#SOSNews Ficção dentro da realidade: websérie Arena estreia na UnB

Por Melissa Duarte

Incontáveis sets de gravação, 75 pessoas, nove episódios, um lugar em comum. Assim é Arena, websérie realizada por estudantes de comunicação social, artes cênicas e artes plásticas da UnB. Um ano e meio se passou entre a ideia inicial e a estreia, ontem à noite (21), no anfiteatro 9 da UnB. Ambientada na universidade, a série retrata o cotidiano dos jovens e traz à tona amores, desejos, inseguranças e indecisões dessa fase da vida que é tão única e intensa.

O evento foi apresentado pelos produtores e estudantes de audiovisual Luyla Vieira e pelo Rafael Beppu, ambos de 20 anos, e teve ótima recepção do público. Amigos, familiares e estudantes lotaram o espaço e interagiram nas mídias sociais publicando fotos que passavam no telão. A estreia contou, ainda, com show da banda brasiliense Bolhazul a qual, junto a O Tarot, Scalene e Móveis Coloniais de Acaju, faz parte da trilha sonora da série.

Os protagonistas Ady Estellita (Micão), Danieu Alves (Flávio), Gezinei Rodrigues (Matheus), Lola Portela (Evelyn), Marina Bona (Helena), Paulo Igor (Jão), Thaís Lima (Jéssica) e Vinícius Alves (Marcos) interpretam estudantes da UnB que, apesar dos conflitos, se tornam cada vez mais amigos. Durante o evento, os atores subiram ao palco para contar sobre como foi fazer Arena e lembrar o amigo Danieu, morto durante as gravações. Por isso, a websérie foi reescrita para homenageá-lo e aproveitar as cenas gravadas por ele. O primeiro episódio, Boas vindas, é dedicado ao ator.

“Fiz teste para a Jéssica e a Evelyn e a Evelyn me veio com o maior amor do amor, abri meus braços para ela”, derrete-se a atriz Lola Portela, 23. Ela conta que, diferente dela, a personagem é mais nova, muito amorosa e ingênua e vai amadurecendo ao longo das cenas. “Eu tive que me alimentar muito em relação ao amor cego, foi minha maior dificuldade em fazê-la. Foi um pouco complicado para mim, mas é bom para trazer essa representatividade, sabe? A mulher num relacionamento abusivo, naquele lugar submisso, então ela traz a revolução e a evolução dela como personagem”, finaliza.

Arena é uma série de jovens escrita por jovens, então já é um diferencial bem legal”, conta Luyla, que também escreve e dirige o último episódio. Por isso, também é diferente do que acontece em outras produções para essa faixa etária, realizadas por adultos. A linguagem, os temas, tudo é atual. Inicialmente inspirada nos seriados Skins (2007-2013) e Freaks and Geeks (1999-2000), que mostram o cotidiano dos adolescentes no ensino médio da Inglaterra e dos Estados Unidos, Arena traz o dia-a-dia da universidade que, em toda a sua heterogeneidade, gera grande choque de cultura nos alunos.

“A UnB, em si, é uma ficção na real, por causa de tantas coisas loucas que acontecem. A nossa faculdade tem uma identidade muito única, tem pessoas de vários tipos, tem muitos cursos aqui que são distantes de outros e você pode pegar matérias em vários lugares… Então, isso rende muitas histórias e acaba que você trazer muita coisa do real para a ficção”, conta Kallyo Aquiles, 20, um dos idealizadores do projeto, responsável pelo argumento, roteiro e direção dos dois primeiros episódios e edição, além de graduando em comunicação organizacional.

“A série é um projeto independente da UnB, de pessoas que têm muita vontade de produzir”, relata a produtora executiva, roteirista e diretora Cecília Bastos, 19, também aluna de audiovisual. A ideia era fazer uma produção na Faculdade de Comunicação (FAC) que fosse além das matérias. “O que muda é o que move as pessoas a fazer, porque, em uma matéria ou estágio, é o dinheiro ou a nota. Nesse caso, não é nenhuma dessas coisas, porque quem está fazendo é porque realmente quer. Isso faz muita diferença”, completa.

Sem orçamento inicial ou patrocínio, a obra teve grande apoio da FAC, com impressão de pôsteres e empréstimo de equipamentos. Assim, atingiu um nível de qualidade inesperado. As equipes, que mudam ao longo dos episódios, trabalham de modo colaborativo para bancar gastos necessários, como gasolina e comida. As bandas cederam as músicas sem custo. “A gente pensa em levar o projeto para frente se houver alguma produtora ou canal sustentando”, diz Kallyo.

Familiares acompanharam o processo de produção da série e se orgulham do resultado. “Eu achei incrível. É um evento de uma envergadura que, para um aluno da UnB, tomou uma proporção sensacional, haja vista a quantidade de pessoas, como foi o evento e como foi apresentado”, revela o professor William de Oliveira, 52, pai de Kallyo.

“Sempre gostei de ver as coisas acontecendo em Brasília, tanto a música e agora essa produção de série e de mídia. Acho surreal, muito bonito de acontecer. Apesar de eu não estudar na UnB, gosto de acompanhar as coisas lá, de ver acontecer e de como as pessoas se empolgam e se empenham”, descreve o estudante Yuri Reis, 22. “Gostei muito da estreia, só achei ruim que demorou bastante, mas é normal. O show da Bolhazul foi muito bom, também foi interessante ver a equipe falar como foi fazer a série e assistir ao primeiro episódio”, endossa o estudante Murilo Justino, 21.

Como o YouTube é uma plataforma livre que incentiva produções independentes vide o caso da série 3%, que teve episódio piloto lançado nele, em 2009, e, posteriormente, foi comprada pela Netflix e desenvolvida em 2016 , foi escolhida para divulgar Arena e, se possível, monetizar o conteúdo e ganhar dinheiro.

Fazer arte nos tempos atuais é difícil; viver dela, ainda mais. Por isso, um projeto jovem e independente se mostra tão necessário. As pessoas precisam ver que dá para produzir e consumir arte no país, mesmo que seja difícil. Como contou Lola, “ser artista é um ato de coragem”. Fazer Arena também é.

Colaborou para esta matéria Marcos Miranda
Foto de capa: Divulgação/Igor Machado