A falha jornalística na cobertura do massacre em Suzano

Quando o furo se torna mais importante que a responsabilidade social

Por Júlia Mano

No dia 13 de março, ocorreu, na cidade de Suzano, na grande São Paulo, o ataque à Escola Estadual Professor Raul Brasil realizado por dois ex-alunos da instituição. Desde então, houve divulgações em massa de informações – ou reafirmação de notícias anteriormente propagadas – sobre o atentado.

Após os veículos de comunicação noticiarem o ocorrido, a mãe de um dos atiradores compareceu ao local da tragédia. No momento, o programa Brasil Urgente, da Rede Bandeirantes, estava realizando a cobertura ao vivo do caso com o repórter da emissora, que ao ver Tatiana Taucci, a abordou de maneira assediadora. Ela foi seguida pelo jornalista por mais de dois minutos, sendo bombardeada de perguntas sobre a ação do filho e com a câmera apontada contra o seu rosto. O vídeo está disponível no site do canal e, até o momento, tem quase 30 mil visualizações.

Na noite do dia do atentado, o principal telejornal do país, o Jornal Nacional, dedicou a maior parte da edição ao massacre em Suzano. Foram mostrados vídeos das câmeras de segurança da escola que capturaram os primeiros tiros à queima roupa efetuados; os ataques por machadinha; os estudantes saindo desesperados da escola; imagens, feitas por celular das vítimas caídas pelo chão da entrada da escola; um caixão sendo retirado de dentro da instituição de ensino; diversas fotos extraídas das redes sociais dos atiradores; e uma imagem editada do corpo de um dos criminosos.

O portal de notícias G1 divulgou o todo o modus operandi dos assassinos de maneira detalhada. O jornal Folha de S. Paulo noticiou em seu site diversas matérias sobre o caso, em que a galeria de fotos contém imagens por completo do corpo dos autores do massacre após seu suicídio (que em outros veículos foram editadas); também, na reportagem do veículo: “Em 5 minutos, PM recebeu 69 ligações pedindo socorro em Suzano; ouça”; aqui, o leitor tem contato com três áudios que são ligações feitas ao serviço de emergência de Suzano, sendo que uma dessas gravações é de uma aluna da escola que estava presente no atentado.

Sabe-se que o jornalismo brasileiro, atualmente, sofre diferentes tipos de ataques e ameaças. Um desses foi a significante perda de espaço como fonte primária de notícias. Após a popularização das mídias sociais, as informações são obtidas de modo fácil e rápido. Com esses impactos, a imprensa nacional tradicional buscou inovar para não perder seu espaço e influência como meio informativo.

O meio jornalístico, muitas vezes, promoveu espetacularização de tragédias de maneira escrachada, em que as informações deveriam ser minuciosamente divulgadas. O caso de Suzano é uma grande falha da deontologia jornalística. Segundo o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, disponibilizado no site da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), a grande imprensa brasileira descumpriu diversos artigos quanto à sua conduta e responsabilidade profissional perante à sociedade.

Em análise realizada pela BBC News Brasil (Massacre em escola de Suzano: Padrão de atiradores envolve crise de masculinidade e fetiche por armas, dizem especialistas), o delegado-geral Ruy Fontes, responsável pela investigação do atentado na escola de Suzano, afirmou que a motivação ao ataque pode ter acontecido por busca de reconhecimento social perante a comunidade em que os criminosos viviam. Segundo ele, os atiradores efetuaram uma ação semelhante ao atentado à escola em Columbine, que ocorreu em 1999 nos Estados Unidos.

Gabriel Zacarias, professor de história da Unicamp, foi consultado pela BBC para a realização da análise, e afirmou ao jornal que: “Como esses atiradores sabem que seus atos receberão grande atenção da mídia e da sociedade, eles tentam criar uma autoimagem ‘gloriosa’. Ataques desse tipo já ocorriam muito antes de as redes sociais existirem, mas com as redes isso fica muito mais palpável: ele (atirador) produz a própria imagem e sabe como ela vai ser divulgada.

Essa afirmação dada por Zacarias, é prevista no Código de Ética do Jornalista. Segundo o capitulo III, art. 11: “O jornalista não pode divulgar informações: II – de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes.”. Esse descumprimento, em questão, influenciou a ocorrência de mais casos como o da Escola Raul Brasil.

Em Brasília, dois dias após Suzano, um professor de violino invadiu a Secretária da Educação do Distrito Federal com artefatos semelhantes aos usados contra o corpo estudantil da instituição paulista. Além desse fato, ocorreram várias ameaças contra estabelecimentos de ensino localizados em todo Distrito Federal. Após a ação da polícia 12 jovens foram apreendidos.

O papel do jornalista na sociedade é de extrema importância. Agir de modo incoerente com a responsabilidade da profissão é danosa. Ainda citando Zacarias: “Quem comete um atentado sabe que vai ser apresentado de uma determinada maneira na imprensa, nos telejornais, nas redes sociais jihadistas. Vai ter um ‘momento de ‘triunfo’“. Esse foi o desfecho do caso de Suzano, pois os rostos e a história dos atiradores foi perpetuada massivamente, mas o da Marilena que era a favor do porte de livros ou da Silvana que salvou 50 alunos com o auxílio de um freezer, não eram os furos que a grande mídia precisava.

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