Arte da manchete

Por Jackeline Spies

Chamada, no sentido jornalístico, é um dos vários nomes que se usa para título ou manchete. Quando colocado no sentido de ligação telefônica, como foi feito no subtítulo desse texto, vira um trocadilho que remete ao fato de que as pessoas não clicam na matéria para ler. Noutras palavras, a ligação cai.

Se você ainda está lendo esse texto, não faz parte da alta quantidade de pessoas que compartilham sem ler a matéria — baseando-se apenas na chamada. De acordo com estudo conduzido por cientistas da computação da Universidade de Columbia e do Instituto Nacional Francês, 59% dos links compartilhados em mídias sociais nunca são clicados.

De acordo com a última atualização de status do Facebook, por exemplo, só nessa rede três milhões de links são compartilhados todos os dias. Isso acaba gerando uma problemática em relação à informação que é disseminada — a qual pode se tornar não apenas incompleta, mas mal interpretada.

Como a notícia que saiu na revista Veja, por exemplo, com a seguinte chamada: “Lula abandonou missa após ser chamado de ‘bandido’ por padre?”. A matéria era sobre uma notícia falsa que havia sido publicada em outro veículo, dizendo que o ex-presidente tinha sido expulso da igreja — mas quem não clicasse para ler tudo, poderia achar que era uma notícia real. Até porque há o fato de o leitor muitas vezes passar o olho rapidamente na hora de ler o título, podendo ignorar a interrogação presente ali, mostrando que tratava-se de uma confirmação ou negação do ocorrido.

Diante disso, é possível observar que, além de informações incompletas, pode-se abrir espaço para espalhar notícias falsas (as conhecidas fake news). Há pessoas, inclusive, que compartilham notícias do site de humor Sensacionalista como reportagens sérias simplesmente pelo fato de não clicarem para notar o tom de ironia que admitem ter na página inicial , como mostra uma reportagem especial do Globo.

Há um caso famoso nessa questão de compartilhar sem ler o conteúdo. Foi uma espécie de pegadinha do site de notícias fictícias The Science Post para seus leitores. Em julho de 2016, o veículo publicou uma “matéria” que continha apenas um parágrafo sério, citando um suposto estudo que afirmava que 70% dos usuários do Facebook liam somente a manchete de reportagens científicas antes de comentá-las.

O restante da postagem contém apenas lorem ipsum, recurso em latim utilizado para preencher espaço de texto em publicações impressas e online para checar layout e formatação da página. Quarenta e seis mil pessoas compartilharam o post, algumas quase que imediatamente após a publicação, segundo a checagem do The Science Post, medido após algumas horas da postagem.

Isso mostra um dado um pouco alarmante, visto que informação é uma arma poderosa atualmente. Sabe-se que é difícil derrubar notícias falsas ou sem sentido depois que consegue um alcance absurdamente alto. Tudo porque um título chamou atenção, mas não o suficiente para o leitor clicar no texto.

Há também o oposto desse quadro, onde a manchete se sobrepõe à notícia. É um fenômeno que ocorre com certa frequência: o click bait. Em tradução para o português, “isca de cliques” ou “caça-clique”.

O termo se refere a conteúdos da internet destinados à geração de receita de publicidade online, normalmente às custas da qualidade e da precisão da informação, por meio de frases sensacionalistas e/ou imagens chamativas para atrair cliques e incentivar compartilhamento pelas redes sociais. Esse tipo de manchete costuma prover somente o necessário para deixar o leitor com curiosidade, mas não o suficiente para satisfazê-la sem clicar no link. 

Tudo isso gera — ou deveria gerar — reflexão de onde está o problema das chamadas hoje. Está nos sites, que usam de má fé para disseminar informação falsa ou no leitor que demonstra falta de senso crítico ao espalhar links sem ao menos abri-las primeiro, corroborando com a disseminação dessas “informações”? São fatores para analisar e estudar com mais clareza, para que esse quadro não gere mais um problema na enxurrada de informações que já é recebida diariamente.

É necessário compreender que manchete não é o fato completo. É como se fosse uma prévia, uma instigação para o espectador consumir a matéria inteira. Pode-se colocar que não é a musa da obra de arte, apenas o título do quadro, para introduzir o assunto.

Arte está em fazer todo o texto interligado à matéria, por isso, a importância do clique. Se não fosse para isso, poderíamos viver apenas de piscas (informações feitas apenas por frases, no jornalismo, para pessoas que já sabem de determinado assunto). Afinal a chamada sempre tem que ser completada pelo conteúdo. Se não há a propagação de muitos ruídos na comunicação – exatamente como um telefone sem fio.

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s