Eu não queria ser feminista

Por Roberta Pissutti

Eu não queria ser feminista, porque eu queria poder andar na rua sem ouvir um assobio, ou um “Ô, lá em casa!” ou uma cantada.

Eu não queria ser feminista, porque eu não queria ter que reclamar desse assédio verbal e ouvir gente falando que é exagero, que “isso não é assédio, não”, ou, pior ainda, que eu deveria agradecer, pois as gordas e as feias não recebem esse “tratamento especial”. E eu não queria que mulheres no mundo todo rejeitassem o próprio corpo por não se encaixarem nesse padrão estético que nos é imposto, o que não quer dizer que elas não sofram o mesmo tanto, ou até mais, assédio que qualquer outra mulher.

Eu não queria ser feminista, porque eu não queria ter que me preocupar com todo homem por quem eu passo na rua, na escola, faculdade ou no trabalho, independente do meu corpo ou do meu rosto, com medo dele tentar me fazer alguma coisa.

Eu não queria ser feminista, porque eu não queria ter que me defender do julgamento alheio quando resolvo usar um short na rua e nem ter que ouvir que a menina que foi abusada merecia, afinal, “aquela saia que ela estava usando era curta demais”.

Eu não queria ser feminista, porque eu não queria ter menos oportunidades pelo simples fato de ser mulher. E isso inclui salários menores pelo mesmo serviço oferecido, menos oportunidades de emprego, menos credibilidade ao falar em publico…

Eu não queria ser feminista, porque eu não queria precisar ter um homem comigo para ser tratada com respeito pelos outros homens.

Eu não queria ser feminista, porque eu não queria me sentir um pedaço de carne quando alguns homens olham pra mim e ai de mim se reclamar, porque, afinal, “olhar não é proibido”.

Eu não queria ser feminista, porque eu não queria chorar por meninas da minha idade que estão mortas, traumatizadas e para sempre marcadas porque um cara achou que tinha algum direito sobre o corpo delas.

Eu não queria ser feminista, porque eu queria não sentir medo de andar sozinha.

Eu não queria ser feminista, porque não queria ter que me preocupar de me relacionar com um cara que possa me agredir fisicamente ou verbalmente quando eu fizer ou disser algo que não o agradar.

Eu não queria ser feminista, porque eu não queria ouvir uma juíza me perguntando se eu tentei “fechar as pernas”, quando estivesse denunciando um estupro. Eu não queria nem precisar denunciar um estupro.

Eu não queria ser feminista, porque, se eu não fosse, todos esses problemas não existiriam e eu não seria feminista por já ter conquistado a igualdade e o respeito pelos quais eu luto. E eu sinto muito se o fato de eu ser feminista te ofendeu, mas eu sou feminista, porque, ofendendo ou não, eu vou defender os meus direitos como mulher.

E é como mulher que eu escrevo esse texto e digo: eu não queria ter que ser feminista.

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