Sabatinas no JN: muita audiência e conteúdo inconsistente

Entrevistas tiveram grande visibilidade no Brasil, mas poderiam ser feitas com mais profissionalismo pelos jornalistas e estratégia pelos presidenciáveis

Por Gabriel Benevides

A semana retrasada foi marcada pelas quatro sabatinas de presidenciáveis no Jornal Nacional, transmitidas pela Rede Globo. Os entrevistados foram os candidatos Jair Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Simone Tebet (MDB) e Ciro Gomes (PDT). 

As transmissões televisivas foram extremamente comentadas no Brasil ao longo da semana na mídia e das redes sociais. No Jornal Nacional, a entrevista com Bolsonaro rendeu a maior audiência do programa desde 20 de março de 2020, com um pico de 35,6 pontos, segundo o Ibope. Seu principal adversário na corrida eleitoral, Lula, alcançou uma audiência máxima de 33,8 pontos. 

Os números demonstram a relevância do telejornal nas eleições brasileiras. São por eles que muitos brasileiros tomam suas decisões de votos ou são, inclusive, apresentados a alguns candidatos. 

Porém, não se pode dizer que as entrevistas não tiveram inconsistências, tanto por parte dos profissionais do jornalismo e seu veículo, quanto pelos candidatos que participaram dos programas. 

Neste texto, o SOS Imprensa traz análises e reflexões sobre momentos das sabatinas que se deram entre os dias 22 e 28 de agosto. 

BOLSONARO NO JN 

Durante sua participação no telejornal, o atual chefe do Executivo e candidato à reeleição foi inconsistente em suas falas. Quando, por exemplo, a âncora Renata Vasconcelos questionou Bolsonaro sobre seu descaso com os mortos por covid-19 no Brasil ao imitar pacientes com falta de ar. O presidente disse que a acusação não é verdadeira, apesar de os vídeos com o deboche  estarem na internet. 

Reprodução/TikTok/G1

Outro momento se deu quando o jornalista William Bonner disse que Bolsonaro atacou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O candidato, mais uma vez, negou as acusações, apesar de já ter xingado o ministro Luis Roberto Barroso e Alexandre de Moraes recorrentemente. Bolsonaro ainda afirmou a Bonner que “isso é fake news da sua parte”. 

Um compilado da apuração das falas de Bolsonaro em sua sabatina pode ser conferido no portal Fato ou Fake do G1.

Reprodução/Rede Globo

Porém, não só o presidente foi inconsistente na entrevista. No mesmo momento em que foi acusado de divulgar informações falsas, o próprio William Bonner teria desrespeitado o princípio jornalístico da imparcialidade ao expressar uma espécie de sorriso debochado.

Claro, uma das funções dos jornalistas em situação de entrevista é colocar o candidato  “contra a parede”. Porém, isso deve ser feito com neutralidade. 

Em defesa de Bonner, alguns outros profissionais foram favoráveis à postura do âncora. A comentarista do UOL, Cristina Padiglione, disse que essa foi  “uma maneira muito elegante de reagir a uma acusação como aquela”.

Outras críticas ao Jornal Nacional se dão por não terem dado tanto enfoque às propostas e políticas de Bolsonaro durante o mandato e em uma possível reeleição. A sabatina teria voltado mais para  falas polêmicas do presidente do que à atuação na política pública. 

LULA NO JN 

A entrevista com Lula se iniciou com um erro jornalístico. Logo na primeira pergunta ao ex-presidente, William Bonner disse: “o senhor não deve nada à Justiça”. A afirmação não condiz com a realidade, pois três processos contra o candidato ainda tramitam no judiciário do Distrito Federal. 

Uma fala como é essa é extremamente prejudicial, pois dá espaço para que questionamentos dos grupos de direita anti-petista tenham mais força para enfraquecer o jornalismo brasileiro. 

Lula também foi inconsistente em suas falas no Jornal Nacional ao, por exemplo, afirmar que foi responsável por criar a lei contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, o texto foi sancionado por Fernando Henrique Cardoso em março de 1998. 

Assim como no caso de Bolsonaro, o Fato ou Fake analisou informações de Lula em sua sabatina. 

Reprodução/Rede Globo

Apesar de ter buscado se desviar de temas polêmicos, como a corrupção, o ex-presidente soube responder às perguntas dos jornalistas e sair da zona de conforto em que geralmente se mantém.

Ao admitir que a também ex-presidente pelo PT Dilma Rousseff cometeu erros durante sua gestão, Lula conseguiu expandir seu eleitorado e mostrar que está aberto à autocrítica, por exemplo. 

Nesta entrevista, mesmo as perguntas que envolviam corrupção foram mais centradas em temas relacionados a um possível novo governo Lula. 

TERCEIRA VIA NO JN

Simone Tebet e Ciro Gomes, principais  representantes da chamada terceira via brasileira, não tiveram um destaque tão expressivo no jornal. Apesar de terem registrado números de audiência elevados para suas posições nas pesquisas eleitorais, ambos se mantiveram no discurso técnico e não mostraram oportunidade de cativar o grande público.

As perguntas dos entrevistadores foram mais engessadas e técnicas, porém isso pode se justificar pela pouca presença e influência dos candidatos na mídia.  

Em geral, Ciro Gomes precisa entender que falar de um livro e utilizar termos técnicos não é suficiente para cativar o povo. Apresentar suas propostas é, sim, importante, porém muitas vezes é necessário traduzir a linguagem de expressão. 

O próprio candidato admitiu isso sem perceber em um evento realizado em 31 de agosto, quando deu a entender que as falas de seu comício não seriam muito bem entendidas “na favela”. 

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Reproduçã/TikTok/cortespensantes

Tebet sofre de um problema similar. Apesar de seus anos de experiência como prefeita e senadora, é necessário entender que ela não é uma figura conhecida e que precisa se destacar em meio ao grande público para contornar a situação. 

Em um cenário em que ambos não possuem nem 10% dos votos, não adianta limitar seu discurso a uma parte pouco expressiva da população. Ressalte-se, porém, que após a participação no debate da rede Bandeirantes e as entrevistas ao Jornal Nacional, Ciro e Tebet, coincidência ou não, subiram nas pesquisas de intenção de votos.

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