Carta aos colegas em duas vias

O contexto nacional é turvo para o meio jornalístico, mas faculdades e redações continuarão agindo. Estas linhas são um apoio no momento em que a profissão se faz ainda mais necessária

Por Daniele Brandão

 

[Primeira via.]

Amig@ estudante de Jornalismo, não sei se você é de uma universidade pública ou particular. Não sei nada sobre sua origem, gosto pessoal, postura ideológica ou outro fator que construa sua personalidade, e também não sei se você escolheu seguir este caminho cheio de pedras por amor, curiosidade ou porque não tinha outra alternativa e não sabia o que fazer da vida. Mas acredito que espera o melhor desta estrada, então será bom conversar com você.

 

Escrevo com toda a franqueza, sem delicadezas excessivas, pois não é o caso. Nunca foi, melhor dizendo. Não estranhe os possíveis plurais — estou reforçando o que digo para mim também.

 

Então, vamos lá. O Brasil tem sido muito violento com a nossa classe e esse panorama não vai melhorar a curto prazo. Talvez nem a longo prazo… A oposição à imprensa está cada vez mais clara e radical, e é preciso ter cuidado, sim. Ainda pode piorar. Infelizmente, não dá para ignorar que isso é a colheita farta de sementes estragadas, mas toda a situação caótica pela qual passamos e ainda passaremos não pode nem deve ser um desestímulo para o nosso ofício.

 

E o que fazer para resistir a este momento e às inúmeras sensações ruins que ele traz? Em algum momento você deve ter pensado sobre esta questão, que não é tão simples.

 

Comece por dentro. Defenda-se. Defenda o curso que você faz, o seu ambiente de estudos e o seu direito a um aprendizado de alto nível (se você é do ensino superior público, defenda com ainda mais força!). Defenda a comunicação pública e comunitária e sua independência. E, principalmente, defenda o direito à comunicação. Valorize-o, lute por ele. Ele é caríssimo e negado a uma parte considerável da população brasileira. A informação correta é a sua ferramenta, e você tem como obrigação ética e moral não tornar o acesso a ela mais difícil e segregado do que já é. É essa informação que faz as pessoas exigirem todos os outros direitos, que também são seus. Humanos, lembra?

Agora vamos para fora e no plural. É o momento de cobrarmos um jornalismo de mais ação e menos opinião, que não foge da raia, não se faz de bobo e não se isenta das responsabilidades. Com muito mais raça e espelhos por todos os lados. Claro que não adianta apenas cobrar — essa mudança de postura tem que partir de nós também, afinal é a profissão que vamos exercer. Devemos ser críticos da nossa própria área, admitir as falhas e melhorar o que fazemos sempre, por uma razão muito simples: somos prestadores de serviço e devemos oferecer a excelência.

 

Posicione-se a favor deste jornalismo autocrítico e, por meio dele, esteja ao lado de quem precisa de apoio. Mais do que em qualquer momento dos últimos 35 anos da história do país, muita gente ainda necessita de nós e do nosso trabalho. É muita gente mesmo, que não está nos bairros chiques nem nos centros de poder, e eu tenho certeza que você sabe disso. Se não sabe, ou prefere não saber, tenho uma recomendação para você: fure sua bolha. A velha e confortável técnica de tapar os olhos para os problemas dos outros não vai mais funcionar, e enxergar tanta mazela dói mesmo! Mas essa é uma dor necessária.

 

Não deixe de produzir por ainda ser estudante, não estar em um grande veículo ou por achar que não sabe o suficiente. O jornalismo alternativo/independente é uma grande via. Crie coletivos, produza por conta própria, faça dentro das suas possibilidades — mas sempre enxergando além da sua visão de mundo. Trabalhe com o que te deixa desconfortável, não apenas com o que te agrada. E faça com responsabilidade e respeito, pois o público jamais pode ser tratado como idiota.

 

Nossos colegas que já estão exercendo a profissão também precisam que fiquemos ao lado deles. Aqui, não são “eles, que estão no mercado” e “nós, que ainda estamos na faculdade” — necessitamos uns dos outros, unidos. Abra a mente e o coração para aprender. Lute contra a violência que eles estão sofrendo, porque ela também pode nos atingir.

 

Há muitas vidas a serem visibilizadas e bastante sujeira a ser tirada de baixo dos tapetes por nós. Isso incomoda. Nosso trabalho incomoda e seremos incomodados por causa dele. Mesmo assim, não pare! Faça a sua parte, faremos juntos.

 

Esteja sempre ciente de que a estrada à nossa frente é nebulosa. Só não se permita ficar paralisado no meio da névoa! Dê a si mesmo o direito de sentir medo, mas com a consciência e a firmeza de quem vai resistir para contar a história.

 

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[Segunda via.]

Amig@ jornalista, eu não sei se você tem diploma ou não, se se formou em uma universidade pública ou privada, se é de outra área mas exerce o jornalismo, se é do tempo em que não precisava de diploma para trabalhar no ramo… Não sei nada sobre sua origem, gosto pessoal, postura ideológica ou outro fator que construa sua personalidade. Imagino que ame a profissão, mas não te julgarei se no fundo preferir fazer outra coisa na vida, e será bom conversar com você.

 

Objetividade é uma lenda do folclore jornalístico e você sabe disso, porém quero ser o mais direta possível. Não estranhe os possíveis plurais — estou reforçando o que digo para mim também.

 

A imprensa brasileira fez, e ainda insiste em fazer, um plantio enorme de sementes ruins. Estamos vendo que a colheita ainda vai render muito… Este momento é totalmente desfavorável para nós e não temos a menor condição de fingir o contrário — nem devemos, porque nossa função é trabalhar com a verdade, qualquer que seja ela!

 

Por isso eu te faço algumas perguntas: para quem é o jornalismo que você faz? É para o seu ego, a sua crença/descrença religiosa, o veículo onde trabalha, o lado político que apoia ou para o público? E que público é esse? Onde ele está? Ele se reconhece e se enxerga na sua produção? Tem certeza que é só para essa faixa socioeconômica e cultural que você deve produzir conteúdo?

 

Não é para mim que você precisa responder a estas questões, é para si mesmo. É para a sua consciência, que provavelmente vai apresentar outra pergunta: e agora?

 

Por mais que estejamos em perigo, e não saibamos com exatidão o quanto, o trabalho tem que continuar. O medo não pode nos deixar paralisados.

 

Agora, com ainda mais força do que nos últimos 35 anos, é hora de resgatar o jornalismo. Mas antes de salvar o seu emprego, olhe um pouco para dentro. Pratique mais a autocrítica sobre o seu trabalho e sobre a nossa profissão. É ruim fazer isso, incomoda demais! Quem gosta de apontar os próprios vacilos? Entretanto, neste momento é de uma necessidade que você não faz ideia, ou até faz… E pratique também o jornalismo que não se curva diante de nenhum poder e não tapa os olhos para as desgraças e o sofrimento do país. Esse é o jornalismo que se importa. Você se importa?

 

Se importe — assim mesmo, sem ênclise. Eu sei que é desgastante em todos os sentidos. Faz um mal danado! Mas fure sua bolha, a mesma que se criou ao redor da sua origem, do seu gosto pessoal, da sua postura ideológica e de todo o resto. Saia da redoma e tome posição ao lado dos que precisam de apoio. Eu tenho uma notícia urgente para você: eles são muitos. É muita gente sendo feita de invisível ou tendo sua imagem distorcida por nós. Posicione-se junto, não contra. Abra os olhos.

 

Se você faz jornalismo tradicional, não jogue contra a comunicação pública, porque há pessoas que dependem dela para sobreviver e colaborar indiretamente com seu sucateamento é covardia. Nem contra a comunicação comunitária, pois ela é parte da identidade de quem a faz e ajudar a enfraquecê-la é da maior baixeza de caráter. E nem contra as mídias alternativas e independentes, porque elas são construções necessárias e tentar derrubá-las é falta de respeito.

 

Se você faz jornalismo alternativo ou independente, não trate os colegas de veículos tradicionais como monstros e não instigue movimentos políticos, mesmo que indiretamente, a fazerem o mesmo. Se o trabalho de um é cerceado, todos se prejudicam. Todo mundo sai perdendo, ficou claro? Não permita isso.

 

“Olhos da sociedade” é o que somos, todos nós, vigiando cada canto deste país. Por isso repito: abra seus olhos. Olhe para fora agora. Não deixe passar nada.

 

Nós, estudantes também precisamos que você esteja ao nosso lado. Aqui, não são “eles, que ainda estão na faculdade” e “eu, que já estou no mercado”. Necessitamos uns dos outros, unidos. Compartilhe seu conhecimento sem arrogância, para a evolução e o bem da profissão que te abraçou. E nos ajude a lutar por um ensino de jornalismo de alto nível, que se coloque a favor dos direitos humanos. A comunicação é um deles, ainda negado a milhares de pessoas, e através dela podemos defender todos os outros que também são desrespeitados. É por causa dela que temos o direito de trabalhar.

 

Somos prestadores de um serviço que é cada vez mais necessário. É hora de usarmos a nossa maior ferramenta, a informação correta, a favor de nós mesmos, do nosso povo e do Brasil.

 

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P.S.: cuidem da sua saúde em todos os campos, porque vocês precisam estar bem para enfrentar o que vem por aí.

 

E obrigada, gente. Obrigada por serem assim.

Para que servem as universidades

Pequena reflexão sobre o papel das Instituições de Ensino Superior

Por Alice Maria e Júlia Mano 

“O jovem no Brasil nunca é levado a sério”. Essa é uma frase dita por Negra Li na música Não é sério, publicada em 2000 com a banda Charlie Brown Jr.. Já se passaram 18 anos desde o lançamento do single e o jovem brasileiro continua sendo visto como imaturo, principalmente quando se trata de opiniões políticas. De modo paradoxal, a juventude é considerada “o futuro”, toda a responsabilidade de fazer do mundo um lugar melhor é largada nas mãos de quem é constantemente banalizado, e, junto com ela, os lugares que frequenta, especialmente as faculdades.

Como foi visto nos dias que antecederam o segundo turno das eleições, diversas universidades foram invadidas por agentes do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e das polícias Militar e Federal. Materiais políticos e ideológicos foram apreendidos e palestras, rodas de conversa e aulas abertas sobre fascismo foram interrompidas.

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Logo após a decisão do TRE, ministros do STF se posicionaram contra as interferências ocorridas nas faculdades do país e julgam incabíveis tais ações.

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Esse é um assunto antigo, já. Mas não deixa de ser importante pensá-lo a partir da própria universidade. Não é de agora que as universidades são vistas como distantes da sociedade. A população não sabe ao certo o que elas fazem e nem quais são as suas contribuições, no entendimento geral, seu único papel é a de graduar os discentes. Mas as instituições públicas de Ensino Superior têm três pilares que regem o seu funcionamento: Ensino; Pesquisa; Extensão. É na extensão que o ensino e as pesquisas desenvolvidas são disponibilizados ao público externo — como o projeto Comunicação Comunitária desenvolvido na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. As principais pesquisas brasileiras, de todas as áreas do saber, são realizadas no âmbito das universidades públicas — como o estudo mais recente, na área da saúde, da USP que identificou bactérias da Antártica que poderiam impedir o desenvolvimento de cânceres.

Por faltar entendimento sobre o funcionamento das universidades, elas são constantemente atacadas por políticos e pela população. Essas instituições causam incômodo pois seu objetivo é construir senso crítico, o que ameaça o status quo. Quando a população não entende o que acontece dentro de um campus fica muito fácil atacar e desmoralizar. Com isso, o pensamento de que o universitário é “vagabundo” e “baderneiro” aparece e todas as vezes que o estudante se levanta para protestar em defesa da sua instituição ele é ridicularizado e abandonado pela comunidade, que deveria apoiá-lo.

Quando planos de governo dizem que: “As universidades precisam gerar avanços técnicos para o Brasil, buscando formas de elevar a produtividade, a riqueza e o bem-estar da população. Devem desenvolver novos produtos, através de parcerias e pesquisas com a iniciativa privada. Fomentar o empreendedorismo para que o jovem saia da faculdade pensando em abrir uma empresa.” claramente não sabem o que acontece nos centros universitários, pois isso já é realidade, o que falta é valorização e investimentos. E, ao ter votado a favor da PEC 55 (que congela investimentos na educação e saúde por 20 anos), mostra que não tem interesse em melhorar as condições das universidades públicas.

A falta de importância que o governo vindouro dá às universidades, em seu plano governamental, e em seus discursos, é preocupante. Sua pretensão é a de reduzir os investimentos no ensino superior e, segundo a sua equipe — que formula o seu plano de governo — há, também, a intenção em cobrar mensalidades, nas instituições, dos discentes que têm alta renda, sendo inconstitucional e, segundo especialistas em economia, desnecessário. Essa rigidez que o presidenciável prega com as faculdades é dada por motivações políticas, pois se afirma que há uma grande influência do movimento esquerdista nos meios acadêmicos, demonstrando, assim, intolerância com ideologias contrárias às suas e atacando a soberania das universidades em poder se posicionar politicamente. Contudo, há o apoio de parte significativa da sociedade em relação às suas propostas.

Em conferência na UnB durante a Semana Universitária de 2018, a professora e filósofa Marilena Chauí afirmou que a universidade como organização deve exercitar a autonomia do saber e concebe-se a si mesma republicana, pública e laica. Ela precisa ser democrática para que consiga democratizar o saber. A educação é um direito, e mais do que passar conhecimento, a função de uma universidade é formar cidadãos porque quando a formação torna o exercício do saber algo para todos, podemos universalizar muitos outros direitos. A universidade precisa ser universal.

O SOS Imprensa repudia todas as afirmações difamatórias contra as universidades públicas brasileiras e a sua comunidade, bem como todas as formas de censura que foram cometidas contra as manifestações antifascismo e em prol da democracia. Temos o direito de nos colocarmos politicamente como oposição em relação à defesa de um período sombrio do Brasil, a Ditadura Militar, bem como contra argumentos que violam a liberdade de expressão e defendem a violência.

Estudantes precisam mostrar para a comunidade que a universidade também é dela, que deve ser defendida e não fechada, invadida ou privatizada, como muitos acreditam. É na comunidade acadêmica que o pensamento crítico é fomentado de maneira mais intensa, e essa é a maior arma contra o autoritarismo.

Quebra do silêncio

*Ilustração por Camila Rosa

Mais de 300 mulheres enfrentarammedodenunciaram o líder espiritual João de Deus

Por Geovana Melo

Nas últimas semanas, um escândalo tomou conta das manchetes dos principais jornais do mundo. O médium João de Deus, reconhecido internacionalmente, está sendo acusado de estupro, assédio e pedofilia por centenas de mulheres. Até o momento, por 330 mulheres de várias idades e nacionalidades. O “orientador espiritual” usava da sua influência e da fragilidade emocional das vítimas para manter os casos em sigilo. Uma outra ação chamou atenção foi como a ação feminina fez com que décadas de violências fossem exteriorizadas.

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“Art. 196 A saúde é direito de todos e dever do Estado”

Após 30 anos de sua aprovação, o SUS ainda não está nem perto do idealizado, nem mesmo na ficção da série televisiva Sob Pressão

Por Wanessa Pereira

Filas, negligência, falta de médicos, medicamentos e equipamentos quebrados, infelizmente, são situações comuns em hospitais públicos de todo país. Há 30 anos, o SUS foi implantado no Brasil. O sistema que é, até hoje, motivo de elogios estrangeiros por ser o único programa de saúde pública no mundo que atende toda a população de forma gratuita. Tornou-se cada vez mais esquecido pelo poder público que é negligente em investir em uma das bases essenciais e de direito de todos, a saúde.

A arte imitou a vida no seriado Sob Pressão, que foi produzido e transmitido pela Rede Globo. O enredo se passa em um hospital público em uma favela no Rio de Janeiro. O cenário criado descreve com exatidão a precariedade da infraestrutura dos hospitais públicos brasileiros: o mofo, paredes rachadas, falta de iluminação, infiltração, ferrugem. Em meio ao caos da superlotação, médicos e demais funcionários trabalham com improviso.

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A mídia e a construção de uma consciência negra

Por Luiz Oliveira e Larissa Lins

Vinte de novembro é a data que se comemora o dia da Consciência negra no Brasil. Os grandes veículos de comunicação, que durante o ano inteiro negligenciaram pessoas negras em seus espaços midiáticos, os trazem em pauta nesse dia. É comum que em seus programas o assunto seja o tema principal, quase sempre trazendo-as para falar sobre temas raciais. Isso causa uma reflexão sobre qual é o papel da mídia na construção de uma identidade negra.

A partir do que pode ser observado nas grandes emissoras de televisão, torna-se necessária uma reflexão sobre o quanto a mídia é  responsável por construir no imaginário da população o que é ser negro e, principalmente, os lugares que esse povo é permitido a ocupar. Seja pela forma como os representa, ou, na maioria das vezes, não representa. É o caso da ausência em seus programas, novelas, séries, propagandas; mas também pela forma na qual os personagens são construídos, quando existem nas narrativas.

Por exemplo, a forma como homem negro é representado pelos diversos meios audiovisuais, principalmente na TV aberta, é altamente prejudicial e estereotipada, pois, é construída e validada a partir de uma visão racista e, infelizmente, hegemônica. Esses homens são objetificados, transformados em “animais” sexuais. Disto surge a figura do “negrão”, aquele que é bom de cama, viril, forte, másculo, com pênis grande, mas que só serve pra ser amante ou o bandido, miserável, perigoso, vagabundo e violento.

Portanto, essa dita representatividade se mostra extremamente negativa e questionável. É raro encontrar personagens masculinos que fujam desses estereótipos. Um exemplo de tentativa de mudança, foi feito pela Rede Globo, na novela Insensato Coração, onde havia o personagem André Gurgel, interpretado por Lázaro Ramos, que é descrito como um “Don Juan”, um homem bem sucedido, que se relaciona com diversas mulheres, mas que não quer um relacionamento fixo. Em outras palavras, ele era o galã mulherengo da novela.

Grande parte do público o rejeitou. De acordo com o portal Terra, “o personagem teve o maior índice de rejeição no grupo de discussão realizado pela emissora”. Deram como justificativa o fato de acharem que “ele não é um galã para conquistar tantas mulheres”.   

Essa rejeição evidencia o quanto a sociedade está  habituada a nunca associar a imagem de negros em posições diferentes daquela já estabelecida pela visão racista. Bell Hooks, escritora e ativista negra norte-americana, explica que essa perpetuação de estereótipos negativos à negritude existe e, muitas vezes não é questionada, porque, “dentro do contexto da supremacia branca, os negros são frequentemente recompensados por pessoas brancas e racistas quando internalizam o pensamento racista como uma maneira de assimilar a cultura dominante”. Ou seja, a persistência de imagens racistas afeta diretamente como os negros passam a se enxergar e, consequentemente, os fazem reproduzir tais visões sobre seus corpos.

Falando sobre o estigma relacionado ao corpo negro, os corpos femininos são tão ou ainda mais violentados pela ação midiática. As mulheres com peles mais escuras são, muitas vezes, excluídas do campo romântico, por exemplo. São as serviçais, as empregadas e subordinadas, mas nunca as protagonistas desejadas. Seus corpos estão designados a cuidar de filhos que não são seus, a limpar a casa que não é sua e a ocupar o único espaço em que podem ser inseridas: as comunidades. Mesmo em campos de hipersexualização, essas mulheres são excluídas.

Nayara Justino, eleita Globeleza em 2014, foi retirada da vinheta dias depois de ser escolhida após diversas críticas pela sua pele ser “escura demais”. Em entrevista à revista Veja, ela afirmou: “Até hoje, eu choro e dói demais. Mas eu não quero passar essa imagem. Eu acho muito importante o negro ter orgulho de si, ter orgulho da sua cor”. Tempos depois do ocorrido, Nayara foi recrutada pela Rede Record e assumiu um papel de destaque como coadjuvante  na novela A Escrava Mãe.

Trazendo a problemática para outro tom, as mulheres negras de pele mais clara ocupam mais espaço na mídia, de fato. O espaço de mulher desejada, mas apenas isso. Os corpos dessas mulheres são vistos como algo acessível, um corpo provocante, sexual e “da cor do pecado” – termo que até já foi usado de título de uma novela da Rede Globo. A visão da negra mulata vem dos tempos da escravidão onde essa palavra era direcionada a filhos resultados da mistura de pais brancos e negros e faz referência à mula, animal híbrido produto do cruzamento do cavalo com a jumenta.

Tal variação, que se deu a partir de estupro das escravas negras pelos senhores de engenho, surgiu com o estigma de sexualização e violência que ainda é perpetuada e exaltada principalmente no carnaval pela grande mídia brasileira. Um exemplo disso é a figura já citada da Globeleza, mulher negra que samba nua para louvar a cultura de miscigenação que surgiu da violência contra as mulheres de sua etnia.

Cedendo às diversas críticas sobre a hipersexualização da mulher negra nessa vinheta carnavalesca, a Rede Globo a repaginou e, desde o ano de 2017, mostrou a personagem vestida. A emissora foi aplaudida mesmo fazendo o mínimo que poderiam, visto que perpetuam essa sexualização desde 1990, ano em que a vinheta teve início. Isso não isenta a emissora ou a transforma em não racista, tendo em mente que a tal vinheta nunca deveria ter existido.

De acordo com o livro Salvação: pessoas negras e amor, de Bell Hooks, “Um foco excessivo em imagens ‘realistas’ levou os meios de comunicação a identificar a experiência negra apenas com aquilo que é mais violentamente depravado, empobrecido e brutal. No entanto, essas imagens são apenas um aspecto da vida negra. Mesmo que constituam a norma em bairros subclassificados, eles não representam a verdadeira realidade da experiência negra, que é complexa, multidimensional e diversa”.

É preciso romper com esse lugar de aprisionamento que os veículos de comunicação colocam diariamente o povo negro. Pois, como diz a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, em seu livro Quem tem medo do feminismo negro? “não podemos mais aceitar que a mídia nos reduza a essas possibilidades”. A vivência e sobrevivência negra é algo que deve e é celebrado todos os dias na pele de quem, apesar das diversas formas de racismo, ocupa espaços que transpõem o pensamento supremacista e aclamam a cultura negra. É transgressor.

À Moda antiga

Como Marocas, personagem de O Tempo Não Para, é usada como ferramenta contra o machismo

Por Ingrid Ferrari

Não é novidade que o mundo é cheio de valores machistas enraizados na sociedade. As mulheres se habituaram a receber vários comentários que, de alguma forma, menosprezam-nas, mas elas são capazes de argumentar contra seus emissores. A personagem principal da novela transmitida às 19h na Rede Globo, O Tempo Não Para, é utilizada como instrumento de educação sutil contra práticas machistas veladas.

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Dois mil novecentos e oitenta e quatro

Crise de desinformação e seus perigos para a sociedade

Por Ana Laura Pinheiro

Em 1949, o escritor inglês George Orwell publicou o romance 1984. O livro retrata uma sociedade onde a democracia já não tem vez e o totalitarismo é mantido por um único partido que estrutura os seus governos em quatro ministérios. Um deles é o Ministério da Verdade, responsável pela falsificação de documentos e de notícias que circulam no universo do livro. Na  sociedade da obra literária, existe uma metáfora às classes mais baixas: os proletas, cuja participação política é inexistente, uma vez que eles não são capazes de pensar criticamente.

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