Anitta e o peso político do silêncio

Quando o discurso não combina com a ação

Alice Maria

A cantora Anitta sempre se manteve neutra em questões políticas e sociais. Até o momento, essa questão não se mostrou muito problemática. Seus fãs já questionavam e cobravam posicionamentos a respeito de determinados assuntos, mas nada tão intenso como o que está sendo presenciado nesta semana.

Na última quarta-feira, Anitta, que evitou ao máximo se pronunciar sobre a corrida presidencial, seguiu o perfil de uma amiga, que claramente apoia o candidato Jair Bolsonaro, do PSL. A cobrança, que já era grande, tomou proporções ainda maiores. Com riscos de boicote, a cantora vem sofrendo represálias online e sendo severamente criticada por seus fãs.

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Como uma figura pública de alta visibilidade, é compreensível que Anitta não queira se posicionar. Sua opinião influencia o público e têm um grande impacto social. Além disso, não é desejável ter seu nome relacionado a escândalos políticos. Porém, é de se estranhar que alguém com tanto poder midiático não utilize seu destaque para dar visibilidade a causas que merecem atenção.

Ser uma mulher, de origem periférica, e que se destacou em um ambiente majoritariamente machista, é por si só um ato de resistência. Mas a cantora parece querer desvincular da sua imagem o peso político relacionado à arte. Com o intuito de agradar a todos, prefere abdicar do poder da música como manifestação cultural e política.

Essa apatia ofende seus principais apoiadores: a comunidade LGBT+. Devido às omissões de Anitta, seu público suspeita que a artista apoia minorias em canções e em discursos apenas para lucrar, atitude conhecida como Pink Money. Talvez, esse seja o maior problema relacionado ao não posicionamento da cantora, já que mostra uma falta de coerência entre o que ela diz e o que ela realmente faz.

No mesmo contexto, os jogadores Felipe Melo, do Palmeiras, e Wallace e Maurício de Souza, da seleção brasileira de vôlei, foram advertidos por se manifestarem a favor de Bolsonaro, candidato que originou a polêmica com a cantora Anitta. Tanto o Palmeiras quanto a Confederação Brasileira de Vôlei soltaram notas afirmando que as opiniões dos atletas não refletem as visões dos clubes. Como essas manifestações foram feitas enquanto eles utilizavam os seus respectivos uniformes e essas ações podem ser relacionadas às equipes, os dirigentes pedem para que os atletas sejam mais conscientes.

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A preocupação é grande, já que o discurso de ódio do candidato pode acarretar em um comportamento extremamente violento da torcida, como aconteceu em um jogo entre os times de futebol Atlético Mineiro e Cruzeiro. Uma parte da torcida atleticana reproduzia o grito: “Ô Cruzeirense, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar veado”. Além de ser extremamente antidesportiva e homofóbica, essa conduta mancha o nome do clube e da torcida, que podem ser punidos. Como resposta, vascaínos e corintianos se posicionaram contra a atitude dos atleticanos e contra Bolsonaro.

Comparar esses casos levanta uma questão importante: o problema é manifestar uma opinião pessoal como se fosse consenso do grupo ou simplesmente se manifestar a favor do candidato? Aconteceria a mesma coisa se os jogadores não estivessem usando seus uniformes?

Diferente da cantora, não existe a necessidade dos atletas se posicionarem, eles não construíram suas carreiras se afirmando como feministas ou apoiadores da causa LGBT+. A polêmica acontece porque o discurso do candidato fere diretamente essas causas que a artista diz apoiar. O que está sendo cobrado de Anitta é o posicionamento contra esse discurso. É muito fácil levantar bandeiras quando se exime da responsabilidade de lutar para defender seus princípios.

Não só Anitta como todas as outras pessoas, sendo figuras públicas ou não, têm direito à liberdade de expressão e de mostrar ou não sua ideologia política. Contudo, quando existe o risco real da volta de um governo totalitário, extremista, que não governa para as minorias e incita violência, é necessário ter cuidado, porque o silêncio tem seu peso e não se posicionar é uma escolha que carrega muito significado.

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ÉTICA DO ELEITOR

Por Luiz Martins da Silva 

Eleição, como qualquer evento ou temporada, tem o seu contexto e até justificativas morais. O futebol tem normas e, como diz um ilustre juiz e comentarista, a regra é clara. Ao que emendo: os lances, nem tanto. E as atitudes mudam com o tempo, ainda bem. Conta-se que Pelé vangloriava-se de ter feito gol com a mão, numa esperteza tal que o juiz não percebeu. Maradona, não só festejou, como sagrou seu logro como “a mão de Deus”. Fariam, o mesmo, hoje? Recomendariam a mesma conduta? Se você é o melhor, mas não é bom, qual é o mérito?

Hoje, noticiário, impactos: o Dalai Lama junta-se a mulheres no enfrentamento do abuso sexual – monges budistas envolvidos nessa prática. As instituições aprendem a ter vergonha de quadros imorais. A praxe corriqueira era negar e abafar. Quando a Igreja Católica faz mea culpa  e o Papa (Francisco) torna-se aliado contra a pedofilia, algo evolui, não só no plano espiritual, mas, mercadologicamente (gestão da imagem). No passado, a conduta era ‘roupa suja se lava em casa’. Mudou. Reputação é patrimônio e a melhor estratégia é prevenir desgastes; simular ocorrências; e ensaiar providências, ocorrendo. E o grande NEGÓCIO (em termos de imagem) é não ter escândalo, um foco infeccioso a ser evitado e, se detectado, tratado, ou extirpado. Publicar puder ser entendido como uma “boa prática”, proativa. Mesmo assim, pode haver leitura aberrante, tipo assim: deve ser disputa de poder entre facções’.

Não há uma lei, jurídica ou moral que isente de riscos as lides com a verdade. Helena Blavatsky: “Não há religião superior à verdade”. Vale para: indivíduo, família, igreja, empresa, instituição, partido, candidato e eleitor. Na história recente (governo FHC), um ministro confidenciou: “O que é bom eu mostro; o que é ruim eu escondo”. A lealdade não obriga denunciar o empregador, mas determina aperfeiçoar o imperfeito. Denunciar internamente é o primeiro passo; o segundo é sair se isto é método da corporação e, burrice. Se o escândalo vem a público o estrago é maior. Justifica-se precisar do emprego, mas não é válido concordar com tarefas desonestas. Nestes casos existe a “cláusula de consciência” (ampara convicções). Não é concebível demitir quem tem escrúpulos. Recorrer a advogados de sindicatos ou a defensorias públicas.

No contexto atual, você, leitor; simpatizante, militante; cabo eleitoral; ou o que seja, está disposto a trabalhos sujos para candidatos? Se eleitos, eles e você não prosseguirão com mesma índole? Há diferentes eleitores: o convicto; o emocional; torcedor (grita, xinga, acusa…); há manobras táticas (desqualificar os entrevistadores); e há baixarias fora e dentro das redes sociais. O pior dos mundos é difundir manipulações em favor ou contra. É como associar-se ao diabo, vencer a qualquer custo. Confortável, assistir ao jogo e prestar atenção nos craques que jogam bem e não precisam trapacear. Entristece ver um candidato bom, mas com para palavrões e intimidações. Mecanicamente, o instinto do atacado é o contra-ataque. Vi, por este dias, uma mesma pessoa, espalhando um áudio do Padre Marcelo. Depois, esclareceu: “É fake, mas fala a verdade”.

Questão de princípios: você está disposto a colocar pingos no is com métodos duvidosos? O Bem e a Verdade parecem precisar de muletas para andar. “Não apresse o rio, ele corre sozinho” (livro de Barry Stevens). E uma reflexão: ficaremos em paz com escusas, do tipo: fui abduzido; estava bêbado; perdi a cabeça; o Brasil estava à beira do precipício…? Em tempo: o extremo é atentar, com tiros e facadas. Cuidado para não ser atentado na microfísica do dia a dia: alfinetadas, estocadas, vírus, robôs… Pequenas malandragens são iscas para as grandes, em sentido contrário.

A geração que só compra o que tem valor

Os jovens vêm ditando o novo comportamento mercadológico: é preciso oferecer algo além de produtos.

por Catarine Cavalcante Torres

Na campanha de comemoração dos 30 anos do slogan “Just do It”, a Nike fez amigos, inimigos e deu uma aula de branding (conjunto de atividades de gestão da marca que visa, principalmente, agregar a ela valor simbólico). De que forma a decisão de ter como estrela do comercial o ex-jogador Colin Kaepernick, conhecido pelos protestos contra a polícia racista estadunidense, se relaciona com a nova classe consumidora que está surgindo?

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Jornalistas mulheres na Copa do Mundo

Sonho de trabalhar na cobertura da Copa do Mundo se torna dificuldade causada pelo assédio

por Kellen Barreto

Copa do Mundo, alegria, diversão, futebol, nações inteiras em festa. Para jornalistas: trabalho e emoção. Cobrir a copa não é para qualquer um. É para profissional competente, que sabe o que faz. Trabalhar em uma competição internacional de futebol é um sonho para milhares de jornalistas. Quando se é uma mulher, então, estar na cobertura de um evento desse escalão significa ainda mais, é a superação do pensamento de que apenas homens podem fazer jornalismo esportivo e entendem de futebol. É simbólico, é estar em um espaço tradicionalmente masculino.

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Copa do Mundo de Reportagens

A exploração midiática que define quando os problemas dos países-sede se tornam notícia.

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Neste mês de junho é realizada, na Rússia, a Copa do Mundo 2018, e já era de se esperar que a atenção mundial se voltasse para o país. A cada quatro anos, o evento se torna o assunto favorito dos meios de comunicação devido à popularidade do Mundial, ao alto investimento do país-sede nos preparativos, além da capacidade de reunir pessoas do mundo inteiro com algo em comum: a paixão pelo futebol. Responsáveis pela cobertura dos jogos, os veículos de comunicação vão além de reportar resultados de partidas. Os jornais decidem explorar cada detalhe do anfitrião na busca por notícias originais e curiosas.

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A indústria do sucesso

Cultura de autorrealização atravessa gerações em um ciclo de frustração e padrões inalcançáveis

por Lorena Fraga

“Vincent Willem van Gogh foi um pintor holandês considerado uma das figuras mais famosas e influentes da história da arte ocidental”. Essa é a descrição dada a Van Gogh em um dos sites de busca mais famosos do mundo, a Wikipédia. Mergulhando um pouco mais no conteúdo da página, após uma breve descrição sobre a vasta obra do artista, encontra-se o seguinte trecho: “Van Gogh não obteve sucesso durante a vida, sendo considerado um louco e um fracassado. Ele ficou famoso depois de seu suicídio, existindo na imaginação pública como a quintessência do gênio incompreendido, o artista onde (sic) discursos sobre loucura e criatividade convergem’”.

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