a indústria de cosméticos e publicitária lucra cada vez mais ao vender soluções, muitas vezes ilusórias, para a insatisfação feminina com o próprio corpo. Os estudos feministas e movimentos de mulheres provocaram mudanças e, consequentemente, paradigmas de beleza vem sendo desfeitos. Cada vez mais, correntes de pensamentos, explicados na matéria do Portal do Correio de 2021, como o Body Positive e Corpo Livre, vem incentivando campanhas que celebram corpos diversos, que ganham espaço na mídia, e são essenciais que continuem. Porém, o caminho ainda é longo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s