FAKE NEWS DEPOIS DAS ELEIÇÕES

O fim do pleito não foi suficiente para interromper a enxurrada de informações falsas nas redes sociais

Por Pedro Sales

30 de outubro, fim das eleições. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é eleito, pela terceira vez, presidente do Brasil. Em um mundo ideal, o término do pleito já seria determinante para pôr fim de vez à massiva onda de desinformação. Entretanto, a adesão ao golpismo por parte da ala radical perdedora foi alimentada – e enganada – por diversas fake news, das mais elaboradas às mais absurdas.

A desinformação não é um problema novo no processo eleitoral. No momento, só é mais comum e de difícil rastreio, principalmente em grupos privados nas redes sociais. Apesar do termo “fake news” estar em uma espiral de esgotamento, o surgimento, e eventual popularização, se deu no contexto político, quando o ex-presidente dos EUA Donald Trump chamou, em 2017, o repórter Jim Acosta, da CNN, de “fake news”.

Um ano após o episódio, em decorrência das Eleições de 2018, os brasileiros tiveram um contato maior com o termo,. Na ocasião, mensagens foram disparadas em grupos de WhatsApp sem o menor controle da quantidade e tampouco da veracidade das informações. Essa foi a primeira campanha em que a desinformação alçou grande relevância, mas não a última.

Diante das ameaças invisíveis de 2018, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) teve que se reinventar para combater esse mal. Durante as Eleições Municipais de 2020, a Justiça Eleitoral criou um assistente virtual no WhatsApp para responder dúvidas acerca das eleições.

Também no mesmo ano, o TSE criou a página “Fato ou Fake”, que desde então vem esclarecendo informações falsas e buscando minimizar os efeitos de fake news. A ação lidou, em 2022, com um outro problema: o descrédito de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL). Afinal, se eles mesmos punham em xeque a autenticidade das eleições, por que acreditariam no que o TSE desmente?

Celebridades em foco

Com o fim das eleições, as fake news dos derrotados passaram de ataques ao adversário político a possíveis fraudes no resultado das urnas. No meio disso, surgiram as mais inusitadas fake news. Uma constante nessas informações falsas era a presença de celebridades.

Agnetha Fältskog não é um dos nomes mais conhecidos do meio cultural. Todavia, a banda sueca ABBA, na qual ela é uma das vocalistas, é mundialmente famosa. A cantora, em uma fake news, virou Anna Åse, uma juíza sueca que questionava o resultado das eleições no Brasil. O vídeo em questão, porém, é uma entrevista de 2013, quase dez anos antes do pleito.

Uma figura bem mais conhecida e que, ainda sim, esteve no centro de uma fake news foi Lady Gaga. A diva do pop tornou-se Stefani Germanotta, primeira-ministra do Tribunal de Haia responsável por instaurar uma “intervenção federal” no Brasil. Curiosamente, o nome de batismo da cantora é, de fato, Stefani Germanotta, mas nem de longe a estrela é jurista.

A ex-atriz pornográfica Mia Khalifa já é figurinha carimbada em fake news. Ela já foi cientista, pesquisadora e agora, Diretora do Departamento Anti-Fraudes do Tribunal de Haia. Na matéria falsa, Khalifa foi chamada de Igrad Gaak. Por meio de seu Twitter, a celebridade fez deboche da situação. “Eu deveria estar me perguntando se estou atrasada para o trabalho, eu acho que realmente tenho o trabalho”, disse. 

O ex-lutador de UFC Vitor Belfort protagonizou um dos episódios mais engraçados das fake news. Ele, no caso, não era nenhum especialista falso, e sim um dos enganados pela desinformação. Em seus stories do Instagram, o atleta postou um texto que alegava a intimação do TSE pelo “General Benjamin Arrola”. Claramente um trocadilho maldoso para enganar apoiadores de Bolsonaro. 

O trabalho da imprensa nesses casos nem foi difícil, uma vez que os próprios usuários das redes sociais desmentiram as fake news em razão da notoriedade das figuras envolvidas. Ainda assim, jornais como o Estadão e o Metrópoles postaram em seus respectivos sites matérias sobre as falsas informações. 

Processo Eleitoral 

Nas redes sociais, aparentemente, qualquer um pode virar autoridade em determinado assunto. Seja uma celebridade que falsamente se torna jurista, ou mesmo um completo desconhecido que faz uma live atacando o processo eleitoral brasileiro. Esse último exemplo foi o caso do argentino Fernando Cerimedo. 

No canal do YouTube “La Derecha Diario”, Cerimedo apontou “fraudes” nas urnas, como a não auditoria das urnas, a transferência de votos de  Bolsonaro para Lula e seções desaparecidas. 

Diferente das falsas notícias com celebridades, que puderam ser facilmente desmentidas, a live demandou maior atenção das autoridades. O TSE determinou a retirada do vídeo da plataforma e, posteriormente, o bloqueio de contas que divulgassem as informações falsas. 

A BBC Brasil publicou uma matéria que minuciosamente refutou as mentiras ditas na live, demonstrando a necessidade do jornalismo se interpor contra informações falsas, sobretudo quanto ao questionamento à integridade do processo democrático. 

Ao mesmo tempo em que o vídeo do argentino alarmou a Justiça Eleitoral pelo grande número de compartilhamentos  – inclusive por parlamentares eleitos no pleito deste ano –, manifestantes demonstraram elevada ingenuidade ao acreditarem em uma suposta prisão de Alexandre de Moraes. 

Debaixo de chuva, bolsonaristas paraenses comemoraram, em 1 de novembro, a prisão do presidente do TSE. No vídeo publicado nas redes sociais, dá para ver como a notícia rapidamente se espalha e todos começam a gritar: “Xandão foi preso”. A fonte da falsa informação, entretanto, foi um jovem infiltrado com o intuito de enganar os apoiadores do presidente. 

Ingenuidade e Fake News

Existe, portanto, um alto grau de ingenuidade na recepção e posterior replicação do conteúdo enganoso. Mas, antes, há de se entender qual é a origem das fake news. Embora não seja fácil determinar quem criou certa notícia falsa, pode-se inferir, por exemplo, que “notícias” com celebridades são uma criação dos opositores de Bolsonaro, apenas com o intuito de fazer troça de bolsonaristas. 

Por outro lado, quando uma live questiona o resultado das eleições, é evidente que parte de apoiadores do atual presidente, a ala derrotada democraticamente nas urnas. Todas essas fake news, entretanto, encontram terreno fértil em bolhas conspiracionistas e negacionistas. 

Teóricos da comunicação classificam a desinformação segundo a intencionalidade da mensagem. Misinformation é a informação falsa com intenção positiva, malinformation é a informação parcialmente correta feita para prejudicar. Fake News são informações falsas com roupagem de notícia, feitas para enganar. E, por fim, desinformação é, lato sensu, o conteúdo falso e manipulado para prejudicar. 

Em seu estudo A Psicologia das Fake News, Gordon Pennycook analisa as razões que levam as pessoas a compartilharem desinformação. A primeira é a confusão. Segundo o pesquisador, esse determinado grupo não sabe o que é falso ou verdadeiro. 

Ao olhar para o compartilhamento de notícias esdrúxulas, como Lady Gaga sendo ministra do Tribunal de Haia, encontra-se ressonância com a confusão. Pelo desconhecimento da figura envolvida, as pessoas não sabem se é falso ou verdadeiro. No entanto, por fazer parte de um discurso político, compartilham mesmo assim. 

O partidarismo é o segundo fator levantado pelo autor. Para Pennycook, a identidade política pressupõe uma consistência de opinião, mesmo sem se importar com a veracidade da informação. Assim, se a notícia corrobora para uma narrativa de perseguições e fraudes, ela será compartilhada. 

A desinformação, mesmo associada à falta de conhecimento e ingenuidade do receptor, está amplamente ligada a aspectos políticos. A criação de bolhas, nesses casos, é determinante para a manutenção dessa cadeia de fake news. Embora muitas informações falsas sejam risíveis e toscas, é preocupante constatar a forma como a desinformação age tal qual uma cegueira que aplaca a razão de milhões de brasileiros. 

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