“Tá com dó? Leva pra casa!”

Por Gabriel Shinohara

*Publicado originalmente no Campus (11/09/15)

Em meio à gritos de “bandido bom é bandido morto” e um clima de intolerância contra os refugiados haitianos, o Brasil é um dos países americanos que mais acolheu nacionais sírios desde 2011. Foram 2077, quase dobrando os números de nações mediterrâneas, como a Grécia (1275) e a Itália (1005).

Talvez só mais um passo na história de um país que foi construído por meio de imigrantes, e que ultimamente tem visto alguns de seus habitantes virarem as costas para a própria descendência e entrarem de cabeça na exacerbação patriótica, com ações xenofóbicas e violentas contra pessoas que, se tivessem a opção, não estariam aqui.

No caso europeu a situação é inversa, não é a população que não quer receber os refugiados, são os próprios governos. Em meio a um “pega aqui, joga para lá”, a Europa vem há meses tentando resolver esse problema, mas poucos países aceitaram receber os refugiados.

Alemanha e Suécia foram os que mais abraçaram a causa, aceitando 65 e 39 mil pessoas, respectivamente. Enquanto isso o exército macedônio entrou em conflito físico com refugiados e só “permitiu” que eles cruzassem a fronteira após pressão de órgãos da União Europeia e da falha operação de fechamento do país.

Após a simbólica foto do garoto sírio morto nas praias da Turquia, a pressão da população europeia sobre seus governos aumentou exponencialmente e até o premiê britânico, David Cameron, que havia aumentado a segurança no Canal da Mancha para evitar que refugiados entrassem em seu país, aceitou abrir as fronteiras e anunciou uma ajuda humanitária de 100 milhões de libras para campos na Síria, Turquia, Jordânia e Líbano.

E não foi só por meio de pressão popular que os cidadãos europeus agiram. Dando um exemplo aos seus governos, 12 mil islandeses, país com um pouco de mais de 300 mil habitantes (metade da população de Ribeirão Preto, interior de São Paulo) se movimentaram para abrigar os refugiados por conta própria, após o governo anunciar que iria aceitar somente 50.

“Os refugiados são nossos futuros maridos e mulheres, melhores amigos ou almas gêmeas. Eles são os bateristas da banda dos nossos filhos, nosso futuro colega, a Miss Islândia 2022, o carpinteiro que finalmente vai terminar o banheiro, o atendente da cafeteria, o bombeiro, o gênio da informática ou o apresentador de televisão”, disse Bryndis Bjorgvinsdottir, a iniciadora do movimento, em uma carta aberta ao ministro do Bem Estar Social islandês, Eygló Harðar.

Será que é pedir demais para os brasileiros, defensores da ideia de que os imigrantes haitianos vieram “roubar os nossos empregos”, um pouco de compaixão e humanidade? Eles só estão aqui porque não tinham mais opções em seu país de origem; passar por uma viagem perigosa para entrar num país que você não conhece e nem sabe a língua não é a primeira opção deles, é a única.

Imagens: TodoDia e Wikimedia

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