O suicídio como valor-notícia

Por Malu Diniz

“Quais os acontecimentos considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para serem transformados em notícia?”, questionou o sociólogo Mauro Wolf em 1995 para encontrar o que são valores-notícia.

Desde então, diversos autores categorizaram e explicaram o que diferencia um fato comum de um noticiável. Apesar de pequenas divergências conceituais, é possível que a maioria dos autores colocassem alto valor-notícia para suicídio. Então, não foi à toa que a queda de um homem de 42 anos, do 19° andar do Congresso Nacional, em meio ao contexto político da Reforma da Previdência foi noticiada aos quatro ventos.

Jornais de circulação nacional e locais do Distrito Federal, além  de blogs de política, entraram na corrida típica de qual veículo conseguiria mais e mais rápido detalhes do acontecimento. O resultado foram matérias rasas e especulativas. Algumas até afirmavam que o homem havia tirado a própria vida por discordar da Reforma da Previdência.

No entanto, até onde o valor-notícia por si só deve ser o que pauta jornalistas? Qual é o serviço à sociedade que essa notícia carrega? Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), noticiar um caso desse é, na verdade, um desserviço.

Segundo o estudo publicado pela OMS, em 2000, “Prevenção do suicídio: um manual para profissionais de mídia”, desde 1774, quando foi publicado o romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe, é possível associar meios de comunicação de massa ao suicídio. Nesta história, o herói atira em si próprio após um amor mal sucedido. Logo após a publicação, foram registrados na Europa vários relatos de jovens que cometeram suicídio usando esse método. O fenômeno originou o termo “Efeito Werther”.

Outro caso famoso citado é o do livro Solução Final – Praticabilidade da Auto-eliminação (Final Exit), escrito por Derek Humphry. Depois da publicação, aumentaram casos de suicídios em Nova Iorque usando métodos nele descritos. A publicação e tradução, intitulada Suicide, mode d’emploi, na França, também elevou o número de casos naquele país. O estudo da OMS explica que histórias fictícias de alta circulação e casos de grande cobertura midiática, principalmente os que envolvem celebridades, têm relação direta com o aumento de casos de suicídio.

Outro fator preocupante desse tipo de cobertura é normalização de casos excepcionais. Segundo a pesquisa Prevenção do suicídio: um manual para profissionais de mídia, chama a atenção o fato de que os casos mostrados pela mídia são, quase que invariavelmente, atípicos ou incomuns. Então, mostrá-los como típicos perpetua ainda mais a desinformação sobre o suicídio.

A OMS explica, ainda, que o suicídio nunca é resultado de um evento ou fator único. A causa, normalmente, é uma interação complexa de vários fatores, como transtornos mentais, doenças físicas, abuso de substâncias, problemas familiares, conflitos interpessoais e situações de vida estressantes. Logo, noticiar suicídio, dificilmente, vai ser o único motivo de um novo caso, mas exageros e sensacionalismos, divulgação de técnica, local e fotografias explícitas podem ser o último dos fatores para alguém.

Sendo um caso de Efeito Werther ou não, seis dias após o suicídio no Congresso Nacional, outro caso pautou a mídia local do DF. Um homem, de 46 anos, saltou do terceiro andar do shopping Pátio Brasil, na Asa Sul. Menos de 5 km separam os dois episódios. O acontecimento no shopping, que já foi palco de diversos outros, com certeza, também se encaixa nas categorias de valor notícia descritas por Mauro Wolf.

Acesse aqui: Prevenção do suicídio: um manual para profissionais de mídia.

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