Quando a leitura passa pelos olhos daqueles que confiscam livros

A Bienal do Livro no Rio de Janeiro recebeu uma visita digna de ser contada por Ítalo Calvino: agentes de segurança do prefeito Crivella passaram para fiscalizar livros durante a feira

Por Amanda Cavalcante

Surgiram boatos de que na Panduria existiam livros que iam contra o governo e seriam impróprios para a população e, logo que se soube do boato, o governador ordenou que seu exército fosse conferir e confiscar aqueles livros que fossem contra os ideais da nação. Entraram, então, o general Fedina e sua tropa rumo às estantes da imensa biblioteca, com a única missão de proteger a sociedade das terríveis palavras que poderiam estar guardadas naquele prédio.

Essa pequena sinopse é do conto do escritor italiano Ítalo Calvino, Um General na Biblioteca, mas, dadas as devidas adaptações, poderia muito bem descrever as intervenções feitas por agentes da prefeitura na Bienal do Livro do Rio de Janeiro no último final de semana. 

A justificativa do prefeito Marcelo Crivella, é que livros com temática LGBT, como a história em quadrinhos Vingadores, a cruzada das crianças, não estariam devidamente lacrados e etiquetados como conteúdo impróprio como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)  exige. O Estatuto,  descreve o seguinte: 

ART. 79. As revistas e publicações destinadas ao público infanto-juvenil não poderão conter ilustrações, fotografias, legendas, crônicas ou anúncios de bebidas alcoólicas, tabaco, armas e munições, e deverão respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família.

A definição de família, por sua vez, não se aplica apenas a casais heterossexuais, mas a casais homoafetivos também, desde 2011. A justificativa, na verdade, é mais uma ameaça à liberdade de expressão, e contraria completamente a liberdade de gênero já que, certamente, livros em que casais heterossexuais se beijam ou demonstram afeto não sofreram essa fiscalização, os livros de contos de fada certamente não passaram pela vistoria.

Em contrapartida, enquanto o prefeito mobilizava seus agentes para confiscar os livros, o youtuber Felipe Neto autorizou a compra de cerca de 14 mil livros com temática LGBT e os distribuiu gratuitamente durante a Bienal. 

Apesar do presidente do Supremo Tribunal Judiciário, Cláudio de Mello Tavares, ter derrubado uma liminar que impedia o recolhimento dos livros LGBT, antes mesmo que os agentes chegassem, todos os livros já haviam sido distribuídos. Foi o maior público que a Bienal teve em 39 edições.

A repercussão da ação de Felipe Neto gerou uma hashtag #paiscontrafelipeneto contra o influencer, promovido pelo deputado do Partido Social Liberal, Carlos Jordy. A hashtag estava nos assuntos mais comentados do Twitter no mesmo dia que a hashtag foi lançada, porém a maior parte dos tweets eram de apoio ao youtuber

Uma das reportagens produzidas sobre o acontecimento, realizada pelo G1, apresenta a opinião tanto do prefeito, quanto a posição da Bienal e o que disseram a Ordem dos Advogados do Brasil e a Defensoria Pública. Essas últimas, se apresentando a favor da Bienal do Rio de Janeiro, inclusive o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, que suspendeu a decisão da Prefeitura do Rio de Janeiro quanto à apreensão de livros, declarou que: “a decisão tomada (pela Prefeitura)  findou por assimilar as relações homoafetivas a conteúdo impróprio ou inadequado à infância e juventude, ferindo, a um só tempo, a estrita legalidade e o princípio da igualdade, em disposição que – sob pretensa proteção da criança e do adolescente – se pôs na armadilha sutil da distinção entre proteção e preconceito”.

Mas a polêmica causada no evento percorreu veículos de informação do mundo inteiro, como a BBC e o New York Times. O primeiro estampa a matéria com uma foto de Crivella e a legenda relembra uma declaração antiga dele de que “homossexualidade seria um ‘mau comportamento’”. O New York Times legendou a mesma foto caracterizando o prefeito como “antigo pastor evangélico”, e em seguida transferindo a declaração dele sobre os livros, numa singela indireta do que acontece quando uma religião se sobrepõe na política de um país. 

O El País não se apresenta tão singelo em sua reportagem como na legenda do New York Times, nem tão neutro como o G1, que apenas apresentou as opiniões de todos os lados, fazendo com que o leitor chegasse à conclusão por si. Na reportagem de Beatriz Jucá para o site do veículo, a jornalista deixa bem claro a caracterização da ordem de Crivella no título: “Justiça veta censura homofóbica de Crivella  na Bienal do Livro do Rio”. E é interessante como durante o texto, assim como no The New York Times, a reportagem relembra que o prefeito é pastor evangélico também. Ainda faz uma conexão do acontecimento com a suspensão promovida por Bolsonaro de um edital que daria incentivo à produção de filmes LGBTQ+, demonstrando quão alarmante foi a decisão de Crivella e como ela faz parte de um projeto homofóbico muito maior.

Enquanto isso, na nação da Panduria, o general e sua tropa viraram noites lendo livros para confiscar aqueles que fossem contrários ao regime militar instalado no país. O resultado de tanta leitura foi que o General Fedina, em seu discurso de conclusão a respeito da inspeção literária, falava sobre povo, criticava políticas, e expressava todas as ideias que estavam pipocando na sua cabeça desde que começara seu trabalho de leitura e confisco, demonstrando o afronte que seria proteger a sociedade daqueles livros. No final do enredo comandado por Crivella, o próprio coronel, que estava à frente da fiscalização, declarou que não encontrou nada, “além de muitos livros”. 

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