Dois Brasis: uma realidade que se tornou evidente no ano de 2022

Como as eleições presidenciais dividiram o país nos últimos meses e o resultado disso na sociedade brasileira

Por Beatriz Magalhães Reis

A eleição presidencial de 2022 foi, sem dúvida alguma, a mais polarizada que a população brasileira já testemunhou, desde a redemocratização, com o fim do regime militar em 1985. O Brasil se dividiu, ambos os lados alegando buscar um país melhor, mais justo e com mais amor. No entanto, a violência foi uma constante ao longo do período eleitoral. Discussões, brigas e, em casos mais extremos, mortes foram fortemente registradas. A principal razão para essa barbárie em pleno século XXI? A divergência política. 

Nos últimos meses se tornou evidente a existência de ‘’dois Brasis’’. Enquanto uma metade da população se comoveu para que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltasse ao poder, a outra lutou com unhas e dentes para que o atual presidente da República, Jair Bolsonaro, não passasse a faixa. Comícios foram realizados por todo país. Famosos se uniram em suas redes sociais pedindo votos por seus candidatos. Promessas, muitas vezes impossíveis de serem cumpridas, foram feitas pelos presidenciáveis em meio ao desespero da possibilidade de perder. 

 Após essa divisão, ficou claro que a intolerância ainda reina forte na sociedade brasileira. Os conflitos não se limitaram às manifestações públicas nas ruas das cidades, uma vez que foram trazidos para dentro das casas dos eleitores. O número de relações familiares e conjugais que foram prejudicadas por conta de divergências políticas foi absurdo. Uma reação um tanto irônica e até hipócrita por parte desse tipo de eleitorado, tendo em vista que ambas as campanhas pregavam pelos ideais de amor e família.

                         Charge do Cazo [Imagem: Reprodução/Arquivo Google]

Uma situação paradoxal foi criada com toda essa movimentação eleitoral. Enquanto o Brasil se dividia em dois lados, os integrantes de cada um destes se uniam de uma forma nunca vista anteriormente, lutando juntos por aquilo que acreditavam. A participação jovem bateu recorde neste ano. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) comemorou a marca histórica de mais de 2 milhões de novos eleitores entre 16 e 18 anos, cerca de 47% a mais do que o registrado nas eleições de 2018. 

Chamar o período eleitoral deste ano de turbulento seria eufemismo. Acusações de invalidez das urnas, corrupção e pornografia foram armas utilizadas pelos candidatos à presidência, de forma que fizesse surgir o questionamento: em que ponto da história do país que se tornou aceitável, e até encorajado por muitos, se utilizar desses métodos sujos para fazer política? 

Uma coisa é fato: muitos valores foram distorcidos com essa extrema polarização. O Tribunal Superior do Trabalho registrou milhares de denúncias de assédio eleitoral. Uma prática que muitos pensavam, de maneira equivocada, que se restringia ao período da República Velha, quando o voto de cabresto era fortemente usado por indivíduos poderosos que visavam a vitória de seu candidato. Todavia, esse mecanismo foi muito utilizado nos ambientes de trabalho este ano. Os patrões ameaçaram seus funcionários e seus empregos, de forma direta e indireta, caso não fossem ao encontro dos ideais políticos de seus chefes. 

O uso de informações distorcidas e falaciosas foi outra arma utilizada ao longo da campanha. O descaso com a qualidade da informação foi tamanho que o TSE foi obrigado a intervir como nunca visto antes. As plataformas responsáveis pelo compartilhamento de notícias falsas tiveram o tempo de remoção do conteúdo reduzido. “Uma vez verificado pelo TSE que aquele conteúdo é difamatório, é injurioso, é discurso de ódio ou notícia fraudulenta, não pode ser perpetuado na rede”, disse Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, em entrevista à BBC.

Muitos acreditaram que esse período caótico fosse durar só até 30 de outubro, dia em que ocorreria o segundo turno, e que após isso, a sociedade brasileira conseguiria voltar a conviver com harmonia, na medida do possível.  Infelizmente, não foi bem assim que os eventos se desenrolaram. Após uma disputa apertada, Lula conseguiu ser eleito com 50,9% de votos válidos. Enquanto metade da população entrava em um estado de euforia, extasiados com a vitória de seu candidato, a outra se recusava a acreditar no resultado apresentado pelas urnas. 

Desde o dia 31 de outubro, milhares de bolsonaristas espalhados pelo país se manifestaram contra a vitória do presidente eleito. Em alguns casos mais extremos, uma parte desse eleitorado pede até por intervenção militar, alienados com a ideia de que Bolsonaro deve permanecer no cargo custe o que custar. Optando por esquecer os horrores cometidos para com a população quando o Regime Militar se instaurou no Brasil em 1964. 

             Bolsonaristas pedindo por intervenção militar [Imagem: Reprodução/Getty Images]

Todas essas situações só mostram o quão dividido o país está. Em seu discurso de vitória, o presidente eleito Lula afirmou que não existiam ‘’Dois Brasis’’, mas o aumento da violência e da intolerância política nas eleições deste ano mostraram exatamente o contrário. Ao mesmo tempo que uma parte do eleitorado anseia pela manutenção da democracia e a garantia de seus direitos, a outra quer retroceder de modo brutal para a década de 60. 

FAKE NEWS DEPOIS DAS ELEIÇÕES

O fim do pleito não foi suficiente para interromper a enxurrada de informações falsas nas redes sociais

Por Pedro Sales

30 de outubro, fim das eleições. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é eleito, pela terceira vez, presidente do Brasil. Em um mundo ideal, o término do pleito já seria determinante para pôr fim de vez à massiva onda de desinformação. Entretanto, a adesão ao golpismo por parte da ala radical perdedora foi alimentada – e enganada – por diversas fake news, das mais elaboradas às mais absurdas.

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O sucesso do podcast Mano a Mano

Apresentado por Mano Brown, o programa é reconhecido pelas entrevistas com convidados de diferentes áreas e alcançou o segundo lugar entre os mais ouvidos no Spotify em 2021 

Por Sthefany Rocha

Produzido pelo streaming de áudio Spotify e apresentado pelo rapper Mano Brown, integrante de um dos grupos de rap mais importante do Brasil, o Racionais MC’s, a primeira temporada do podcast Mano a Mano estreou em agosto de 2021. Já no ano de lançamento, conquistou o segundo lugar no ranking de podcasts mais escutados no Spotify e o episódio mais ouvido dentro da mesma plataforma.

O sucesso do Mano a Mano não é à toa, além de disponibilizar um conteúdo didático e acessível para o público, o podcast de entrevistas é reconhecido por trazer convidados relevantes e controversos das mais diversas áreas de atuação no Brasil, como política, arte, saúde e filosofia. Mano Brown deixa claro na vinheta de apresentação que a intenção do programa é ampliar o debate e trazer diversidade de pensamentos. 

“A ideia do podcast Mano a Mano é trazer a diversidade de ideias e pensamentos sem repressão. Com um convidado diferente, controverso, amado ou odiado, vocês decidem”, diz Mano Brown. 

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SOTAQUES E SEUS ESTEREÓTIPOS NAS NOVELAS

Como as novelas reforçam estereótipos ao tentarem reproduzir sotaques regionais 

Por Júlia Cerejo

A nova novela da escritora e roteirista Glória Perez, Travessia — que começou na Rede Globo em outubro — acendeu, nas redes sociais, debates a respeito do uso dos sotaques nas atuações das tramas. O estopim do estranhamento pelo público foi a atuação da influencer Jade Picon, de 21 anos, que interpreta uma jovem carioca. Nascida em São Paulo, Jade vem sofrendo críticas pela maneira como reproduz a pronúncia do Rio de Janeiro. 

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Sacralização das eleições

Como a associação da disputa eleitoral a uma guerra espiritual, por meio da propagação de uma religião hegemônica, evidencia o racismo religioso

Por Sthefany Rocha

No Brasil, ditados populares dizem que política e religião não se misturam, essa ideia, porém, não é aplicável na vida real. No passado colonial de domínio da Igreja Católica, que representava um poder político para Portugal importantíssimo — uma vez que, sendo uma religião homogênea na população, facilitaria a manutenção do controle sobre colônia. Após diversas transformações sociais, as religiões cristãs, como o catolicismo e o protestantismo, ainda são utilizadas para o domínio político.

É importante ressaltar que este texto não tem a intenção de atacar ou criticar os valores das religiões cristãs, mas sim, fazer uma análise de como os seus ideais estão sendo utilizados por pessoas que visam espaços de decisão política.

Este ano de 2022 ficará marcado pela disputa eleitoral entre os candidatos que lideram as pesquisas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Os dois competem por popularidade para alcançar o cargo de Presidente da República. Evento que está sendo denominado pelos apoiadores de Bolsonaro, como “Guerra Santa” e luta do “bem contra mal”, faz referência a passagens bíblicas do Novo Testamento e é uma estratégia de campanha para angariar votos dos cristãos. 

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Coração de Dom Pedro: a estratégia política de Bolsonaro

Do coração ao palanque eleitoral no dia da Independência: como Bolsonaro se apossou de símbolos históricos para fazer campanha política

Por Rafael Tiberi

Transportado diretamente de Portugal, o coração de Dom Pedro I esteve em exposição no Palácio do Itamaraty, de 24 de agosto a 4 de setembro, para celebrar o bicentenário da independência. No dia 7, o órgão foi usado como símbolo da memória nacional em um evento com autoridades do governo em Brasília.

Reprodução: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Morto em 1834 devido a tuberculose, Dom Pedro I se encantou com a cidade do Porto, em Portugal,de tal modo que, em seu testamento, o ex-imperador pediu que seu coração fosse conservado ali quando morresse. Seu desejo foi atendido, desde 1837 o órgão está conservado na Igreja Nossa Senhora da Lapa.

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Sabatinas no JN: muita audiência e conteúdo inconsistente

Entrevistas tiveram grande visibilidade no Brasil, mas poderiam ser feitas com mais profissionalismo pelos jornalistas e estratégia pelos presidenciáveis

Por Gabriel Benevides

A semana retrasada foi marcada pelas quatro sabatinas de presidenciáveis no Jornal Nacional, transmitidas pela Rede Globo. Os entrevistados foram os candidatos Jair Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Simone Tebet (MDB) e Ciro Gomes (PDT). 

As transmissões televisivas foram extremamente comentadas no Brasil ao longo da semana na mídia e das redes sociais. No Jornal Nacional, a entrevista com Bolsonaro rendeu a maior audiência do programa desde 20 de março de 2020, com um pico de 35,6 pontos, segundo o Ibope. Seu principal adversário na corrida eleitoral, Lula, alcançou uma audiência máxima de 33,8 pontos. 

Os números demonstram a relevância do telejornal nas eleições brasileiras. São por eles que muitos brasileiros tomam suas decisões de votos ou são, inclusive, apresentados a alguns candidatos. 

Porém, não se pode dizer que as entrevistas não tiveram inconsistências, tanto por parte dos profissionais do jornalismo e seu veículo, quanto pelos candidatos que participaram dos programas. 

Neste texto, o SOS Imprensa traz análises e reflexões sobre momentos das sabatinas que se deram entre os dias 22 e 28 de agosto. 

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A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NOS PADRÕES DE BELEZA

Como propagação de ideais de beleza podem ser prejudiciais a saúde mental e física das mulheres

Por Júlia Cerejo e Sthefany Rocha

Desde séculos passados, padrões de beleza são impostos às mulheres. Atualmente, a mídia contribui na criação da pressão estética sobre os corpos femininos. O que antes era divulgado pelos meios de comunicação impressos, como revistas e jornais, que exibiam mulheres magras, brancas e com curvas acentuadas, nos últimos anos, passou a ser, majoritariamente, disseminado na  publicação de vídeos e imagens nas redes sociais, como o Instagram, e na televisão.

A rede social que nasceu em 2010, com a função de compartilhar estilos de vida, fomenta uma cultura de corpos perfeitos inalcançáveis. Diariamente, inúmeras páginas associam saúde a corpos magros e definidos e estimulam procedimentos estéticos para atingir uma beleza ideal. Uma variedade de cirurgias plásticas são exibidas com tanta naturalidade que aparentam ser intervenções simples e sem riscos.

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“Viralatismo” à brasileira

Texto da Revista Bula reflete comparação injusta e desconhecimento da história e do mercado audiovisual brasileiro

Por Pedro Sales

Complexo de vira-lata é uma expressão comumente usada para designar a pessoa que reduz ou deliberadamente despreza seu próprio país. No esporte, por exemplo, existe uma resistência nada velada à Seleção Brasileira e uma forte torcida a outras equipes. O termo, inclusive, surge nesse contexto. Nelson Rodrigues, criador da expressão, a usou para criticar os brasileiros que se colocavam em situação de inferioridade após a derrota para o Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950.

Entretanto, o complexo de vira-lata não se restringe aos campos de futebol. Pelo contrário, ainda é comum a crítica à cultura brasileira, à música, à televisão e ao cinema. Em 8 de agosto (de 2022?) , a Revista Bula, que se intitula “o maior site de jornalismo cultural em língua portuguesa”, publicou uma matéria cujo título despreza obras brasileiras em detrimento das argentinas: “6 filmes brasileiros na Netflix que são tão bons, mas tão bons, que parecem cinema argentino”. É claro que essa manchete foi polêmica, rendendo debates acerca da valorização do cinema brasileiro.

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Democracia: um direito que o povo brasileiro se recusa a perder

População brasileira se uniu em São Paulo para cerimônia a favor da democracia brasileira e do sistema eleitoral do país

Por Beatriz Magalhães

Com mais de um milhão de assinaturas, a carta em defesa da democracia e do processo eleitoral, elaborada por professores da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), foi lida no dia 11 de agosto no Largo de São Francisco, na região central da capital paulista. 

O que levou parte da população a se unir dessa maneira? O medo. Medo de que algo, considerado como direito básico de todo e qualquer cidadão brasileiro, seja tomado deles mais uma vez. Assim como ocorreu no dia primeiro de abril de 1964, quando João Goulart, considerado uma ameaça comunista, foi derrubado de seu cargo de presidente da República, substituído inicialmente pelo então presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzili, e depois pelo general militar autoritário Castello Branco. A proteção da liberdade e da democracia no país foi o que motivou agora essa união de diversos setores econômicos e sociais.

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