O desafio do jornalismo na batalha pela transparência dos dados da covid-19 em uma cidade mineira

Por Karina Gomes Barbosa*
Professora do curso de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Temporalidades da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). É jornalista formada pela Universidade de Brasília (UnB). Suas pesquisas giram em torno de estudos feministas, afetos, representações e narrativas no jornalismo e no audiovisual.

Mariana (MG) foi a primeira cidade mineira, povoada em função da mineração. Passou por ciclos de abundância e abandono até que, na década de 1970, a mineradora que se tornaria a Samarco se instalou aqui, impulsionando um boom econômico. Com altos e baixos, essa atividade econômica tem sustentado a cidade mesmo após o crime socioambiental do rompimento da Barragem do Fundão, em novembro de 2015.

Cheguei aqui em agosto de 2014 e, “forasteira”, tenho acompanhado o modo como a cidade se tornou não só economicamente, mas socialmente refém da atividade minerária. Hoje, Mariana é uma grande mina de que as empresas tiram ferro, água, terra, dinheiro. E gente. A pandemia da covid-19 é mais uma tragédia coletiva que, em Mariana, temos vivido à sombra da mineração e que tem colocado questões para a prática jornalística.

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O caso “Bel para Meninas” expõe riscos do uso da imagem infantil na internet

Polêmica  envolvendo cenas de maus tratos no canal da youtuber mirim mais popular da Internet brasileira suscita  questionamentos sobre um necessário um  limite ético para o trabalho de crianças em mídias sociais

Por Andreia Morais

Percebe-se, atualmente, um grande interesse em relação ao que seria a vida privada. Esse prazer ao observar o mundo particular de outras pessoas é alimentado por vídeos que aparecem cotidianamente na Internet, nos mais diferenciados idiomas. Dentre as plataformas que disponibilizam esse tipo de conteúdo, o Youtube é o protagonista maior. Segundo o centro de pesquisa Pew Research Center, em 2019, 51% de seus usuários visitaram o site diariamente. Em contrapartida, quem se aventura a ser youtuber, abre mão de grande parte de sua privacidade ao postar gravações sobre a sua intimidade. Tamanha exposição merece ser analisada, principalmente, quando se trata dos inúmeros perfis e canais estrelados por crianças em redes sociais e plataformas de vídeos.   

  Na última semana, fomos surpreendidos com polêmico debate envolvendo a relação da youtuber Isabel Peres Magdalena, mais conhecida como Bel, de 13 anos, com sua mãe, Francinete Peres, que também trabalha como produtora de conteúdo. Na noite do dia 19 de maio, assistimos atônitos à hashtag #SalvemBelParaMeninas entrar no trending topics do Twitter. Pessoas que acompanham o canal Bel para meninas dizem que Fran, como a mãe de Bel é conhecida, pressiona a garota para produzir vídeos para o canal que não condizem com sua idade. Além disso, Fran também é acusada de expor a filha em situações constrangedoras em troca de likes e seguidores.

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Claustrofobia informacional e pandemia na ilha Tupinambarana

A intensidade da profusão de notícias sobre a pandemia de Convid-19 no Amazonas tem intensificado a sensação de sufocamento e ansiedade em Parintins (AM), cidade localizada numa ilha fluvial que não possui leitos de UTI e teve suas únicas formas de acesso interditadas

Por Marcelo Rodrigo
Professor adjunto do curso de Jornalismo no Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia (ICSEZ) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Parintins.

O bombardeio de informações na mídia global sobre a pandemia de covid-19 acaba gerando pânico nas pessoas em qualquer parte do mundo, mas parece ser ainda mais sufocante quando se vive em uma ilha fluvial no meio da floresta amazônica. No cenário de difusão da doença no Brasil, a forma como o município de Parintins (AM) figurou nas notícias de destaque nacional e ganhou repercussão em todos os veículos regionais e locais, conseguiu acentuar a preocupação dos habitantes parintinenses, chegando a estimular uma verdadeira sensação de claustrofobia informacional sobre a doença.  

Segunda maior cidade do Amazonas, distante 369 quilômetros da capital, Manaus, Parintins iniciou a mórbida contagem de vítimas fatais no Estado. O primeiro óbito, de um empresário de 49 anos bastante conhecido localmente, provocou o furor da população. Não é necessário nem comentar o impacto de uma notícia como essa em uma cidade do interior, correto? Os grupos de Whatsapp não pararam de replicar a foto do falecido com mensagens fúnebres e homenagens cibernéticas.

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A queda de Regina Duarte

Ex-secretária de Cultura fez declarações problemáticas em relação ao período da Ditadura Militar

Por Lara Costa

 No dia 7 de maio, a então secretária de cultura do governo federal, Regina Duarte, concedeu entrevista para a CNN Brasil. Na entrevista, a atriz disse: “Bom, mas sempre houve tortura. Meu Deus, Stálin, quantas mortes? Hitler, quantas mortes? Se a gente for ficar trazendo as mortes e ficar arrastando esse cemitério. Desculpe, mas não quero ficar arrastando um cemitério de mortos nas minhas costas”. O comentário se referia às mortes da ditadura militar no Brasil. Além disso, a secretária se negou a comentar as mortes de dois artistas: Aldir Blanc e Flávio Migliaccio.

  Regina Duarte, antes de assumir o cargo de Secretária de Cultura, é conhecida por seus trabalhos como atriz, desde 1965, em filmes, peças teatrais e novelas da Rede Globo. Foram nas novelas, porém, que ela conseguiu maior reconhecimento nacional, fazendo uma variedade de obras. Além disso, ela recebeu, nos anos 1970, o título de “Namoradinha do Brasil”. 

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13 de maio: Assinatura da Lei Áurea

Por Maria Carolina Brito

13 de maio de 2020 marca 132 anos da abolição da escravatura. A assinatura da Lei Áurea não veio com políticas de inserção das pessoas negras na sociedade brasileira, entretanto, e esse descaso trouxe consequências que refletem na situação dessa parcela da população até os dias atuais.


Mesmo assim, a data é uma forma de resgatar a memória das agências negras fundamentais para o processo abolicionista, como o engenheiro André Rebouças, que participou da fundação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, da Sociedade Abolicionista e da Sociedade Central de Imigração. Rebouças defendia a emancipação do escravo e sua total integração social por meio da aquisição de terras. Outro nome importante é José do Patrocínio, jornalista, que difundiu ideias abolicionistas por meio do jornal Gazeta da Tarde. Além do escritor Machado de Assis e outros.


O SOS Imprensa resgata esses importantes nomes que, muitas vezes, não são lembrados.

Luís Gama (1830-1882)

Luís Gonzaga Pinto da Gama nasceu em 1830, em Salvador, filho de Luísa Mahin – uma das líderes da Revolta dos Malês, movimento de resistência contra as autoridades da Bahia que impediam as práticas religiosas das pessoas africanas escravizadas. Aos 17 anos, após aprender a ler e escrever, reivindica sua liberdade.


Em 1850, Gama tentou frequentar o curso de Direito do Largo do São Francisco, hoje, Universidade de São Paulo (USP), mas foi impedido por ser negro. Ainda assim, assistia às aulas como ouvinte, tornou-se rábula (advogado autodidata, sem diploma), com direito a exercer a profissão em juízo. O “advogado dos escravos” libertou mais de 500 pessoas.
Um dos argumentos para conseguir a alforria era o seguinte: “ a maior parte dos escravos africanos … foram importados depois da lei proibitiva do tráfico promulgada em 1831″, disse Gama na época.


Em 2015, foi reconhecido pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) como advogado. Em 2018, foi declarado Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil.


Maria Firmina dos Reis (1822- 1917)


Nascida na ilha de São Luís, no Maranhão, em 1822. Trabalhou como professora de escola primária, após ser a primeira mulher aprovada em concurso público, no estado. Firmina participou da vida intelectual e cultural do Maranhão: publicou poesia, ensaios, histórias e quebra-cabeças em jornais e revistas locais, e compôs canções abolicionistas.


Foi a primeira mulher a publicar um romance no Brasil: Úrsula, escrito com o pseudônimo “uma maranhense”, em 1859. Nele, criticou a escravidão apresentando as personagens negras em sua dimensão humana, não somente como escravizadas, e lhes posicionando como sujeitos do discurso. Em 1887, publicou na Revista Maranhense o conto “A Escrava”, no qual se descreve uma participante ativa da causa abolicionista. Ela criou, aos 55 anos de idade, uma escola gratuita e mista para crianças pobres, na qual lecionava.

Sua importância vem sendo resgatada nos últimos anos. Maria Firmina dos Reis foi homenageada pelo Google, em 11 de outubro de 2019, em comemoração ao seu 194º aniversário.


Francisco José do Nascimento (1839- 1914)


Cearense, conhecido como “Dragão do Mar”, filho de pescador, neto de jangadeiro, herdou a profissão do pai. A partir de 1974 começa a trabalhar na Capitania dos Portos e convivia com escravos e jangadeiros e, segundo alguns relatos, apesar de ter se alfabetizado somente aos 20 anos, devido ao seu contato direto com marinheiros de outras nacionalidades, falava inglês e alemão.

Teve participação fundamental no movimento abolicionista no Ceará. Em 1881, convenceu os colegas de profissão a se recusarem a transportar em suas embarcações os negros vendidos como escravos para o sul do país. Essa iniciativa, somada a ação de grupos abolicionistas da elite cearense, resultou no fim da escravidão no estado, em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea.

É tido como um grande herói da abolição no Ceará e recebeu medalha de ouro pela Sociedade Abolicionista. O Centro Cultural Dragão do Mar, naquele estado, tem esse nome em sua referência. Também virou nome rádio, farmácia, escola, rua e prédios públicos no Estado.

O Ceará também teve um grupo de mulheres abolicionistas. Fundada em dezembro de 1882, a sociedade Cearenses Libertadoras (grupo dirigido por Maria Tomásia Figueira Lima) tinha como um dos principais elementos a esposa de Francisco José do Nascimento.

A planta que floresce milhões

Desacreditada pelos colegas de confinamento e contrariando todas as expectativas, a final da 20º edição do Big Brother Brasil, exibido pela Rede Globo, consagrou Thelma Regina Maria dos Santos, 35 anos, médica, passista e, principalmente, mulher preta como a grande vencedora do prêmio de 1,5 milhão.

Por Maria Carolina Brito e Luiz Oliveira

Em uma disputa entre as sisters Rafa Kaliman e Manu Gavassi, Thelma Regina obteve 44,10% dos votos, deixando claro que era a favorita, ao contrário do que se comentava nas redes sociais. Única participante do grupo pipoca, composto apenas por inscritos, era menosprezada por diversos colegas que a classificavam como “sem chance de ganhar”, que na linguagem do reality era o participante visto como a planta da edição.  

O apresentador do show, Tiago Leifert, foi preciso no discurso sobre o  porquê a sister era a única candidata possível de ganhar o jogo. “O BBB não podia terminar sem uma vitória histórica, então o BBB20 só pode ser seu, Thelma”, finalizou. Histórica. É assim que ficará marcada a conquista da médica, pois, em 20 anos de programa, apenas 4 vitórias foram para negros. Em 2004 Cida Matos; 2006 Mara Viana; 2018 Gleici Damasceno e, por fim, 2020 Thelma Regina. 

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Morte de Gugu atrai audiência televisiva e disputa de herança divide opinião do público

 Meios de comunicação usam morte do apresentador Gugu Liberato para atrair telespectadores e como ficou a divisão de bens

Por Amanda Silva

No dia 22 de novembro, um dos principais apresentadores da televisão brasileira, Gugu Liberato, morreu aos 60 anos em Orlando, Estados Unidos. Augusto Liberato estava internado desde o dia 20 de novembro, após sofrer um acidente doméstico e apresentar um quadro irreversível de morte cerebral.

Sendo um dos principais nomes da televisão brasileira pelos seus programas de grande audiência, braço direito do comunicador e dono do SBT, Silvio Santos, logo a comoção veio de todas as partes. A Rede Globo foi a primeira emissora de TV a dar a notícia da morte do apresentador após a confirmação pela assessoria de Gugu. 

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