Copa do Mundo de Reportagens

A exploração midiática que define quando os problemas dos países-sede se tornam notícia.

Por Dayanne Soares

Neste mês de junho é realizada, na Rússia, a Copa do Mundo 2018, e já era de se esperar que a atenção mundial se voltasse para o país. A cada quatro anos, o evento se torna o assunto favorito dos meios de comunicação devido à popularidade do Mundial, ao alto investimento do país-sede nos preparativos, além da capacidade de reunir pessoas do mundo inteiro com algo em comum: a paixão pelo futebol. Responsáveis pela cobertura dos jogos, os veículos de comunicação vão além de reportar resultados de partidas. Os jornais decidem explorar cada detalhe do anfitrião na busca por notícias originais e curiosas.

Pela internet, uma simples busca exibe diversas reportagens sobre a cultura russa, sua história, sua gastronomia, e elementos do cotidiano, como a matéria do G1 intitulada “Rússia de A a Z”. Grandes eventos esportivos contam com uma extensa cobertura jornalística pois, com a presença dos torcedores, a Copa permite a interação entre culturas diversificadas e essa troca de informações desperta o interesse da mídia, o que também influencia o aumento do número de matérias.

As notícias que chegam à audiência são selecionadas pelas empresas de comunicação a partir de um conjunto de critérios que definem sua noticiabilidade. Em grandes eventos, tais como a Copa do Mundo, a dinâmica da seleção de notícias é diferente daquela que vemos no dia a dia. A importância dada ao Mundial permite que a história de vida de brasileiros que morem na Rússia seja algo digno de ser noticiado, por exemplo. Quase tudo que envolva o país se torna uma pauta significativa, desde a viagem de torcedores para assistir aos jogos até mesmo as condições dos lugares para hospedagem, como é possível verificar nos vídeos disponíveis no site da Globoplay. A mídia passa, então, a atribuir valor-notícia a fatos da vida cotidiana que, quando não relacionados com o campeonato, pouco despertam interesse.

Notícias sobre a Rússia são recorrentes, mesmo quando não envolvem o Mundial. Exemplo disso é a divulgação mais recente do novo sucesso do programa militar, a reeleição de Vladimir Putin, sem contar a polêmica envolvendo a relação com a guerra na Síria. Quando a Copa de 2018 acabar, a Rússia não sofrerá um apagamento da mídia, já que é consagrada como uma das grandes potências mundiais, e as decisões políticas e econômicas do atual presidente são constantemente exibidas pelos jornais como pauta relevante.

Segundo a Teoria do Agendamento (agenda setting),  da área da Comunicação, a seleção de notícias realizada pelos veículos define quais conteúdos serão incluídos ou excluídos do conhecimento da população e farão parte do dia a dia.  A mídia define a importância de determinado tema, e a divulgação constante de questões que envolvam o país que recebe o campeonato da FIFA torna as pautas importantes. Por esse motivo, os problemas da África do Sul receberam tanta atenção da mídia internacional quando sediou o mundial em 2010.

O jornalismo internacional exibiu a África do Sul sob diversos ângulos, mas o ponto forte foi em relação à pobreza em contraponto aos estádios luxuosos. As reportagens colocaram em discussão os problemas sociais da África, o alto índice de pessoas com AIDS, a situação das comunidades mais carentes e, durante todo o mês, com a seleção eliminada na rodada de grupos, as dificuldades do país figuraram como notícia. Entretanto, com o fim da Copa de 2010, o mundo perdeu o interesse por aquela nação. É possível verificar notícias esporádicas sobre a situação econômica e política, mas nada que se destaque ou seja lembrado de forma duradoura pelas pessoas.

green-point-stadium-620-original

Estádio de Joanesburgo, na África do Sul. Reprodução/Portal Vermelho.

A África do Sul vive hoje um escândalo fiscal motivado pela sonegação de impostos que envolve até o ex-presidente Jacob Zuma – que será processado por corrupção, fraude e lavagem de dinheiro. A frágil economia sul-africana é conhecida apenas por quem tem interesse no assunto, já que a cobertura jornalística internacional não evidencia os problemas do país.

O Brasil sucedeu a África como anfitrião do Mundial, e a fase de preparação para os jogos foi marcada pela insatisfação da população com o alto valor dos recursos destinados às construções. Foram comprovados, anos depois, superfaturamentos nas obras dos estádios e, assim como aqueles que foram erguidos em solo sul-africano, assumem papel de monumento de recordação, sem gerar receita que justifique sua existência.

A cobertura nos países-sede ressalta a importância da discussão de temas relevantes para a sociedade, o que pode realmente gerar alguma mudança, como as condições de trabalho no Qatar (Catar), país que receberá o Mundial em 2022. Considerado o Estado mais rico do mundo, as obras para a realização da Copa ocorrem desde 2014, e as notícias sobre a construção dos estádios são divididas entre o elogio, pela agilidade das obras, e a divulgação de diversos casos de morte de trabalhadores.

Há no Catar o chamado sistema kafala, um conjunto de leis que se aplica à mão-de-obra estrangeira, concedendo ao empregador o direito de reter o passaporte, além de não permitir que um funcionário saia de um emprego sem que o patrão autorize. Com a recepção do evento, o país se viu obrigado pela pressão externa a rever esse sistema de leis e modificações vêm sendo realizadas nos últimos anos, ainda que insatisfatórias, de acordo com artigo da UOL Esporte.

Sediar o campeonato da FIFA é parte do projeto do Catar de se lançar internacionalmente em busca da influência global. Para isso, conta com a rede de televisão local Al Jazeera, peça central na tentativa de reconhecimento do país. A busca pela projeção externa já mostra como a influência de culturas exterior têm influenciado as condições de vida no estado.

Quando a Copa na Rússia acabar, as lentes das câmeras serão voltadas para o Catar, que tem atenção garantida até a realização do evento em 2022. A mídia vai esquadrinhar e expor não somente a beleza e as qualidades do lugar, mas também as problemáticas existentes no país anfitrião. Assim, veremos se a cobertura mundial trará algum benefício ou apenas preencherá matérias com pautas momentaneamente relevantes.

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s