Sacralização das eleições

Como a associação da disputa eleitoral a uma guerra espiritual, por meio da propagação de uma religião hegemônica, evidencia o racismo religioso

Por Sthefany Rocha

No Brasil, ditados populares dizem que política e religião não se misturam, essa ideia, porém, não é aplicável na vida real. No passado colonial de domínio da Igreja Católica, que representava um poder político para Portugal importantíssimo — uma vez que, sendo uma religião homogênea na população, facilitaria a manutenção do controle sobre colônia. Após diversas transformações sociais, as religiões cristãs, como o catolicismo e o protestantismo, ainda são utilizadas para o domínio político.

É importante ressaltar que este texto não tem a intenção de atacar ou criticar os valores das religiões cristãs, mas sim, fazer uma análise de como os seus ideais estão sendo utilizados por pessoas que visam espaços de decisão política.

Este ano de 2022 ficará marcado pela disputa eleitoral entre os candidatos que lideram as pesquisas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Os dois competem por popularidade para alcançar o cargo de Presidente da República. Evento que está sendo denominado pelos apoiadores de Bolsonaro, como “Guerra Santa” e luta do “bem contra mal”, faz referência a passagens bíblicas do Novo Testamento e é uma estratégia de campanha para angariar votos dos cristãos. 

Durante os quatro anos de governo, o presidente Bolsonaro fez acenos a grupos religiosos — principalmente os evangélicos — cumprindo a promessa de indicar para o Supremo Tribunal Federal, um ministro “terrivelmente evangélico”, no caso André Mendonça, e nomeando personalidades, como Damares Alves e Milton Ribeiro, para importantes ministérios. Além disso,   mantém contato com líderes famosos de igrejas protestantes: Edir Macedo, Silas Malafaia, Marco Feliciano e vários outros.

 Na campanha eleitoral não seria diferente. Para levar a decisão presidencial ao segundo turno das eleições, Bolsonaro vem utilizando dos discursos religiosos para conseguir apoio dos grupos cristãos mais conservadores. Segundo a última pesquisa de intenção de voto publicada pelo Instituto de Pesquisa Datafolha, no dia 19 de agosto, o ex-presidente Lula lidera a disputa pela presidência com 47% dos votos contra 32% de Bolsonaro. Porém, o atual presidente aumentou as menções de votos em 6 pontos entre o segmento evangélico (de 43% para 49%), abrindo uma diferença de 17 pontos de Lula, que tem 32%. 

Em uma matéria do portal Uol, analistas políticos apontam que a participação ativa de Michelle Bolsonaro na campanha deste ano está ajudando Bolsonaro a ter mais engajamento entre os cristãos de direita e extrema direita, e entre as mulheres. Desde junho de 2022, a estratégia de campanha de Jair Bolsonaro começou a utilizar a imagem de Michelle como símbolo de religiosidade e de representação da mulher, principalmente a evangélica dona de casa. Com discurso atrelado a uma ideia de moral e “bons costumes”, a primeira-dama tem feito declarações afirmando que Bolsonaro foi escolhido por Deus para libertar o país do que antes era governado por demônios, se referindo aos governos passados do PT (Partido dos Trabalhadores) e reforçando a narrativa de guerra entre bem e o mal.

No evento de lançamento de candidatura do Bolsonaro, em 24 de julho, Michelle falou por 12 minutos, fez diversas associações a passagens da bíblia e finalizou dizendo: “não negocie com o mal, essa luta não é entre homens e mulheres, é contra potestades e principados”- potestades e principados são governantes espirituais, que podem estar a serviço de Deus ou do Diabo, conforme o contexto do Novo Testamento na bíblia cristã. Alguns dias depois, em 07 de agosto, ela participou de um culto na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, onde voltou reforçar a ideia de uma “guerra espiritual” e no decorrer da pregação disse: “Durante muito tempo aquele lugar foi consagrado a demônios, cozinha consagrada a demônios, Planalto consagrado a demônios, e hoje consagrado ao senhor Jesus”.

 Toda essa narrativa impulsiona a propagação de informações falsas. Uma análise da consultoria Bites revelou que a notícia falsa de que o ex-presidente Lula vai fechar igrejas, caso ganhe a eleição, alcançou cerca de 142 milhões de perfis apenas no Twitter, contando o mundo todo e não apenas o Brasil, mesmo sendo checada e constatada a falsidade por diversas agências. A mentira repercutiu tanto que os coordenadores da campanha do ex-presidente colocaram uma imagem para circular nas redes com a frase: “Lula é cristão. Nunca fechou nem vai fechar igrejas”, e publicaram um esclarecimento no site oficial do Lula

Foto: Verdade na Rede

Apesar de ser proporções bem menores que Bolsonaro, o ex-presidente Lula também sinaliza para grupos religiosos, principalmente após extensiva comparação de sua imagem ao mal e as insinuações de que ele teria feito pacto com o “demônio”, propagadas pelos apoiadores mais fanáticos do atual presidente. 

As declarações que mais ganharam destaque ocorreram durante o comício no Vale Anhangabaú, em São Paulo, no dia 20 de agosto. No discurso Lula defendeu o Estado Laico, porém fez afirmações que contribuem para a narrativa de sacralização de candidaturas. “Tem demônio sendo chamado de Deus e tem gente honesta sendo chamada de demônio. […] As igrejas não têm que ter partido político, porque as igrejas têm que cuidar da fé e da espiritualidade das pessoas, e não cuidar da candidatura de falsos profetas ou de fariseus que estão enganando o povo o dia inteiro”. 

Em um encontro com o candidato a governador do Rio de Janeiro Marcelo Freixo, o ex-presidente reiterou que não é daqueles que misturam política com religião, mas fez questão de destacar que o seu governo criou a Lei da Liberdade Religiosa e o Dia Nacional da Marcha para Jesus. Além disso, algumas imagens que associam Lula a Deus começaram a circular na internet. Uma publicação que recebeu milhares de compartilhamentos foi postada nas redes sociais do deputado federal André Janones e exibia a frase “Bolsonaro usa Deus. Deus usa Lula”. Essa nova estratégia é uma resposta à ofensiva religiosa de Bolsonaro, porém é preciso cautela.

A diferença entre os dois candidatos é evidente: enquanto um propaga a liberdade religiosa, o outro promove uma única crença. Entretanto, a religião, seja ela qual for, não deveria servir a fins políticos eleitorais. Ademais, a imposição de uma fé hegemônica incentiva o discurso de ódio, a demonização e o ataque a outras religiões, principalmente as de matrizes africanas.

Racismo Religioso

No dia 9 de agosto, a primeira-dama Michelle Bolsonaro compartilhou um vídeo no perfil dela no Instagram que associa religiões africanas às “trevas”. Originalmente publicado pela vereadora Sonaira Fernandes (Republicanos), de São Paulo, o vídeo é de um encontro do ex-presidente Lula com lideranças de religiões de matrizes africanas, que foi realizado em 25 de agosto de 2021, na Bahia. Na imagem, Lula aparece sendo banhado por pipocas, um ritual que representa a limpeza espiritual, retirando as energias ruins que um corpo pode carregar. A publicação de Fernandes é acompanhada pela legenda: “Lula já entregou sua alma para vencer as eleições…”.

Foto: Reprodução / Instagram de Michelle Bolsonaro

 Ao republicar a postagem,  a primeira-dama escreveu “Isso pode, né! Eu falar de Deus, não!”. A frase reproduz a estigmatização das religiões de matrizes africanas, ao colocar a própria fé como superior, única e digna de bondade, ela classifica como demoníacas as religiões afro-brasileiras. Para o babalorixá Sidnei Nogueira, escritor do livro Intolerância Religiosa, publicado pela coleção Feminismos Plurais, a demonização da fé e rituais religiosos das CTTro (Comunidades Tradicionais de Terreiro) é uma estratégia de poder, alicerçada no racismo, que visa o apagamento de qualquer relação brasileira com a cultura tradicional africana. 

“A negação da existência do outro por meio do apagamento de sua cultura e crenças religiosas possui estreita relação com um projeto de poder relacionado a um proselitismo eleitoral.[…] A incitação à intolerância, sobretudo em relação às religiões de matrizes africanas, parte de discursos proferidos por pastores, padres e até autoridades políticas”. Sidnei Nogueira em Intolerância Religiosa, da coleção Feminismos Plurais. 

Segundo Nogueira, o racismo religioso condena a origem, a existência, a relação entre a crença e a origem preta, e quando legitimado por forças políticas incentivam às perseguições às religiões não-hegemônicas. Por isso, é essencial compreender que esse discurso não é toa, ele tem por objetivo a segregação e o apagamento. 

Em coluna no jornal O Globo, a jornalista Flávia Oliveira escreveu sobre o caso de Michelle Bolsonaro e ressaltou a importância de chamar pelo o nome as diversas violências, principalmente o racismo explícito presente na postagem da primeira-dama, porque alguns jornais noticiaram o caso como “marketing político” a estratégia ilegítima de atrair votos via perseguição religiosa.

A sacralização de candidaturas e o proselitismo religioso são reflexos de um país que não superou o passado colonial de repressão e violência contra os povos negros e indígenas, e que vive um espistemicídio constante. Em um levantamento feito pela GloboNews, no primeiro semestre deste ano, 545 denúncias de intolerância religiosa foram feitas no Brasil, sendo os principais alvos de ataques às religiões afro-brasileiras. A Constituição Federal 1988 garante a liberdade religiosa, bem como sua manifestação, e estabelece o Estado laico. Isso, no entanto, só está presente no papel.

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