Mãe, funcionária e do lar: Dia das Mães resumido à geladeira

Como a mídia enxerga e desvaloriza múltiplas funções em uma mãe e por que isso é vantajoso para a publicidade

Por Gabriela Mestre

Não por acaso, a qualificação da figura materna está associada a trabalho. Às vésperas do Dia das Mães, a dupla (ou tripla) jornada é trazida aos canais midiáticos na tentativa de valorizar mulheres que sustentam, simultaneamente, ofícios do mesmo fardo: trabalhar e ser mãe. Sabendo-se que datas comemorativas alavancam o mercado, as propagandas concebem o sentido doméstico à maternidade e eis que o período se torna a melhor época para comprar fogões e geladeiras.

Historicamente, a data é inspirada pelos clubes “Dia de Trabalhos das Mães”, criado pela ativista social estadunidense e mãe de doze filhos Anna Reevers Jarvis, em 1858. Contudo, o trabalho ao qual Jarvis se refere não está de acordo com os rótulos de “rainhas do lar” ou de “donas-de-casa” que a mídia alimenta há anos, mas a  uma atuação pela diminuição da mortalidade infantil em famílias de trabalhadores da época.

Muito pior que limitar a qualidade de mãe a responsáveis pela manutenção da casa é desvalorizar o serviço daquelas que, de fato, precisaram se doar exclusivamente aos serviços domésticos. O jornal Folha de S. Paulo ilustrou bem essa situação em sua crítica literária “‘A Mulher Entre Nós’ é bom passatempo para donas de casa entediadas”. Fica claro pela matéria a desvalorização da trabalhadora do lar que, até sete anos atrás, sequer tinha direito à aposentadoria.

Por essa razão, encontramos várias jornadas associadas à mãe. Culturalmente, recebeu a imposição da responsabilidade de manutenção do lar, mas, graças à falta de reconhecimento alimentada desde antes da Revolução industrial, com as trabalhadoras negras, buscou emprego de carteira assinada, mesmo em condições desiguais. Afinal, a mão-de-obra delas era significativamente mais barata. A Agência Brasil demonstrou com clareza a atribuição de trabalho triplo a essas mulheres, que além da dupla jornada (trabalhando fora e dentro de casa), são mães.

Diante dessas questões, o 2º domingo de maio celebra o Dia das Mães. Naturalmente, datas comemorativas ganham viés comercial, crítica comum à festividade. Contudo, pelas propagandas, a associação delas como donas-de-casa ganha outra proporção quando a data recebe promoções de eletrodomésticos: preços de máquinas de lavar e utensílios de cozinha são os primeiros a caírem.

Veiculadas em rede nacional, peças publicitárias instigam que as homenageadas devem ser presenteadas com panelas e máquinas de costura, o que reforça a ideia de que mães devem servir à família e à casa. A proposta tem força. Para o Dia das Mães, a Tecmundo publicou matéria sugerindo presentes mais procurados para elas e, em um ranking com dez itens, cinco são eletrodomésticos.

Não há como negar a força de mulheres trabalhadoras, cujos ombros ganharam vários fardos por construções sociais, culturais e históricas. A comemoração existe para reconhecer de maneira justa que todas as mães, encaixadas os não no estereótipo de múltiplas jornadas, merecem ser valorizadas por sua força essencialmente particular.

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