SOTAQUES E SEUS ESTEREÓTIPOS NAS NOVELAS

Como as novelas reforçam estereótipos ao tentarem reproduzir sotaques regionais 

Por Júlia Cerejo

A nova novela da escritora e roteirista Glória Perez, Travessia — que começou na Rede Globo em outubro — acendeu, nas redes sociais, debates a respeito do uso dos sotaques nas atuações das tramas. O estopim do estranhamento pelo público foi a atuação da influencer Jade Picon, de 21 anos, que interpreta uma jovem carioca. Nascida em São Paulo, Jade vem sofrendo críticas pela maneira como reproduz a pronúncia do Rio de Janeiro. 

A tentativa de imitação do sotaque de uma determinada região nas novelas não é exclusividade de Jade Picon. Há décadas as emissoras de televisão colecionam produções que, ao tentarem assemelhar o sotaque de um local, apenas reforçam estereótipos.

As novelas estão presentes nas rotinas de muitas famílias. Com histórias de ficção que são contadas por capítulo, a telenovela possui horário garantido nas emissoras de televisão e costuma entreter os telespectadores com tramas que retratam realidades dos mais variados tipos e conquistam o gosto da maioria. Com a intenção de representar diversos lugares e culturas, as novelas, por vezes, possuem o problema de escalar atores de outros estados para interpretar sotaques diferentes dos seus de origem. O dilema se apresenta quando esses sotaques não representam um grupo regional, mas sim um estereótipo de como se fala na região.

Retrato da realidade ou ficção? 

 A tentativa da reprodução dos sotaques acontece por meio da prosódia, que no dicionário define-se como parte da gramática tradicional dedicada às características da emissão dos sons da fala, como o acento e a entoação. Utilizada como apoio aos atores que imitam a maneira como os nativos de uma região falam, a tentativa de copiar e aplicar uma característica da fala de um local encontra dificuldades. Como retratado na novela de João Emanuel Carneiro exibida na Globo em 2018, Segundo Sol, ambientada na Bahia, a trama apresentava personagens que dividiam opiniões ao falar o “baianês”, segundo matéria do Jornal Correio. Nela, o escritor Nivaldo Lariú explicou as particularidades da maneira que os baianos falam e como existe: “Um ritmo mais lento e meio anasalado no linguajar. As vogais tônicas são abertas […] A gente não fala ‘félicidade’ e sim ‘fêlicidade’.” O ator Sulivã Bispo completou ainda: “É difícil interpretar um nordestino e não cair no clichê do sertão ou do caricato. A forma que a gente fala conta uma história.”

Uma das regiões que costumam ser representadas de maneira duvidosa é o nordeste, com muitas novelas ambientadas na região sem a representatividade de atores nordestinos que realmente retratam os sotaques locais sem necessitar forçar ou “criar” uma maneira de se falar. Como o escritor Nilson Xavier contextualiza em sua coluna no TV HISTÓRIA: “Quantos atores tiveram aulas de prosódia para forçar sotaques diluídos, dos quais não se sabia exatamente de qual região do Nordeste era, uma vez que cada estado tem um sotaque próprio.” Em uma reportagem da BBC, o que o seu sotaque diz sobre você?, a fala da pesquisadora Ze Wang pode ser utilizada para explicar como a reprodução de alguns sotaques na teledramaturgia reforçam estereótipos da suposição de como se fala em uma região. “Sotaques podem desencadear categorizações sociais de uma maneira automática, imediata e às vezes inconsciente”. 

A lista de novelas que, ao tentar reproduzir sotaques, incomodam parte das pessoas representadas é grande. Outro exemplo é a recente novela transmitida na rede Globo Pantanal, escrita por Benedito Ruy Barbosa e adaptada este ano por Bruno Luperi. A atriz Dira Paes, que interpreta Filó na trama, ao falar a respeito dos sotaques interpretados na novela, citou as críticas que os atores receberam: “É um sotaque que mistura São Paulo, Goiás, Minas…É difícil de fazer. Em um primeiro momento, as pessoas pensam: ‘Nossa, eles tão forçando’. Mas não é forçado, a gente conviveu com pessoas que falam dessa maneira”. 

A valorização dos sotaques 

Com os erros em relação a reprodução dos sotaques, acumulados pelas emissoras de televisão ao longo dos anos, o que se espera é ver atores que possam ocupar lugar nas novelas e representar suas regiões com seus sotaques reais, sem a substituição por outros para atender os padrões que a televisão cultua e sem a construção de pronúncias que reforçam estereótipos de cada local a partir da reprodução rasa e caricata da diversidade de falas e costumes presentes no Brasil. O recente acerto da televisão foi a novela Mar do Sertão, de Mário Teixeira, no ar na Globo. A telenovela, que se passa no nordeste, possui um elenco composto por muitos atores da região, que entregam um trabalho que valoriza e abre espaço para prestigiar sotaques que refletem, verdadeiramente, o nordeste. 

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