A indústria do sucesso

Cultura de autorrealização atravessa gerações em um ciclo de frustração e padrões inalcançáveis

por Lorena Fraga

“Vincent Willem van Gogh foi um pintor holandês considerado uma das figuras mais famosas e influentes da história da arte ocidental”. Essa é a descrição dada a Van Gogh em um dos sites de busca mais famosos do mundo, a Wikipédia. Mergulhando um pouco mais no conteúdo da página, após uma breve descrição sobre a vasta obra do artista, encontra-se o seguinte trecho: “Van Gogh não obteve sucesso durante a vida, sendo considerado um louco e um fracassado. Ele ficou famoso depois de seu suicídio, existindo na imaginação pública como a quintessência do gênio incompreendido, o artista onde (sic) discursos sobre loucura e criatividade convergem’”.

Van Gogh morreu dia 29 de julho de 1890, aos 37 anos, quando a depressão causada pela sensação de solidão que sentia o fez cometer suicídio. Jamais pôde contemplar os efeitos que sua obra causou na história da humanidade e, segundo a Wikipédia, nunca conheceu o sucesso, morreu como um homem louco fadado ao fracasso. De acordo com o dicionário Aurélio, o significado de sucesso poder ser definido como: resultado feliz; êxito/acontecimento, fato, caso, ocorrência.

Em uma rápida pesquisa online, encontram-se aproximadamente um bilhão oitocentos e noventa mil resultados para a pergunta “O que é sucesso?”. Entre sites de autoajuda, revistas de negócios e matérias que prometem ajudar a repensar o conceito da palavra baseando-se em definições de pessoas bem sucedidas, um fator parece ser comum:  o sucesso é medido a partir do reconhecimento de terceiros. Assim como a Wikipédia definiu o êxito de Van Gogh após a morte, parece ser um consenso que o sucesso só vem a partir da confirmação de outras pessoas.

Não se pode ter sucesso sozinho, em nenhuma área da vida, pois quem julga o “resultado feliz” é quem está ao seu redor. Talvez essa prerrogativa explique o crescimento em mais de 300% do mercado de coaching no Brasil nos últimos quatro anos, saltando de 7 mil em 2012 para 25 mil em 2015, segundo a International Coach Federation (ICF). Coach é uma palavra em inglês utilizada para denominar um tutor/treinador que auxilia no desenvolvimento da pessoa em alguma área da vida, motivando-a e instruindo-a até que seja atingida uma determinada meta profissional ou pessoal. De coach financeiro até coach de emagrecimento, a profissão tem ampla gama de atuação e a procura por ela só cresce.

O ser humano está sempre em busca de algo que, quando atingido, dará sentido ao conceito de “sucesso”. Não é à toa que, da lista dos 20 livros mais vendidos no país atualmente, mais da metade se encaixa na categoria autoajuda. São obras que prometem fazer o grande objetivo ser atingido. Títulos como A sutil arte de ligar o foda-se, de Mark Manson, Seja foda!, de Caio Carneiro, e Propósito, de Sri Prem Baba, chamam a atenção e contêm sinopses que prometem transformar vidas ao final da experiência – ajudando o leitor a “chegar lá”, não importando onde “lá” seja.

Assim, entre coachs e livros de autoajuda, vislumbramos a verdadeira “indústria do sucesso”, movida pelo desejo incalculável de um reconhecimento futuro que, se depender desses profissionais, chegará logo, pois o anseio pelo sucesso impossibilita qualquer espera. Entretanto, é necessário ter consciência da utopia que é a felicidade plena, portanto, um bom consumidor dessa indústria precisa ter consciência que a satisfação profissional e a pessoal não podem andar lado a lado, sendo necessário escolher apenas uma das duas opções.

Aclamado pela crítica, um ícone dos anos 2000, o filme O Diabo veste Prada (David Frankel), baseado no best-seller homônimo de Lauren Weisberger, conta a história da jovem Andrea Sachs (Anne Hathaway), conhecida como Andy, recém-formada em jornalismo que almeja um emprego no qual possa produzir grandes reportagens de valor fundamental para a sociedade. Entretanto, Andy acaba sendo contratada pela revista de moda Runway como assistente pessoal de Miranda Priestly (Meryl Streep), editora-chefe da publicação, famosa pelo seu temperamento hostil e frio. Infeliz com seu novo trabalho, Andy tem de se adaptar a sua nova rotina e vê seu relacionamento com amigos, família e namorado ir por água abaixo à medida que vai se encaixando no novo ambiente.

Durante o filme, a jovem tem diversos diálogos com o diretor de arte, Nigel (Stanley Tucci), que, aparentemente bem sucedido e realizado com a profissão, torna-se uma espécie de “guia espiritual” de quem ela sempre acata os conselhos. Em um ponto da história em que Andy encontra-se extremamente frustrada com os rumos profissionais que está tomando, ela diz a Nigel: “Eu gostaria de ter pelo menos um pouco de reconhecimento, eu estou tentando e me matando muito”. O diretor de arte responde: “Muitas pessoas morreriam para trabalhar aqui neste lugar que você desdenha”, deixando a absoluta certeza que apesar da sensação de frustração em que a protagonista se encontra, ela deve se sentir grata por estar em um cargo de sucesso.

Ainda falando sobre o longa, após perder seus relacionamentos pessoais e se isolar em uma vida dedicada ao trabalho, a protagonista percebe que nem a própria Miranda Priestly é feliz em suas escolhas. Quando a chefe passa por uma difícil separação em uma importante viagem profissional e ainda assim escolhe continuar com os compromissos, Andy parece sofrer um choque de realidade. E o filme reforça o debate sobre sucesso, quando na cena seguinte, Nigel conta a Andy que sairá da Runway pra um emprego no qual ele será feliz e, em uma frase emblemática, diz: “Pela primeira vez em 18 anos vou poder tomar as decisões da minha vida, vou poder vir a Paris e poder ver como ela é de verdade”.

Fato é que dinheiro e cargos de chefia no âmbito profissional parecem ser sinônimos irrefutáveis de sucesso. Prova disso são as famosas listas da revista Forbes, como “30 antes dos 30”, com pessoas que atingiram o êxito profissional e financeiro antes dos 30 anos, além de outras listas, marcadas por nomes que influenciam a sociedade em que estão inseridos. Entre frases de autoajuda e incentivo ao sucesso o mais rápido possível, exclui-se, de todas essas definições, as relações interpessoais que não sejam no âmbito mercadológico.

 A indústria do sucesso é por vezes perversa e, devido ao reforço da mídia, crescemos expostos a uma cultura de que jamais vida pessoal e profissional pode andar lado a lado e a escolha entre uma e outra é o que irá definir o êxito de alguém e a admiração e reconhecimento que essa pessoa recebe. Não só em O Diabo veste Prada se percebe essa narrativa em que o sucesso é definido por fatores que excluem totalmente a necessidade do ser humano de conviver com o outro. Em vários momentos, Hollywood explora essa narrativa e vende o ideal de sucesso a ser seguido pelo público. O bom profissional, por exemplo, é alguém desprovido de qualquer vestígio emocional, como Miranda Priestly.

Em uma sociedade que vende o sucesso excluindo a emoção e automatizando a vida, não é difícil entender o aumento do consumo de antidepressivos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a população brasileira, por exemplo, é a mais deprimida da América Latina com o crescimento de 74% em seis anos, entre 2010 e 2016, da venda desses medicamentos. E não para por aí: o suicídio já é a maior causa de morte entre jovens no Brasil, perdendo apenas para o trânsito. O aumento crescente de casos tem chamado a atenção das autoridades.

Talvez a felicidade plena seja a ocorrência de sensações pontuais de alegria extrema, sendo assim impossível viver em um estado permanente de êxtase. As emoções humanas são complexas e a vida parece ser pautada por uma busca eterna de um grande momento que dará sentido a tudo e, com essa esperança, a indústria do sucesso é alimentada diariamente. Entretanto, é necessário criar a percepção de que essa busca está pouco a pouco nos adoecendo, ao invés de causar motivação.

A aclamada série britânica de ficção científica Doctor Who conta a história das aventuras de um Doutor (a), um senhor do tempo, alienígena humanoide do planeta Gallifrey que explora o universo em uma máquina do tempo. Além de enfrentar uma variedade de inimigos, o Doutor trabalha para salvar civilizações e corrigir erros. Na quinta temporada da série, o décimo episódio, intitulado “Vincent and the Doctor” (“Vincent e o Médico”), contém uma sensível cena na qual o Doctor leva Van Gogh até um museu no futuro onde ele conhece uma exposição com suas próprias obras.

A ciência ainda não avançou a ponto de possibilitar viagens no tempo, mas a geração mais conectada que já existiu até aqui tem a chance de não cometer, na atualidade, os erros que foram cometidos com Van Gogh. O pintor é muito mais que um “artista onde discursos sobre loucura e criatividade convergem”. Talvez em vida tenha sido uma pessoa que tenha se frustrado por não alcançar o ideal de sucesso imposto pela época. Mas o que é sucesso? Será que o êxito que queremos é chegar a um ponto da vida em que a existência seja transformada em uma máquina de produção de trabalho, que ao fim do mês dá retorno financeiro suficiente para ser abastecida e ter reservas guardadas em caixa? Há erros que não podem ser corrigidos. Nem mesmo com uma máquina do tempo como a de Doctor Who.

“Talvez haja um grande fogo em minha alma, contudo ninguém jamais vem aquecer-se nele, e os passantes só veem uma fumacinha saindo pela chaminé e seguem seu caminho.” – Van Gogh.

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