De graça, até injeção na testa

Como a cultura brasileira, as campanhas de imunização e a mídia influenciam na alta adesão à vacina

Por Alice Bela e Heloíse Gonçalves

Em 21 de setembro de 2021, o Brasil alcançou a marca de 90% da população adulta vacinada com pelo menos a 1º dose, o que corresponde a 68% da população total, ultrapassando os Estados Unidos, que estagnou e vem adotando a estratégia de dar recompensas (inclusive financeiras) para incentivar a população a se imunizar. Contrariando a influência do Presidente da República, o Brasil apresenta uma das menores taxas de rejeição à imunização, segundo estudo publicado na revista Nature. Desde o lançamento das vacinas, a procura e a adesão têm sido massivas, e o maior obstáculo é justamente a incompetência governamental, que fez campanhas contra a imunização, atrasou doses e ignorou medidas básicas de proteção

Diante desse cenário, fica o questionamento: por que, apesar de tudo, o movimento antivacina não “pegou” no Brasil? A resposta pode estar associada ao histórico positivo do país no incentivo à imunização. 

Início de um sonho

Tudo começou com a Campanha de Erradicação da Varíola (CEV), em 1966, que de fato cumpriu seu objetivo: o Brasil se viu livre dessa doença em alguns anos. Com a mobilização de recursos nas instâncias da federação, de estados e de municípios, além do recrutamento de milhares de funcionários e da criação de “Dias Nacionais de Vacinação”, foi possível colocar tal plano em prática. Ficou marcado o início da história das campanhas de vacinação no país – experiência que muito em breve seria útil para promover a próxima campanha: a da poliomielite.

Quando a pólio teve sua vacina desenvolvida, houve a criação da “Campanha nacional de vacinação oral contra a poliomielite no Brasil”, bastante anunciada na mídia, o que  movimentou a procura das vacinas pelos pais das crianças que tomariam a gotinha. O número de casos, que antes estava em 1290, passou para 122 depois da segunda etapa da vacinação, e no ano seguinte registrou a marca de 45 casos confirmados, o menor número até então. 

O sucesso dessas campanhas se deu por conta da articulação entre os órgãos públicos, da elaboração de estratégias eficazes para a aplicação das vacinas e também pela grande cobertura midiática, que foi capaz de cristalizar na mentalidade da população o reconhecimento da importância da imunização para garantir a saúde.

Mas não foi sempre assim

A reurbanização da cidade do Rio de Janeiro, que aconteceu de 1902 a 1906, tinha como propósito torná-la parecida com cidades europeias – especialmente Paris –, e foi promovida uma transformação que se passou tanto no visual da capital fluminense quanto no combate às doenças que se alastravam no período. 

Uma das etapas da campanha de saneamento era a vacinação em massa, que foi realizada com autoritarismo, onde casas eram invadidas e vasculhadas sem nenhum esclarecimento sobre a vacina de fato. A população, boa parte já revoltada porque foi desalojada do centro da cidade e teve que se acomodar nos morros, diante de todo esse contexto de opressão, resistiu duramente e protestou contra. Tal evento histórico ficou conhecido como a “Revolta da Vacina”.

 Esse é um exemplo claro de como o descaso dos governantes, a tirania e a falta de comunicação devida comprometem a saúde pública. O Estado precisava lidar com todos de forma responsável e humana, inspirar confiança e deixar que as pessoas fossem parte da construção de uma sociedade consciente a respeito da saúde coletiva, uma mudança completa de mentalidade. A vacina deveria, antes de mais nada, ser algo desejável, não uma imposição. Para isso, houve uma mudança na postura do Estado e foram adotadas diversas medidas de incentivo governamental e midiático e a criação do Programa Nacional de Imunização (PNI), formulado em 1973, impactando na adesão por parte da população.

Deu tudo certo

Desde a reformulação da política de vacinação, o Brasil conta com diversos incentivos, desde a ampla cobertura e distribuição que só é possível devido ao Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo que existam vacinas de graça por todo o país, até a valorização através das mídias e campanhas que contam com a presença de famosos e figuras públicas.

Um marco importante para a reformulação da política de imunização foi a criação de uma personalidade que é, hoje, não só largamente conhecida como também adorada pelos brasileiros, o Zé Gotinha. Criado em 1956 como estratégia do PNI, tinha como papel ajudar na vacinação infantil diminuindo o medo e a resistência, pois foi apresentado para as crianças (e para os pais) como uma figura amigável. Em pouco tempo, ele já havia virado mascote de várias outras campanhas.

Assim como o Zé Gotinha, outras figuras ganharam popularidade e relevância no cenário nacional e também usam sua influência para reforçar a necessidade da vacinação, como o divulgador científico, Átila Iamarino e o médico Drauzio Varella. Mas o que isso tem a ver com o avanço da vacinação?

A credibilidade é um fator de extrema eficácia quando tratamos de campanhas que buscam conversar com a população, seja porque essas pessoas são vistas como especialistas ou simplesmente por despertarem vínculos afetivos. É através dessa conexão que é possível alcançar atenção e persuadir uma grande parcela de pessoas a tomar a vacina. Esses famosos também usam sua influência e popularidade para difundir informação de uma forma mais acessível, inclusiva e orgânica, como as celebridades que comemoram a imunização postando fotos nas redes sociais se vacinando, por exemplo. Além disso, ao se apropriar de uma linguagem tipicamente brasileira compreendida pela cultura popular, MC Fiote lançou um remix com letra adaptada de sua música Bum Bum Tam Tam, homenageando o Instituto Butantan, onde ocorre a produção da CoronaVac no Brasil.

Utilizar memes como ferramenta de comunicação é uma estratégia que tem crescido nos últimos anos, isso se deve ao grande alcance que esse conteúdo pode atingir. Apesar de usado para espalhar fake news, é possível, por outro lado, ser usado para veicular informações de utilidade pública, educar, ou até expressar um pensamento comum. As próprias redes sociais permitem que qualquer pessoa crie e compartilhe conteúdos engraçados, com grande potencial de viralizar.

Seguindo esse caminho, diversas prefeituras e cidades também criaram seus próprios memes para convidar a população a se vacinar. A mídia tradicional também desempenha bem seu papel ao difundir informação combatendo notícias falsas e boatos, desmistificando a vacina e alertando o público sobre datas e locais de vacinação.

Emissoras também são responsáveis pelo assédio em realities

Ao optarem pelo lucro e por fazer vista grossa a casos de violência sexual, canais de televisão abrem mão de sua função social e banalizam situações traumáticas

Por Lucas Guaraldo

No dia 25 de setembro, o cantor Nego do Borel foi expulso da 13ª edição do reality A Fazenda. O artista é investigado por estupro de vunerável após, em mais de uma ocasião, assediar sexualmente outra participante do programa, a modelo Dayane Mello. O cantor já responde a um processo de assédio sexual, movido por sua ex-noiva.

Mesmo após a justa expulsão do músico, pessoas que acompanham o programa seguiram criticando a conduta da emissora Record, que convidou uma celebridade com histórico de denúncias de assédio para um confinamento em que isso poderia ser um risco para outros participantes. Além disso, após o ocorrido, a Record publicou nota em suas redes sociais afirmando que analisava as imagens e convidava os telespectadores para acompanhar o desfecho, que seria anunciado no episódio daquele dia, ao vivo.

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O jornalismo entre o lucro e sua responsabilidade social

O documentário O Mercado de Notícias, de 2014, questiona e analisa o papel da imprensa na sociedade

Por Marina Dalton

O Mercado de Notícias é um documentário de 2014, dirigido por Jorge Furtado, que reflete sobre o papel da imprensa na democracia e na formação da sociedade contemporânea. O jornalismo, desde seu surgimento, possui grande influência sobre a opinião pública e, ao longo do tempo, sua responsabilidade foi ganhando maior atenção.

O filme intercala entrevistas com 13 jornalistas brasileiros e cenas da peça de teatro The Staple of News, escrita pelo inglês Ben Jonson, em 1625. Ainda no século XVII, o autor contemporâneo de Shakespeare trouxe críticas bem humoradas sobre os interesses por trás do jornalismo, as dúvidas sobre a qualidade da informação e o desejo voraz do povo de consumir mais e mais notícias.

Na peça, o jovem Pila fica sabendo da morte de seu pai através de um mendigo pouco antes de completar a maioridade. Naqueles dias, surge na cidade um novo negócio: o mercado de notícias. Pila resolve gastar suas riquezas com esse novo mercado e se interessa em conhecer as funções dos repórteres e escrivães. Ao mesmo tempo, o jovem tenta ainda conquistar a princesa Pecúnia, uma mulher linda e muito cobiçada por todos. Durante a peça, os atos são assistidos e comentados por quatro senhoras que aparecem logo no início: Tagarela, Prazeres, Censura e Expectativa.

Da esquerda para a direita, Tagarela, Prazeres, Expectativa e Censura com o diretor Jorge Furtado

De forma bem humorada, Ben Jonson critica a ganância do ser humano ao colocar a princesa Pecúnia como desejada. Pecúnia é sinônimo de dinheiro e, na gravação de Jorge Furtado, é a única personagem que usa roupas douradas e brilhantes. O próprio dono do mercado de notícias parece querer agradá-la sempre que possível.

Ao centro, Pecúnia, interpretada por Elisa Volpatto.

Há uma reflexão sobre interesses. Ao apresentar os funcionários da agência ao jovem Pila, o dono diz que entre as atribuições dos escrivães está a de inventar notícias quando for conveniente. O próprio protagonista se vê inebriado com o novo mercado e toma decisões por querer fazer algo “digno de virar notícia”. 

As cenas da peça são quase todas muito bem colocadas entre as entrevistas dos jornalistas e levam o espectador a pensar sobre o quanto as críticas de Ben Jonson continuam atuais. O jornalismo é muito mais do que contar histórias. É um formador de opinião pública, um poder político e, antes de ser um negócio, deveria ser um defensor da sociedade.

O pesquisador e professor da Universidade de Brasília, Fernando de Oliveira Paulino, aborda a Teoria de Responsabilidade Social da Imprensa (TRSI) em um artigo sobre ética, responsabilidade e qualidade do Jornalismo. Trata-se de uma das quatro teorias formuladas por Siebert, Schramm e Peterson no estudo Four Theories of the Press, e fala dos deveres que a mídia tem para com a sociedade. São eles: verdade, precisão, objetividade e equilíbrio – em tradução livre. A noção dessa responsabilidade não pode ser abalada pela busca incansável pelo dinheiro. A TRSI, segundo Paulino, propõe “entender os veículos de comunicação como entidades que têm como objetivo salvaguardar direitos dos cidadãos”. Para isso, é preciso que a imprensa dê espaço a uma pluralidade de vozes, busque divulgar a verdade factual e ofereça à população meios de cumprir seu direito de acesso à informação.

Hoje em dia, com as novas tecnologias, o papel da mídia se transformou, mas seu compromisso deve permanecer o mesmo. Antes, o jornalista exercia o papel de gatekeeper, de porteiro, e decidia o que o público ficaria sabendo ou não. Como ilustra a peça The Staple of News, o povo tinha sede de ir até o mercado comprar notícias para ficar informado e ter assuntos para conversar. Agora, todo tipo de informação está disponível na internet. Pode-se dizer que o papel da imprensa passou a ser mais de curadoria e a credibilidade ganhou um valor ainda maior.

Se a prensa de Gutemberg representou uma revolução no século XV, a internet nos faz viver uma revolução em tempo real. No mundo virtual, somos bombardeados com um mar de informações a cada instante e, infelizmente, muitas delas são fake news. As redes sociais, em especial, parecem ser o terreno mais fértil para inverdades e, consequentemente, o que mais precisa do jornalismo enquanto instituição democrática a serviço da sociedade.

Sim, é verdade que toda comunicação possui interesse. Nenhuma informação é compartilhada sem que as duas partes, emissor e receptor, tenham interesse por trás do conteúdo da mensagem. Não é diferente com o jornalismo: trata-se, no fundo, de um negócio que precisa se autossustentar. Para isso, a imprensa cresce em credibilidade e conquista seu público, a fim de criar meios interessantes à veiculação de publicidade e gerar lucro.

Entretanto, não deixa de ser necessário que esse “mercado de notícias” tenha noção de seu papel social e se responsabilize sobre ele. A transparência e a prestação de contas parecem ser os meios mais sensatos de mostrar tal consciência.

Mulheres afegãs e a representação na mídia ocidental

Com o domínio do Talibã no Afeganistão, veículos da imprensa ocidental revivem discurso sobre mulheres afegãs, colocando vestimentas tradicionais e religiosas como símbolo inegável de opressão

Por Fernanda Fonseca

A organização fundamentalista Talibã tomou, no dia 15 de agosto, a capital do Afeganistão, Cabul, após uma semana inteira de avanços em direção à cidade. Até o dia anterior, o grupo vinha conquistando províncias nos arredores da capital e, na manhã do dia 15, a conquista de Cabul se consolidou após o presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, deixar o país.

Com o desenrolar do domínio do Talibã no Afeganistão, os meios de comunicação reviveram o discurso que coloca as mulheres afegãs como impotentes e inerentemente oprimidas. Mas, além das questões geopolíticas e da série de direitos basilares em risco, a narrativa proposta pela mídia ocidental se ancorou principalmente nas vestimentas de mulheres afegãs, e mais especificamente as islâmicas, para ilustrar a opressão do fundamentalismo religioso. Ao trazê-las para os holofotes, os veículos da mídia ocidental instrumentalizam a opressão do Talibã contra as afegãs para tirar conclusões precipitadas sobre o islamismo e sobre a vivência dessas mulheres.

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Negligenciados pela grande mídia, o real valor-notícia dos povos indígenas

Lutando pela vida contra o marco temporal, mais de 6 mil indígenas de 176 etnias diferentes fogem do interesse nas coberturas dos grandes veículos

Por Amanda Meneses e Malu Sousa

Em primeiro de setembro, começou a ser julgado o “marco temporal” no Supremo Tribunal Federal (STF). A tese defende que indígenas só podem reivindicar terras ocupadas por eles antes da promulgação da Constituição Federal de 1988. O julgamento levou para a Esplanada dos Ministérios, entre os dias 22 e 28 de agosto, mais 6 mil indígenas de 176 etnias diferentes contrários à essa ideia. Entretanto, a maior concentração indígena dos últimos 30 anos vem sendo negligenciada nas coberturas dos veículos tradicionais de comunicação.

Para além do caráter de protesto, o acampamento refletiu a união dos 176 povos por oito dias e isso possibilitou uma intensa troca de vivências. Entre a programação política, com plenárias e manifestações, a valorização da diversidade de culturas não ficou de lado: ritos espirituais de diferentes povos e noites culturais (com direito a música e dança) também fizeram parte da agenda.

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Por que a estética de Bolsonaro é (intencionalmente) tosca?

Em tempos de difusão maciça de conteúdo pelas mídias, comunicação visual se destaca como ferramenta estratégica e nenhuma escolha é arbitrária no campo político

Por Heloíse Gonçalves

É inegável que, no século XXI, praticamente toda a população foi alfabetizada visualmente. Estamos cercados de telas e crescemos acompanhando a emergência de novos tipos de mídia. Estética, design e arte são componentes cotidianos, e, assim como as palavras, eles comunicam. Muitas vezes, de maneira bastante sutil. Por esse motivo, a utilização de recursos visuais tem sido uma excelente tática para que candidatos se aproximem dos cidadãos e aumentem sua popularidade. Segundo a cultura e o tempo vigentes, é possível fazer escolhas de imagem que sejam estrategicamente agradáveis, apelativas e persuasivas aos eleitores. A intenção de Bolsonaro foi seguir esses critérios, menos o de ser “agradável”. Por quê?

A trajetória visual das campanhas políticas

Antes de qualquer coisa, é preciso relembrar como as mudanças nos anseios do eleitorado impactaram as decisões de imagem dos candidatos ao longo dos anos. Partindo das eleições presidenciais de 1989, a primeira após a promulgação da Constituição Federal de 1988, e com o fim ainda recente de uma ditadura militar, o brasileiro buscava no presidente uma imagem que despertasse confiança e segurança. Por isso, houve um padrão estético muito claro seguido pelos candidatos: uma foto carismática, paleta de cores segundo a bandeira nacional, frases prometendo mudança e inovação, discurso polido. Em dissonância, havia um candidato que se apresentava de forma não tradicional, usando roupas populares, com a barba por fazer, tinha um discurso inflamado, e destacava a cor vermelha.

Como sabemos, Collor derrotou Lula nessas eleições. Porém mais tarde, em 2002, após uma sucessão de desilusões políticas, o eleitor se viu frustrado diante da figura engomada tradicional e seguiu em busca de uma personalidade que representasse transformação. Somado a isso, Lula se adaptou deixando a imagem mais “palatável”, adotou o verde e amarelo, sem excluir o vermelho, e lapidou sua aparência. A carga simbólica de ter um passado humilde como operário e se apresentar como defensor dos trabalhadores, somado à imagem renovada, garantiu a vitória de Lula naquele ano.

O Partido dos Trabalhadores se manteve no poder por 14 anos, e poderia ter chegado a 16 não fosse o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Depois de um período de muita turbulência política, a imagem do PT se desgastou e, como esperado, o eleitor foi atrás de outra figura que rompesse de novo com o padrão anterior. Surgiu, então, a demanda por um novo estilo de comunicação. Mas o que seria dessa vez se o polido e o engajado estavam sendo rejeitados?

É aí que entra, finalmente, a brecha para a popularização da estética “feia” de Bolsonaro. 

O amadorismo como estratégia de persuasão

É impossível ignorar o fato de que a campanha política de Bolsonaro ocorreu, sobretudo, nas redes sociais. No 2018 pré-eleição, houve um bombardeamento de imagens no Facebook e Whatsapp que pecaram na qualidade, ignorando técnicas fundamentais do design. Foi uma mistura de imagens pixeladas com fontes desproporcionais e montagens mal recortadas, além do uso de ícones estereotipados remetendo principalmente a patriotismo, militarismo e heroísmo. Esse tipo de imagem continua forte e circula pelos grupos de apoiadores até hoje.

Apelando para um discurso sentimentalista em detrimento do racional, Bolsonaro ganhou eleitores não por demonstrar competência, qualificação ou boa argumentação. Durante a campanha, não participou dos debates com outros candidatos, não desenvolveu seu plano de governo e parte significativa das notícias compartilhadas por sua equipe eram (e são) falsas. O convencimento aconteceu porque sua comunicação visual expressou de forma clara seus ideais, que apesar de totalmente conservadores, foram apresentados de uma forma nunca antes vista.

Por que o Kitsch?

Kitsch é uma expressão estética definida pelo exagero, apelo dramático e sensacionalismo, além do largo emprego de clichês, jargões e elementos cafonas. Faz, também, o uso de ícones óbvios, que estão presentes no nosso repertório visual e por isso não geram ruídos de comunicação. Bolsonaro se apropriou dessa identidade justamente porque ela não deixa dúvidas sobre a mensagem que quer transmitir — uma montagem que tem a cabeça dele e de seus apoiadores no corpo dos heróis da Liga da Justiça não abre margem para interpretações, eles querem ser retratados exatamente assim, como heróis.

É um estilo com intenção de ser bastante popular e acessível, como uma atualização do sanduíche de mortadela de Jânio Quadros ou um correspondente ao famoso comer pastel na feira, ritual praticado por diversos candidatos durante campanha eleitoral. Bolsonaro continua seguindo na mesma linha depois de eleito, promovendo a aproximação com os apoiadores ao reformular logos para uma versão mais simplista (como a do Ministério do Turismo, abaixo) e simulando amadorismo com suas lives no Facebook.

Além disso, o presidente sempre deixou claro seu desprezo pela arte e pela comunicação (apesar de esta gerar uma enorme despesa no seu governo), alegando ser um gasto público desnecessário. Seus apoiadores estão de acordo com as decisões de dificultar ou extinguir políticas públicas de incentivo à cultura, perseguição e censura a artistas, e até, contraditoriamente, a custear a troca das cadeiras vermelhas do Planalto por cadeiras azuis. As escolhas estéticas não são somente estéticas: elas carregam um grande peso ideológico.

VESTIDAS PARA CONFRONTAR

Roupas demarcam identidades e momento histórico, político e cultural vivido; para mulheres, ainda são motivo de discursos sexistas

Por Letícia Mouhamad

Neste último mês, a seleção feminina de handebol da Noruega foi punida por usar shorts, em vez de biquíni, no Campeonato Europeu de Handebol de Praia. Segundo a Federação Europeia de Handebol (EHF, na sigla em inglês), a roupa seria “imprópria” e iria contra o regulamento da prática esportiva. 

Esse fato retomou a discussão acerca da enorme diferença – de tamanho – entre os uniformes masculinos e femininos, que parecem cumprir objetivos distintos perante os órgãos responsáveis, o público e a mídia. Inúmeros jornais veicularam a notícia. A BBC News, por exemplo, destacou o quanto o sexismo se reflete nas roupas das atletas. 

Conforme é relatado pelas próprias esportistas, o biquíni é um traje pouco prático e que as hiperssexualizam, situação que não ocorre com os competidores masculinos, por exemplo. A punição levanta vários questionamentos a respeito da flexibilização no uso dos uniformes. Por que seria uma atitude negativa reformular os trajes para que eles sejam mais confortáveis para as atletas?

As roupas, das mais casuais às institucionalizadas, estabeleceram papéis sociais ao longo dos anos que ditam o que é apropriado e aceitável, não para qualquer pessoa, mas especificamente para as mulheres. Como pode ser um instrumento de controle dos corpos femininos, o vestuário considerado adequado, normalmente, é aquele condicionado à opinião e ao olhar masculino.  

Por isso, não é interessante para os dirigentes da EHF, em grande parte homens, que as atletas modifiquem seus uniformes, já que, mais do que a partida, seus corpos também são motivo de atenção do público e da mídia.

“A questão não é o short. A questão é que mesmo em 2021 as mulheres ainda têm que ouvir o que podem ou não podem vestir, porque seus corpos ainda são vistos como objeto para o proveito dos homens, algo sobre o que se tem direito de comentar, de exigir e de decidir”

Tova Leigh, criadora de conteúdo digital em entrevista à BBC

No século 19, os espartilhos, que poderiam trazer inúmeros problemas à saúde, eram símbolo de virtude e o seu uso propagava a ideia da mulher como um ser frágil 

Não é preciso ir longe para encontrar um exemplo semelhante no Brasil. Em 2016, estudantes do tradicional Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, organizaram uma manifestação onde tanto meninas quanto meninos utilizavam saias. O  “saiato”, nome pelo qual o movimento ficou conhecido, seria uma resposta às ofensas e assédios que as alunas teriam sofrido por estudantes de outra instituição que fizeram comentários machistas sobre o comprimento das roupas das garotas. 

O objetivo, então, seria acabar com a obrigatoriedade das saias para meninas e, caso os garotos também quisessem usar, poderiam. Deu certo. A manifestação resultou na eliminação da obrigação do uso do uniforme escolar por gênero, ou seja, não há mais distinção entre uniformes masculinos e femininos e os estudantes podem optar por usar calças ou saias. 

O objetivo da decisão do Colégio Pedro II foi manter a identidade e igualdade entre os alunos

Roupas não se tratam apenas de questões estéticas, elas vão além e é de extrema importância levantar esse questionamento. Segundo o site História da Moda, feministas do século 19 que ousavam usar roupas mais práticas e leves, como a calça, eram ofendidas e chegavam a ser agredidas nas ruas. Foi esse traje, inclusive, que demarcou, no século seguinte, a inserção das mulheres em profissões antes exercidas sobretudo por homens, além de permitir que elas tivessem maior mobilidade ao praticar esportes, como o ciclismo. Com a evolução da indústria e o aumento das demandas de inúmeros grupos sociais,  recentemente, a moda plus size, por exemplo, tem ganhado espaço, contrariando padrões de beleza e prezando pela autoestima das mulheres.

Nessas situações, a mídia tem o papel de escolher o que abordar e de que forma. No caso ocorrido na Olimpíada, as imagens retratadas sobre as esportistas são importantes: o que a fotografia vai mostrar? Aspectos do jogo ou do corpo das mulheres e o que elas vestem? Qual ângulo será utilizado? Já com relação ao texto, é relevante pensar no que veicular acerca dos acontecimentos: a notícia diz mais sobre o fato ou sobre as pessoas? Ao destacar personalidades, falar de aspectos estéticos ou físicos é interessante, se eles não tiverem relação com a pauta? Todos esses questionamentos devem ser feitos pela mídia, em especial, pela imprensa, já que ela possui grande influência na opinião pública.

Equipe da marca Lela Brandão Co., focada na produção de roupas confortáveis, com a logo da empresa ao fundo


O que vestimos possui um significado – político, social e cultural – e diz muito mais sobre a nossa personalidade do que imaginamos. Então, se durante muito tempo, o vestuário foi instrumento de repressão e até mesmo de violência de gênero, ele também pode contribuir para um processo de emancipação e resistência, como algumas marcas já têm proposto, ao sugerirem o uso consciente das roupas e prezando pelo conforto. Curta, longa, larga, apertada, do estilo que for… o importante é sentir-se bem. Afinal, “uma mulher confortável em si é uma revolução”.

O mito da beleza na era das redes sociais

Após Brasil ser líder pelo segundo ano consecutivo no ranking mundial de procedimentos estéticos, como as mídias digitais transformaram os brasileiros em marionetes de plásticas?

Por Vitória Marcondes

Pelo segundo ano consecutivo, de acordo com os dados divulgados pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), o Brasil é o país líder no ranking mundial na realização de cirurgias plásticas. Em 2018, foram registradas mais de 1 milhão 498 mil operações no país, além de mais de 969 mil procedimentos estéticos não-cirúrgicos. Em 2021, cresceu em mais de 140% o número de cirurgias realizadas em jovens de 13 a 18 anos, uma situação alarmante tendo em vista que a maioria ainda nem passou por todo o processo de amadurecimento fisiológico e hormonal. Diversos especialistas debatem a respeito das causas para o aumento exponencial da procura, contudo, grande parte aponta o fenômeno das redes sociais como um dos fatores principais.

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Afinal, por que levantar a bandeira da diversidade no futebol é tão importante?

Clubes brasileiros se posicionam contra o preconceito e promovem ações no mês do orgulho LBGTQIAP+

Por Marcela Alvim

No dia 27 de junho de 2021, o Vasco da Gama se tornou o primeiro time brasileiro a entrar em campo com uma camisa feita em homenagem à causa LBGTQIAP+. O uniforme especial fez muito sucesso e  teve seu estoque de vendas zerado em menos de uma hora após o lançamento. Ainda no Rio de Janeiro, outros times fizeram alterações em seus uniformes. Flamengo e Fluminense, por exemplo, jogaram com numerações coloridas. Essas ações viralizaram nas redes sociais e chamaram a atenção da imprensa mundial.

O futebol ainda é um ambiente homofóbico vide o que aconteceu com Gil do Vigor após visita à Ilha do Retiro, casa do Sport Club do Recife, time ao qual o economista dedica a sua torcida. Gilberto José Nogueira Júnior, mais conhecido como Gil do Vigor, ganhou notoriedade ao participar da vigésima primeira edição do Big Brother Brasil, da qual foi o décimo sexto e último eliminado. Em um vídeo divulgado em suas redes sociais, o ex BBB aparece dançando “tchaqui, tchaqui, tcha” no gramado do estádio. Contudo, um dos dirigentes do clube não gostou da visita, oferecida de presente pelo próprio Sport, e enviou um áudio com teor homofóbico a outros membros da equipe.

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O Brasil tem fome

Em meio à pandemia do coronavírus, os preços dos alimentos vêm subindo rapidamente. Nesse momento de crise, parte da imprensa tem evitado tratar da grave crise humanitária afetando a maioria da população, optando por desculpas e eufemismos

Por Lucas Guaraldo

    O Brasil passa por um dos seus piores momentos na história. Além dos quase 400 mil mortos pela covid-19, o preço dos alimentos tem subido vertiginosamente. Em 2020, trabalhadores que recebiam até um salário mínimo gastavam mais da metade de seu dinheiro apenas para conseguir se alimentar. Somado à alta do custo de alimentação, o desemprego no primeiro trimestre de 2021 chegou à marca recorde de 14,3%, fazendo com que mais 116 milhões de brasileiros não tenham comida suficiente ou passem fome. 

Apesar do número de brasileiros famintos ter quase dobrado desde 2018, quando IBGE registrou 10 milhões de pessoas nessa condição, a cobertura midiática da crise tem sido tímida, ou até mesmo omissa, em muitos casos. Conforme os valores subiam, cresciam também os números de matérias recomendando a substituição de alimentos e dicas de cortes de gastos. No fim de setembro, a Folha de S. Paulo e o G1 repercutiram uma matéria da BBC News que ensinava a população a comer alimentos mofados com segurança.

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