SÓ PARA LUCRO

Acusações de racismo, gordofobia e assédio moral feitas à marca de roupa
carioca que tem como discurso mais respeito a diversidade e aos seus funcionários. O que
há de problemático nessa dualidade?

Por Vitor Maurílio e Joana Diniz

Recentemente, a famosa marca de roupas carioca Três, com forte presença
nas redes sociais por apresentar um discurso a favor da diversidade e pelas
mudanças na cadeia produtiva da moda, recebeu diversas acusações de racismo,
gordofobia e assédio moral. A forte repercussão na internet foi responsável por
fomentar o questionamento sobre as reais mudanças em busca da diversidade no
mundo da moda. Até que ponto é real ou apenas uma busca para fidelizar os
clientes?

Com duas lojas em São Paulo e duas no Rio de Janeiro, tendo também a
capital fluminense como endereço da fábrica e escritório, a Três tem como principal
lema ‘’Por trás de peças, pessoas’’. Cada peça apresenta uma etiqueta com foto e o
nome da costureira responsável pela confecção, reforçando esse discurso. Nas
redes sociais, a apresentação impecável segue com os ideais da marca, porém é
nos bastidores que tudo isso se perde.

Na semana passada, o Universa-UOL divulgou diversos relatos de funcionários expondo casos de racismo, gordofobia, homofobia, assédio moral e até irregularidades trabalhistas por parte dos três sócios, a empresária Guta Bion e seus filhos Fernanda e Chico Bion. Ao todo, 11 pessoas foram ouvidas. A maioria dos
funcionários escolheu usar nomes fictícios com medo de represália.

Uma marca que tem seu posicionamento baseado em incentivar uma nova
forma de consumo, na qual quem produz a peça chega até a casa de compra, entra
em uma grande problemática ao fugir do seu discurso quando se encontra fora do
olhar vigilante de seu público, virando personagem principal de diversas acusações
que contrariam os valores defendidos pela Loja Três. Segundo o relato da estudante
de moda e ex-funcionária Juliana Neves para Universa-UOL: ”Dizem que são uma
marca que abraça a diversidade, que respeita os outros, mas isso não acontece lá
dentro”. Ela foi coagida a desfazer as tranças do cabelo para ter seu contrato
renovado. Para Guta Bion, esse tipo de penteado era “coisa de gente da
comunidade” e não fazia parte do “perfil da loja”, segundo o mesmo relato da
ex-funcionária.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) do Rio de Janeiro abriu dois inquéritos civis para investigar a empresa após algumas histórias dos funcionários chegarem por meio de denúncias anônimas. Na reportagem do Universa-UOL, o procurador Arthur de Azambuja, que investiga um dos casos, expõe que chegou a notificar a loja Três várias vezes desde junho de 2018. No entanto a empresa não se mostrou disposta a tratar do assunto.

Os depoimentos de vários funcionários sobre os abusos sofridos dentro da empresa, principalmente o racismo vindo de Guta, surpreenderam quem acompanha a marca. No Instagram, as raras imagens com mulheres negras exibem a suposta diversidade abraçada pela empresa e mostram mulheres felizes e
sorridentes. Mas a regra nos bastidores era outra, principalmente para as vendedoras, que deviam controlar os cabelos crespos, além de ter itens como tranças e lenços proibidos pelas donas. A ex-funcionária Ruth de Oliveira revelou para a Universa-UOL que recebeu orientações para “manter o black arrumadinho” e não poderia parecer “desleixado”. Ruth ainda comenta: ”ela (Guta Bion) achava que o negro é necessariamente favelado e dizia isso de forma muito pejorativa. Ofender uma estoquista pelo nível social ou falar mal de ‘pessoas de cor’, como se referiam a pessoas negras, me afeta diretamente”.

Além de toda a discriminação sofrida, os funcionários também denunciaram a
infraestrutura precária oferecida: falta papel higiênico em banheiros e restrição para
acessar a cozinha, único cômodo com filtro de água. Foi necessário uma mobilização entre eles para tentar reverter os problemas, sendo preciso fazer um estoque de papel higiênico levado de casa e usar um isopor para estocar água.

Diante de todas as denúncias, consumidores e influencers tomaram as redes sociais para fazer críticas à marca, destacando o uso do discurso da diversidade aplicado apenas para alavancar vendas. Entre tantos comentários, o destaque ficou para a cantora negra Mahmundi que em janeiro lançou um clipe chamado “Tempo de Amar”, em parceria com a loja Três. O clipe conta com colaboradores da empresa cantando para seus familiares, ao lado de Mahmundi e sua banda, e traz algumas imagens da produção das peças. No clipe de tom alegre e que reforça a imagem da conexão entre as pessoas, a Três mais uma vez traz para o seu público o discurso de diversidade, inclusão e valorização do outro.

Quatro meses após o trabalho, a cantora se depara com uma enxurrada de
denúncias, incluindo abusos durante a gravação do vídeo. No Instagram, ela postou
um texto criticando o ocorrido. “O racismo nesse país é estrutural. Bem articulado,
cheio de nuances. Me sinto feliz e orgulhosa de ver mulheres denunciando maus
tratos, tendo voz para expor violências verbais diárias”, destacou Mahmundi. Segundo ela, a parceria com a Três foi uma oportunidade de se conectar com as trabalhadoras do Brasil, criar algo que trouxesse comunhão entre elas e suas famílias.

Após seis anos de existência, consolidada e com um perfil de comunicação bem estruturado, a loja Três encontrou por meio do discurso da diversidade um caminho para fidelizar seus clientes através da internet. No entanto, ao se apropriar disso apenas como mais uma ferramenta de monetização, sendo um posicionamento não aplicável fora das redes sociais, ela vê seu futuro ameaçado, tanto pelo rompimento da imagem engajada no imaginário daqueles que a seguem, quanto pelas questões judiciais que terá pela frente.

Por lei, impor uma norma estética para os funcionários — quantidade de maquiagem ou mudança de penteado — pode ser considerado ilegal caso não tenha relação com a função exercida. Além disso, selecionar os funcionários com base na aparência, orientação sexual ou idades dos filhos, também é fora da lei. Com base nas denúncias, além das questões trabalhistas, a Três pode responder por injúria racial.

Em sua defesa, a marca se pronunciou por meio da assessoria Loures Comunicação e negou as acusações. ”A Loja Três recebeu com enorme surpresa as denúncias enviadas pela reportagem do UOL. Elas envolvem, entre outros aspectos, a prática de crimes que a empresa considera inaceitáveis e se dedica
desde sua criação a combatê-los. A Loja Três existe há seis anos e hoje possui uma
fábrica, um escritório e quatro lojas em São Paulo e no Rio de Janeiro. A empresa
preza pela diversidade e pelo respeito à individualidade das pessoas. Dos seus 154
funcionários, 85 são negros. Ao todo 97% do que é vendido nas lojas é produzido
pela fábrica da empresa. A valorização de toda a cadeia de trabalho está entre
nossas principais preocupações”. No Instagram, a Três também postou um
comunicado informando o afastamento voluntário de Guta Bion, principal acusada
nas denúncias. A postagem conta com mais de 10 mil comentários, em que são feitas críticas e novas denúncias à marca.

A Três não é a primeira a protagonizar escândalos envolvendo racismo e
questões trabalhistas no mercado da moda. Grandes nomes, como Zara, Prada e
Dolce&Gabbana foram protagonistas de fortes acusações. Diante de todo esse
cenário, o que fica é o questionamento: com as mudanças na forma de consumo da
sociedade, onde termina o discurso e começa às ações em busca da inclusão das
minorias? É possível uma marca se esconder atrás de um discurso sem mostrar
transparência e ações efetivas? Empresas são feitas de pessoas, e é por meio
delas que as mudanças vão acontecer.

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