Coração de Dom Pedro: a estratégia política de Bolsonaro

Do coração ao palanque eleitoral no dia da Independência: como Bolsonaro se apossou de símbolos históricos para fazer campanha política

Por Rafael Tiberi

Transportado diretamente de Portugal, o coração de Dom Pedro I esteve em exposição no Palácio do Itamaraty, de 24 de agosto a 4 de setembro, para celebrar o bicentenário da independência. No dia 7, o órgão foi usado como símbolo da memória nacional em um evento com autoridades do governo em Brasília.

Reprodução: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Morto em 1834 devido a tuberculose, Dom Pedro I se encantou com a cidade do Porto, em Portugal,de tal modo que, em seu testamento, o ex-imperador pediu que seu coração fosse conservado ali quando morresse. Seu desejo foi atendido, desde 1837 o órgão está conservado na Igreja Nossa Senhora da Lapa.

Houve muita contestação por parte dos intelectuais brasileiros quanto à  vinda do órgão à Brasília. Primeiramente, pelo desrespeito à vontade do imperador de deixar seu coração em repouso na cidade de Porto. Além disso, as pretensões do atual presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), uma notável cobertura midiática e o orçamento despendido estão no centro das críticas. 

De acordo com a historiadora Lilia Schwarcz em entrevista ao Uol, em 22 de agosto, os propósitos de Jair Bolsonaro ao trazer o coração para o Brasil são três: buscar a reeleição, reafirmar seu papel como líder e suavizar a atmosfera de crise econômica. O resgate à memória da ditadura e a tentativa de mudar a lembrança coletiva das comemorações do 7 de setembro também estão nos planos presidenciais. 

O discurso presidencial na cerimônia da Independência deixa tudo isso muito evidente. Ao apelar para a luta do “bem contra o mal” e puxar o coro de “imbroxável”, Bolsonaro tenta se impor como líder para a massa de manifestantes que o vê  como “mito”, ao mesmo tempo que provoca instabilidades  no cenário político. 

Reprodução: Correio Braziliense. Créditos: Ed Alves/CB

Tweet com vídeo do coro de imbroxável: <blockquote class=”twitter-tweet”><p lang=”pt” dir=”ltr”>Na Globo News, Bolsonaro grita repetidamente: “Imbroxavel”. Assista.<br><br>🎥 TW <a href=”https://t.co/8AHSJk4VlN”>pic.twitter.com/8AHSJk4VlN</a></p>&mdash; Site RD1 (@rd1oficial) <a href=”https://twitter.com/rd1oficial/status/1567590407046930434?ref_src=twsrc%5Etfw”>September 7, 2022</a></blockquote> https://platform.twitter.com/widgets.js

Na mesma entrevista, Lilia Schwarcz apontou como Bolsonaro tenta se equivaler à figura de Dom Pedro I. O imperador foi acusado por alguns estudiosos de dar um golpe em seu pai, Dom João VI, ao declarar a independência do Brasil. O presidente há tempos descredibiliza o processo democrático brasileiro e aponta uma“ameaça comunista” que vai destruir o País. Assim, se coloca como o “salvador da pátria” ao dar ameaças de golpe, o qual defende que seja para  o “bem maior”. Ao trazer o coração, Bolsonaro busca  consolidar ao máximo a imagem de salvador no inconsciente brasileiro. 

Outra pretensão do presidente é dialogar com a cerimônia dos 150 anos da independência, quando o governo do general  Emílio Garrastazu Médici, terceiro Presidente do regime militar instaurado no Brasil em 1964, trouxe a ossada de Dom Pedro I para as comemorações do 7 de setembro de  1972.  Ao trazer o coração, o governo brasileiro tenta criar um sentimento ufanista (nacionalismo exacerbado e acrítico), além de tratar a ditadura com certo saudosismo. Também semelhante a 1972, o governo atual sequestra a festa da independência para dialogar com seus apoiadores. Aquilo que deveria ser uma data de celebração e festejos, acaba por se tornar mais um comício eleitoral, que enche as ruas de cidades como Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo de pessoas trajadas com a camisa da Seleção brasileira. De acordo com Schwarz, outro paralelo é que ambas comemorações podem ser consideradas patriotadas: atos que esvaziam o significado da festa, já que o foco deveria ser cívico, não militar. 

> Estadão - 13/8/1971, 19/3/1972 e 23/4/1972  
Reprodução: Acervo/ Estadão

Além disso, tentam mudar a visão que ficou do 7 de setembro anterior. Em meio a ameaças à democracia e exaltação dos militares, em 2021 a movimentação em Brasília foi bem grande. Porém, o que se associou muito ao ato foi a imagem de tanques velhos e fumacentos – ou “fumacê”, segundo as redes sociais na época – em um desfile que se deu poucos dias antes da cerimônia de independência. 

Reprodução/ Folha de São Paulo

    A cobertura midiática da vinda do coração de Dom  Pedro foi, de certa forma, um tanto quanto exagerada. Diariamente, alguns veículos de comunicação e redes sociais ligadas ao presidente repetiam sobre a chegada do coração do imperador ao Brasil, sempre de maneira a beirar o ufanismo. A falta de uma cobertura crítica por parte de parcela a mídia foi parcialmente suprida por entrevistas de acadêmicos brasileiros, como a já citada Lilia Schwarcz.

    Também vale lembrar que não houve divulgação oficial dos custos da operação de transporte do órgão. O acordo com as autoridades portuguesas propunha que o governo brasileiro deve arcar com os custos. Segundo reportagem de Lauro Jardim no jornal O Globo, as viagens presidenciais em aviões da FAB (Força Aérea Brasileira) custam em torno de 120 reais o quilômetro rodado. De Brasília até Porto são mais de 7000 quilômetros, daí é possível ter uma vaga noção do valor pago pelo governo apenas no transporte. Ao considerar os custos das cerimônias e das exposições, o valor deve ser ainda maior

Link do twitter FAB anunciando a vinda do coração: <blockquote class=”twitter-tweet”><p lang=”pt” dir=”ltr”><a href=”https://twitter.com/hashtag/Bicenten%C3%A1rio?src=hash&amp;ref_src=twsrc%5Etfw”>#Bicentenário</a><br>Na manhã de hoje (22/08), aeronave da FAB pousou na Base Aérea de Brasília com o coração de D. Pedro I, primeiro Imperador do Brasil.<br>Confira trechos da cerimônia. <a href=”https://t.co/JCv0tTK4uy”>pic.twitter.com/JCv0tTK4uy</a></p>&mdash; Força Aérea Brasileira 🇧🇷 (@fab_oficial) <a href=”https://twitter.com/fab_oficial/status/1561722267750617088?ref_src=twsrc%5Etfw”>August 22, 2022</a></blockquote> https://platform.twitter.com/widgets.js

Vale aqui apontar que o Brasil, apesar de ter rompido parcialmente com Portugal na época da independência, pouco fez ao longo de sua história para colocar o povo no centro do poder. Em entrevista à BBC News Brasil, de 11 de fevereiro de 2022, a professora do departamento de história da Universidade Federal de Juiz de Fora Cláudia Viscardi coloca a necessidade de se usar esse momento de bicentenário para reavaliar a nação. Repensar o Brasil, analisar o progresso e o regresso são ações que poderiam ser feitas por autoridades da nação em meio às comemorações desses 200 anos. Porém, o governo tropeçou em atos ufanistas e tentativas medíocres de palanque eleitoral.

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