Nos bastidores, assédio

Por Giulia Soares

Em 5 de outubro, o New York Times publicou uma matéria denunciando o histórico de abusos cometidos pelo produtor de cinema, Harvey Weinstein. Depois disso, renomadas atrizes, como Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow, também relataram assédios cometidos por ele e o caso ganhou repercussão na grande mídia.

Com décadas de atraso, a mídia teve papel importante ao estampar na capa de um dos principais jornais norte-americanos um silêncio ensurdecedor. A reportagem foi feita pelas jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, que ousaram denunciar os crimes contra as mulheres. A ampla divulgação fez com que outras mulheres também relatassem suas péssimas experiências com Weinstein. A mídia se tornou o espaço em que suas vozes finalmente eram ouvidas. Mas o caso, infelizmente, não é único e os fatos mostram que Hollywood é um ambiente extremamente tóxico para mulheres. Propõe uma discussão sobre como homens poderosos da indústria audiovisual se sentem no direito de oprimir mulheres.

Weinstein foi acusado de diferentes abusos, incluindo 4 estupros, por quatro mulheres. “Eu sou da época de 60, quando todas as regras sobre comportamento e lugares de trabalho eram diferentes. Essa era a cultura na época”, foi sua resposta às acusações. Harvey Weinstein foi demitido da própria companhia e expulso da Academia do Oscar. Ao ouvir esses relatos, questiona-se como mais de 20 anos de abusos contra tantas mulheres só vieram à tona agora.

A resposta é óbvia. Hollywood é complacente com machismo, da diferença salarial entre gêneros até o estupro cometido em um filme clássico em nome da arte. Em pesquisa feita pelo New York Film Academy, que analisou 500 filmes de 2007 até 2012, existem cinco homens para cada mulher na indústria cinematográfica. Mesmo representando 30,8% dos personagens com falas, 1/3 das personagens femininas aparecem em cenas de nudez e 28,8% delas usam roupas provocantes, enquanto, para homens, o número cai para 9,4%.

Mesmo sendo minoria na indústria, ela são a maioria consumidora: 50% dos ingressos de cinema vendidos nos EUA são para elas, que assistem a filmes dirigidos, produzidos, escritos, editados por homens. Até os prêmios mais importantes são decididos por eles, já que 77% da academia do Oscar é composta por homens. Sendo assim, eles reconhecem seu poder e usam disso em benefício próprio.

Além das grandes estrelas, o produtor também foi denunciado por atrizes de menor destaque na mídia. Muitas delas, em início de carreira, provavelmente, enxergaram os encontros que tiveram com ele como grande oportunidade e foram surpreendidas pelo assédio. Pode-se notar que existe uma cultura sendo perpetuada, pois, por trás de cada abusador, existem pessoas que acobertam a verdade. É possível confirmar isso tomando como exemplo a declaração do diretor Quentin Tarantino, o qual disse ter tido conhecimento dos abusos feitos por Weinstein há anos e, ainda assim, não foi capaz de denunciar.

Além do caso Weinstein, temos diversos relatos de situações humilhantes que mulheres passaram no cinema. A atriz Lea Michele ouviu de seu empresário que não era bonita o suficiente e deveria fazer cirurgia no nariz. Zoe Saldana deu opinião no set e ouviu do diretor que foi contratada “para ficar bonita de calcinha e segurando uma arma”. Jennifer Lawrence foi obrigada a perder peso para papeis em seu início de carreira.

Apesar do crescente destaque de personagens feministas e de filmes que pregam empoderamento feminino, Hollywood ainda vive à sombra do machismo, onde misoginia e assédio, são os verdadeiros produtores de um filme eternamente retrogado. Os bastidores são repletos de histórias de assédio, violência psicológica, física e sexual.

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Vegas merece mais que Mogadíscio?

A cobertura midiática dos ataques terroristas acompanha a dimensão das tragédias?

Por Rebeca Borges

O maior ataque terrorista desde o 11 de setembro deixou 358 mortos, 400 feridos e 56 desaparecidos. A tragédia ocorreu há pouco mais de uma semana, em 14 de outubro, quando dois carros-bomba explodiram em regiões movimentadas de Mogadíscio, capital da Somália. Esse é o maior atentado terrorista da história do país. 

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Somália existia ou acabamos de inventá-la?

Por Filliphi da Costa

O jornalista mais atento aos aspectos da sua formação pode perceber, durante o exercício do ofício, que diversos recursos são dissimulados para mascarar um descompromisso às vezes presente. Uma razão para o uso dessas ferramentas é a manutenção da ociosidade intelectual a que nossa sociedade foi condicionada. Essa é a estratégia para manter sempre vivos os inimigos da cidadania incutidos no imaginário coletivo.

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Há alguma novidade na ideia de fake news?

Termo possui raízes antigas, mas se reveste de novas características na era digital

Por Rafiza Varão
Professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília
Coordenadora do projeto SOS Imprensa

O ano é, talvez, 1984. Não há mais como confiar na contagem objetiva do tempo. Na realidade distópica criada por George Orwell em seu maior clássico, Winston Smith cumpre seu trabalho cotidiano de rearranjar e reescrever a história. Funcionário do Departamento de Documentação do Ministério da Verdade, Winston, curiosamente, não altera o passado em livros de referência, mas nas páginas do Times. No departamento, os fatos pretéritos são embaralhados, sublimados, omitidos, floreados, inventados – o que torna impossível, mesmo para quem os modificou, dizer com precisão o que, nas informações noticiosas divulgadas pela imprensa, seria verdade ou mentira.

 

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Quão importante é a cor do mês?

Por Isabela Gouveia 

Matérias, reportagens, discussões, abordagens, palestras e outras inúmeras formas de conscientização, mas que infelizmente desaparecem com o tempo, ou melhor, com o fim do mês. Vamos falar do mês de setembro, surgiram várias campanhas de prevenção ao suicídio, mas que desapareceram já na segunda semana de outubro. Conhecido como “setembro amarelo”, o mês de setembro tem como objetivo a conscientização contra o suicídio. A campanha teve grande alcance nas redes sociais, principalmente no Instagram, onde usuários da plataforma postavam em seus stories “meu direct está aberto para conversas” junto à hashtag #setembroamarelo. Mas até aonde pessoas que não entendem do assunto seriam eficazes em tratar de uma questão tão delicada?

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Racismo: até quando?

Por Pedro Canguçu 

No sábado (7), a Dove protagonizou uma polêmica nas mídias sociais. Após lançar anúncio do sabonete líquido, a marca de cosméticos que pertence à empresa holandesa multinacional Unilever, foi alvo de críticas por parte de internautas. Eles perceberam uma mensagem preconceituosa na campanha e prometeram deixar de consumir os produtos da linha.

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#SOSNews Festival Piauí Globonews de Jornalismo

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No último final de semana, nos dias 7 e 8 de outubro, aconteceu em São Paulo mais uma edição do Festival Piauí Globonews de Jornalismo. Com o tema O Que Aprendi, a 4ª edição do evento trouxe nove jornalistas internacionais renomados para contar vivências profissionais, trazendo reflexões sobre a prática profissional e sobre a globalização, ao menos na parte ocidental do globo, de fenômenos como as fake news. Continuar lendo