Em meio a lutas e perseguição, povos indígenas querem um dia para chamarem de seu

Indígenas criticam o “Dia do Índio” e pedem que sua história seja lembrada para além dos estereótipos.

Em abril de 1940, durante o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, um grupo formado por representantes da maioria dos países americanos votou pela criação do “Dia do Índio”. Dentre as resoluções do evento estão o “respeito por valores positivos da identidade histórica e cultural dos grupos da população da América a fim de melhorar sua situação econômica”, “adoção do indigenismo como política de Estado”. Por último, estabeleceu “o Dia do Aborígene Americano em 19 de abril”

Apesar de debaterem questões referentes aos povos indígenas, como direitos civis, delimitação de terras e resolução de conflitos, apenas Estados Unidos, México, Panamá e Chile possuíam indígenas em suas delegações oficiais. Com medo de serem ignorados, representantes indígenas boicotaram o Congresso e só após uma série de protestos, participaram ativamente dos debates. 

No Brasil, o “Dia do Índio” foi criado por decreto-lei apenas em 1943, já que o país não aderiu às deliberações do Congresso. A participação dos povos indígenas na criação da data foi mínima, sendo esse um projeto defendido especialmente por Roquette Pinto, pai da radiodifusão no Brasil e representante do país no congresso, e Marechal Rondon, engenheiro militar e indigenista.

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Arte amável, artista desprezível – um conflito em questão

É possível separar obra de artista?

Por Vitória Carmo

A autora J.K. Rowling
Foto: Getty Images

É árduo definir o conceito de arte, essa que acompanha a humanidade desde os primórdios, na tentativa de ser um suspiro de fuga da realidade bruta. E, apesar de muitos a considerarem fruto de técnicas, habilidades e uma inteligência estética necessária, a arte só se consagra quando posta ao público, provocando, sensações e emoções, ao ponto de criar uma conexão com alguém.

A arte não se idealiza sozinha e, por trás de cada obra, há um ser humano falho. Mas e se tais falhas não forem meros erros cotidianos e sim atos abomináveis que ferem existências e vidas específicas, até mesmo consagraram-se crimes? Como seguir consumindo algo criado por alguém assim? Este é o debate que se destaca, cada vez mais, como inevitável.

A pergunta que ecoa no mundo artístico e na sociedade que o viabiliza parece criar mais indagações do que retornos, e a resposta mais corriqueira é “depende”. Mas, depende do que? Do tipo de ligação que existe entre consumidor e arte? Ou da gravidade dos atos cometidos pelo artista?

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Oscar 2022, entre tapas e polêmicas

Verbal ou física, as agressões no evento continuam gerando debates sobre limites do humor, defesa à família e o apagamento da mulher negra nas pautas

Por Pedro Sales e Ana Luiza Brandão

A 94° cerimônia do Oscar, que ocorreu em Los Angeles, no dia 27 de março, diferentemente das últimas edições, teve grande repercussão. Para a infelicidade da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, organização responsável pela premiação, quem roubou os holofotes não foram os filmes premiados, mas o tapa dado por Will Smith em Chris Rock. “No Ritmo do Coração”, filme vencedor da principal categoria, foi rapidamente esquecido nas manchetes, que repercutiram a agressão como assunto mais relevante da noite. 

Tudo começou quando o comediante Chris Rock fez uma piada de claro mau gosto sobre a aparência de Jada Smith, atriz e esposa de Will. A associação ocorreu com a personagem de Demi Moore em “Até o Limite da Honra”, sobretudo em razão do penteado de ambas mulheres, que são carecas. O que Rock não esperava era a reação de Will Smith em “proteção” à esposa, que resultou na agressão física e em xingamentos.

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Mulheres no jornalismo 

Ataques a jornalistas demonstram clara tentativa de silenciamento dessas mulheres 

Por Gabriela Boechat  

Ontem, 7 de abril, foi comemorado o Dia do Jornalista. Criado pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a data escolhida homenageia Giovanni Libero Badaró, importante jornalista que lutou pelo fim da monarquia portuguesa e pela independência do Brasil.  Assim como Badaró, desde os primórdios da atividade jornalística no Brasil, profissionais lutam pelo direito à liberdade de imprensa. O inciso V do artigo 2º do Código de Ética do Jornalista, por exemplo, prevê que “a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade”. 

Infelizmente essa luta ainda é constante e necessária. O Brasil, de acordo com o ranking mundial da liberdade de imprensa de 2021, caiu quatro posições e agora se encontra na zona vermelha. A partir de uma rápida análise de dados, compreende-se que desde 2019, quando Jair Bolsonaro (PL) assumiu a Presidência, o ambiente de trabalho para jornalistas se tornou mais perigoso, e a liberdade de imprensa está cada vez mais ameaçada. “Insultos, estigmatização e orquestração de humilhações públicas de jornalistas se tornaram a marca registrada do presidente, sua família e sua entourage”, afirma o texto de apresentação do ranking. 

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Gaslighting na mídia

De atritos no Big Brother Brasil a personagens da ficção, o termo gaslighting voltou a ocupar a mídia e abriu espaço para debates sobre esse tipo de violência

Texto por Fernanda Fonseca

O que o participante do BBB22 Arthur Aguiar e Christian, personagem da novela Um Lugar ao Sol, têm em comum? Ambos foram acusados, nas últimas semanas, de praticar gaslighting contra mulheres. 

Arthur, que integra o elenco da vigésima segunda edição do reality Big Brother Brasil, foi apontado por internautas, na noite de segunda-feira (21/03), como autor desse tipo de violência e de estar praticando-a contra outra integrante do reality, a médica Laís Caldas. A acusação veio após um jogo da discórdia, no qual Laís externou, durante a edição ao vivo, seu incômodo com algumas falas do colega de elenco, afirmando que ele sempre a menospreza e invalida seus posicionamentos dentro da casa: “Você (Arthur) vira e fala ‘você fica criando coisas que não existem’. (…) Você diz que não sei o que estou falando, que dou show, que sou rasa e me diminui”. 

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Os limites da representatividade

“Turning Red”, novo filme da Pixar, traz temas importantes sobre amadurecimento, mas estreia em meio a polêmicas sobre representatividade em filmes de animação

Texto por Débora e Fernanda

Desde a estreia de Divertidamente, em 2015, o estúdio de animação Pixar vem mostrando uma nova orientação para seus filmes: ainda mantendo o tom fantasioso, eles parecem agora mais focados em trazer ao público uma maior identificação com as narrativas, invocando dramas comuns a diferentes faixas etárias. É nesse cenário que se dá, em março de 2022, a estreia de Turning Red (“Red: Crescer é uma fera”), primeiro longa do estúdio dirigido por uma mulher e com uma equipe de produção inteiramente feminina.

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Sexismo e política na guerra: o caso Mamãe Falei

Repercussão negativa do áudio demonstra que o discurso sexista tem consequências na vida pública

Por Pedro Sales

“Elas olham, e vou te dizer: são fáceis, porque elas são pobres”. Essa é a primeira frase dita por Arthur do Val em áudio vazado pelo portal Metrópoles, no dia 4 de março. Ao longo dos três extensos minutos, o deputado estadual, que era filiado ao Podemos de São Paulo, desfere comentários sexistas sobre as refugiadas ucranianas. O discurso não saiu impune. A repercussão da imprensa e das redes sociais foi imediata. As consequências chegaram à vida política e pessoal do parlamentar.

Arthur do Val, conhecido nas redes como “Mamãe Falei” — nome de seu canal no YouTube —, adquiriu relevância através de seus vídeos na plataforma. O conteúdo do canal se apoiava, sobretudo, em manifestações de alinhamento à esquerda. A tática utilizada pelo youtuber era se infiltrar em multidões e questionar a posição política dos manifestantes. A esperança de Arthur era que os participantes dos protestos reagissem agressivamente, pois dariam razão aos seus argumentos e os vídeos conseguiriam um bom engajamento.

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Moïse Kabagambe e a desumanização do imigrante não-branco

O Brasil não pode ser a pátria acolhedora que mata imigrantes

Por Daniel Lustosa

O assassinato do congolês Moïse Kabagambe pôs em evidência a situação deplorável em que muitos imigrantes negros e refugiados encontram aqui no Brasil, além de novamente expor a face racista e xenófoba do brasileiro. No entanto, chama a atenção também a frieza e a insensibilidade que os programas televisivos tiveram ao reproduzir o vídeo do espancamento covarde de Moïse. A repetição das imagens, até mesmo em horários de almoço, denota o fetiche que os jornais, especialmente os que destacam o noticiário policial, têm pela violência.

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Igualdade em campo

Organização e paciência: a definição do caso das atletas norte-americanas

Por Larissa Dias

Ao se falar de futebol feminino, é recorrente a palavra “igualdade” aparecer nos discursos. Entretanto, o que é verbalizado se esquiva do que acontece na prática. Em países em que o faturamento é priorizado, se colocar no mesmo pedestal de outro não é bom investimento. Com isso, entende-se um pouco do trajeto percorrido pelas atletas dos Estados Unidos durante suas carreiras. 

Na última terça de fevereiro, 22, foi anunciado que a federação americana de futebol — U.S. Soccer Federation — se comprometerá a pagar o mesmo às seleções masculina e feminina em todos os amistosos e torneios oficiais, inclusive na Copa do Mundo. No acordo,  US$22 milhões serão destinados para os atletas das modalidades, e um adicional de US$2 milhões para beneficiar jogadoras do USWNT em seu pós-carreira e ações de caridade para garotas da base.

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Aborto: Brasil retrocede em relação a vizinhos latinos

Porque o Brasil está longe de conquistar a legalização do aborto

Por Gabriela Boechat e Paloma Araujo

Em 21 de fevereiro, a Corte Constitucional da Colômbia descriminalizou a prática do aborto em casos de até 24 semanas de gestação, o equivalente a 6 meses de gravidez. A denominada maré verde — cor adotada por aqueles que defendem a legalização do aborto nas manifestações argentinas — chegou ao país após diversos embates entre movimentos feministas e mobilizações conservadoras. A Colômbia juntou-se, então, ao Uruguai, Argentina, México, Cuba e Guiana, sendo o sexto país da América Latina a legalizar a interrupção da gravidez.  

No Brasil, a notícia gerou debates e críticas não só na internet, como também no plenário da Câmara dos Deputados. Alguns deputados como Chris Tonietto (UNIÃO), Otoni de Paula (PSC), Eli Borges (Solidariedade) e o presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), repudiaram e lamentaram a decisão da Corte colombiana. 

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