O VERBO LUTAR NÃO É MAIS UMA ESCOLHA

Por Beatris de Deus

Veículos de comunicação fazem uso de seu poder para deturpar os ideais de Marielle Franco.

A população negra não é uma minoria quantitativa no nosso país, mas ainda é tratada por parte da sociedade brasileira como se fosse. Atualmente, escondendo-se atrás de números, há quem diga que a violência está diminuindo. Todavia, faz-se necessário ressaltar que esses dados não condizem, nem de longe, com a realidade nas periferias de todo o Brasil.

Jovens negros são mortos simplesmente por andarem na rua e presos por portarem uma embalagem de desinfetante, crianças em situação de risco têm de ir à escola, mas os representantes do Estado esquecem que ninguém aprende com fome.

As autoridades, que deveriam proteger os cidadãos, em muitos casos utilizam força e autoridade de formas abusivas, para oprimir moradores de favelas. Insistem em dizer que todos têm a mesma oportunidade, mas como acreditar nisso se a própria pátria ignora os filhos deste solo?

Marielle Franco, vereadora do PSOL, moradora da favela da Maré-RJ, mulher negra, que lutava pelos direitos humanos e denunciava os abusos sofridos pelos moradores das favelas na intervenção militar do Rio de Janeiro, conheceu bem esse outro Brasil. O Brasil que é ignorado por quem está no poder, que é vítima dos mandos e desmandos de quem se acha mais forte.

A ativista foi mais uma dentre as inúmeras pessoas que foram silenciadas por defenderem os direitos humanos. O assassinato da vereadora e de seu motorista, Anderson Pedro Gomes, ainda está sendo investigado. Os responsáveis pela elucidação do caso enfatizam que ainda não se sabe as verdadeiras motivações do crime.

A morte da vereadora virou símbolo de luta não só no Rio de Janeiro, mas em várias capitais do país e até mesmo no exterior. A violência atroz que Marielle e Anderson sofreram se transformou em gritos de protestos nas ruas. Essas vozes ousadas e inconformadas, que se erguem país afora, lutam não só por eles, mas por todas aqueles que vieram antes e que virão depois.

O genocídio de um povo negro que é marginalizado historicamente e que mora nas periferias não pode e não deve ser tolerado. Agora, percebe-se que o verbo lutar não é uma escolha e sim uma necessidade para quem sofre injustiças diárias. Eles querem mais respeito e menos palavras bonitas e atitudes corruptas de quem deveria resguardar seus direitos.

Diversos políticos se posicionaram a respeito da execução. O uso do eufemismo, com o intuito de amenizar a verdade já não convence. E apesar das pompas e do discurso requintado, nada de novo foi dito. Alguns jornais tentaram justificar a necessidade da Intervenção Federal no Rio de janeiro, utilizando o caso de Marielle como exemplo. A ativista, que era declaradamente contra a intervenção, tem suas falas manipuladas por parte da mídia e, ao invés do cidadão ser informado, acaba por sofrer ainda mais uma crueldade, a de não poder saber todos os fatos.

De acordo com o Artigo 2°, inciso II, do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, “a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público”. Entretanto, nos últimos dias, o que se vê no jornal é a defesa de um pequeno grupo, em detrimento da maioria da população brasileira.

A Mídia Ninja (Narrativas Independentes Jornalismo e Ação) também noticiou o ocorrido, apresentando a partir de uma perspectiva distinta dos meios tradicionais, os protestos que ocorreram em todo o país. Denunciaram também a postura questionável por parte de alguns jornais, ao ocultarem o fato da ativista ser também relatora da Comissão da Intervenção no Rio de Janeiro.

Notícias falsas também circularam pela internet. Dentre as inverdades estão as informações de que a vereadora foi eleita pelo Comando Vermelho e que foi casada com Marcinho VP, entre outras infâmias. Em alguns casos, esses rumores não são checados e acabam por fomentar, ainda mais, a intolerância e o preconceito. Aqueles que espalham essas notícias falsas quase sempre se apoiam no senso comum de que defender os Direitos Humanos é defender bandido.

O equívoco nessa interpretação tem a pretensão de fazer com que os brasileiros não saibam dos seus direitos e sejam movidos apenas por seus deveres perante o Estado. Por isso, é de grande importância ter em mente que os Direitos Humanos visam proteger e defender de arbitrariedades todos os indivíduos. Então, seja branco, preto, pardo, indígena, de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, “Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”.

O Artigo 2° da mesma declaração expõe também que “Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação”.

Os Direitos Humanos, por mais que sejam negligenciados pelo Estado em certos casos, existem para defender você, eu e todos os brasileiros. Então, Marielle não lutava apenas por si, mas por uma sociedade mais justa, em que todos pudessem usufruir dos direitos básicos, como saúde, educação, segurança, entre outros.

A vereadora lutava também pelos direitos das mulheres e das pessoas LGBTs. Com um sorriso no rosto, recusou-se a abaixar a cabeça e se submeter à ordem que ecoa em forma de políticas repressivas na favela. E, como Luana Barbosa, Douglas Rafael da Silva, Jhonata Dalber Matos, os cinco jovem mortos com 111 tiros na Chacina em Costa Barros e tantos outros que são exterminados todos os dias, ela não pode ser esquecida.

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