“Art. 196 A saúde é direito de todos e dever do Estado”

Após 30 anos de sua aprovação, o SUS ainda não está nem perto do idealizado, nem mesmo na ficção da série televisiva Sob Pressão

Por Wanessa Pereira

Filas, negligência, falta de médicos, medicamentos e equipamentos quebrados, infelizmente, são situações comuns em hospitais públicos de todo país. Há 30 anos, o SUS foi implantado no Brasil. O sistema que é, até hoje, motivo de elogios estrangeiros por ser o único programa de saúde pública no mundo que atende toda a população de forma gratuita. Tornou-se cada vez mais esquecido pelo poder público que é negligente em investir em uma das bases essenciais e de direito de todos, a saúde.

A arte imitou a vida no seriado Sob Pressão, que foi produzido e transmitido pela Rede Globo. O enredo se passa em um hospital público em uma favela no Rio de Janeiro. O cenário criado descreve com exatidão a precariedade da infraestrutura dos hospitais públicos brasileiros: o mofo, paredes rachadas, falta de iluminação, infiltração, ferrugem. Em meio ao caos da superlotação, médicos e demais funcionários trabalham com improviso.

No primeiro episódio da série, é apresentado o caso de uma gestante que foi atropelada. Ao chegar ao hospital, os médicos decidem que para salvar a vida da gestante e do bebê é preciso fazer uma cirurgia. O caso se agrava. Então, é necessário fazer uma drenagem torácica (procedimento que é feito com um tubo, chamado de dreno, para retirar alguma secreção ou gases). Para avaliar o estado do bebê, o médico responsável pelo caso, pediu um ultrassom, e uma médica respondeu que o equipamento estava quebrado.

Para fazer a drenagem, o médico pede um dreno para adultos. Um dos profissionais presentes na sala responde que só há dreno infantil no hospital, que o pedido já havia sido feito, porém não havia chegado. Em uma medida extrema, o médico vai até o jardim e corta um pedaço da mangueira, leva para esterilizar e usa na paciente.

Em agosto deste ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) denunciou a precariedade dos órgãos de saúde pública do país. A fiscalização durou pouco mais de três anos e percorreu 4.664 postos e hospitais do país. Os dados revelam problemas na infraestrutura, falta de medicamentos e equipamentos básicos como  aparelho para aferir pressão, por exemplo.

Apesar de parecer apenas uma cena fictícia da série, quando, na segunda temporada, um médico faz uma cirurgia usando uma furadeira de parede ao invés de uma cirúrgica. O caso é o mesmo noticiado em 2011 pelo Jornal da Globo que publicou uma matéria sobre o uso indevido deste tipo de equipamento em um hospital público de João Pessoa – PB. As informações, segundo o jornal, vinham dos médicos do hospital.  Em 2017, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) recebeu denúncias de que hospitais responsáveis por cirurgias ortopédicas e neurológicas estavam usando furadeiras domésticas para realizar os procedimentos. Em nota, a Agência explica que o uso de furadeiras deste tipo traz inúmeros riscos ao paciente, por não poder ser esterelizada, não ter um controle de rotação e não está isenta de uma descarga elétrica.

Na série, quando um bebê nasce, ao invés de colocá-lo em uma maca ele é colocado em uma caixa de papelão: o hospital não tinha um lugar adequado. Apesar de parecer absurdo, a série retratou o que acontece em alguns hospitais maternidades do país. Em junho de 2017, o jornal Gazeta Online noticiou que   em uma maternidade da cidade de Aparecida de Goiânia – GO, a falta de leitos para recém nascidos, fez com que médicos improvisassem um usando caixa de papelão. Em junho deste ano, o G1 publicou uma matéria na qual em um hospital do interior de São Paulo, médicos usaram uma caixa de papelão como tenda de oxigênio para salvar a vida de uma bebê de dois meses que apresentava problemas respiratórios.

Apesar de ter sido mostrado em uma obra audiovisual, esses acontecimentos são a realidade de quem busca os hospitais públicos no Brasil. A cerca de dois anos o Governo Federal vem implantando em todo país o Programa Estratégia Saúde da Família que visa fornecer um atendimento primários aos pacientes e estruturar melhor o atendimento básico de saúde no país. Porém, ainda é necessário uma melhor estrutura para que esse programa seja implantado, como por exemplo, uma melhor infraestrutura do atendimento secundário que é responsável por atender as especialidades e também no terciário quando o caso do paciente se agrava e ele necessita de uma internação.

A precariedade em todos os níveis de atendimento torna ainda mais complicado o dia a dia de quem depende do SUS. A esperança de que um dia a saúde pública melhorasse acabou quando em dezembro de 2016 o senado aprovou a PEC 55 que limita os investimentos em saúde e educação por 20 anos. Os efeitos dessa emenda já são vistos e a tendência é piorar. Dados do PNS (Pesquisa Nacional da Saúde) publicados pelo IBGE, mostram que 71,1% da população brasileira procura o atendimento público de saúde e apenas 28,4% usufrui de atendimento particular. Porém, nem todos conseguem um atendimento adequado. O cenário da saúde pública brasileira para os próximos anos foi traçado sem consultar quem mais precisa e utiliza o sistema, o povo.

Os casos retratados na série, apesar de parecer surreal, são reais. Todos os dias pessoas morrem nos corredores dos hospitais, por falta de medicamentos, leitos em UTIs, médicos entre tantos outros casos. Em Sob Pressão,  para salvar a vida dos pacientes, médicos improvisam com o que tem disponível no hospital. A questão é que na vida real, isso acontece todos os dias – e o poder público ao invés de investir em um direito público assegurado em lei, priva-nos de ter uma saúde digna, por 20 anos.

 

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