Deep Fake

O que uma ferramenta de edição de vídeos nos diz sobre a verdade?

Por Lucas Guaraldo 

No fim de 2017, um usuário do Reddit, com o nome deepfakes, publicou em um dos fóruns do site uma ferramenta de edição que prometia substituir o rosto de celebridades em qualquer vídeo. O conteúdo em si não era nada inovador, softwares semelhantes existem desde os primórdios da internet, mas a capacidade de automatizar completamente o processo, por meio de plataformas de aprendizado de máquinas, fez com que centenas de outros usuários se empenhassem em melhorar e disseminar a tecnologia. 

Em apenas alguns meses, várias outras aplicações paralelas surgiram em diversos fóruns de tecnologia dos mais variados países. O objetivo principal dos colaboradores era diminuir o nível de experiência necessária para operar a inteligência artificial que substitui os rostos. Se antes um editor precisava de anos de prática em softwares de edição e centenas de horas para editar frame a frame um vídeos falso, que não teria qualidade suficiente para enganar o usuário comum,  agora qualquer pessoa pode, com um simples comando no computador, mapear as estruturas do rosto que deve ser sobreposto e substituí-lo por um outro, extraído de uma foto comum.

Os primeiros usos para a nova tecnologia foram exatamente os mais óbvios e semanas após o surgimento das plataformas simplificadas, sites pornográficos foram invadidos por dezenas de vídeos eróticos falsos, porém hiper-realistas, das mais diversas celebridades. Além dos vídeos pornográficos, os usuários se divertiam fazendo vídeos simples em que colocavam atores em filmes que não participaram ou imitadores rapidamente se transformando nas pessoas imitadas. No Brasil, Bruno Sartori ficou extremamente popular no twitter (@brunnosarttori) ao postar vídeos de Jair Bolsonaro e Sérgio Moro dançando e cantando músicas populares.

Com a crescente popularidade dos softwares, surgiu no Reddit, berço dos deep fakes, um debate acerca da possibilidade, e da efetividade, de criação de vídeos falsos com intenções políticas e financeiras, já que com a baixíssima exigência de hardware necessária para a criação de vídeos relativamente realistas qualquer pessoa com um computador moderno seria capaz de extorquir ou enganar celebridades, políticos e eleitores. Se considerarmos a influência que as fake news tiveram nas mídias e na vida política desde 2016, a questão deixa de ser se os vídeos serão usados, mas sim qual será a qualidade dos vídeos produzidos com o apoio direto ou indireto de campanhas políticas e qual a sua capacidade real de influência.

Quando Ari Rabin-Havt, jornalista investigativo, diz que: “Essas mentiras são parte de um ataque coordenado e estratégico, planejado para esconder a verdade, confundir o público e criar controvérsia onde nenhuma antes existia”. Com essa fala, ele se referia às campanhas políticas de Donald Trump em 2016, quando os deep fakes ainda não existiam, mas a mesma lógica pode ser aplicada aos vídeos falsos que provavelmente irão invadir a internet nos próximos anos.

Se assumirmos que o objetivo real de uma notícia falsa não é necessariamente enganar o público, mas diluir tanto as informações reais que a população passa a acreditar mais em sentimentos do que em fatos, fortalecendo assim a pós-verdade e o culto às personalidades, é desesperador imaginar como os jornais irão se comportar em um mundo em que vídeos virais e polêmicos de políticos podem aparecer a qualquer momento. 

Em resumo, além dos disparos de fake news, das notícias mentirosas e das afirmações sem qualquer embasamento na verdade, o arsenal das notícias falsas agora conta com uma ferramenta capaz de criar vídeos realistas de qualquer pessoa cometendo as mais diversas atrocidades. Se a mídia tradicional não souber lidar com essa nova onda de fake news, às campanhas de desinformação ganharão uma força ainda maior e poderão ter um impacto gigantesco na vida de qualquer pessoa. 

 

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