O desafio do jornalismo na batalha pela transparência dos dados da covid-19 em uma cidade mineira

Por Karina Gomes Barbosa*
Professora do curso de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Temporalidades da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). É jornalista formada pela Universidade de Brasília (UnB). Suas pesquisas giram em torno de estudos feministas, afetos, representações e narrativas no jornalismo e no audiovisual.

Mariana (MG) foi a primeira cidade mineira, povoada em função da mineração. Passou por ciclos de abundância e abandono até que, na década de 1970, a mineradora que se tornaria a Samarco se instalou aqui, impulsionando um boom econômico. Com altos e baixos, essa atividade econômica tem sustentado a cidade mesmo após o crime socioambiental do rompimento da Barragem do Fundão, em novembro de 2015.

Cheguei aqui em agosto de 2014 e, “forasteira”, tenho acompanhado o modo como a cidade se tornou não só economicamente, mas socialmente refém da atividade minerária. Hoje, Mariana é uma grande mina de que as empresas tiram ferro, água, terra, dinheiro. E gente. A pandemia da covid-19 é mais uma tragédia coletiva que, em Mariana, temos vivido à sombra da mineração e que tem colocado questões para a prática jornalística.

As primeiras suspeitas de infecção por coronavírus em Mariana foram notificadas em 16 de março. Desde então, a prefeitura divulga notas técnicas e boletins epidemiológicos nas redes sociais (visualmente muito eficientes) com os números de contaminações, suspeitas, mortes, investigações e monitoramentos (casos que não se enquadram nos requisitos para o exame).

É a partir desses boletins que discuto a transparência da informação pública como premissa da atividade jornalística, especialmente no momento mais singular que nossa geração enfrenta. Nesse contexto, é central o modo como o poder público de Mariana comunica a pandemia e as relações disso com a mineração. No dia 19 de março, o primeiro caso foi confirmado e a primeira morte, dia 1o de abril. Segundo a imprensa, era um terceirizado da Fundação Renova. De lá para cá, o crescimento da contaminação em Mariana é avassalador.

Ainda em março, a prefeitura suspendeu várias atividades na cidade, entre as quais os reassentamentos de Bento Rodrigues e Paracatu, destruídos pelo rejeito minerário da Samarco/Vale/BHP Billiton. Os reassentamentos são conduzidos por empreiteiras – chamadas por aqui de “terceirizadas” – e coordenados pela Fundação Renova. A entidade, criada para gerir a reparação do crime ao longo do Rio Doce, tem legitimidade e imparcialidade bastante questionadas pelas comunidades atingidas e pela sociedade civil organizada. Outras ações da Renova na cidade, como a reforma da Praça Gomes Freire, no centro histórico, também pararam. A mineração foi considerada atividade essencial pelo governo federal e a Vale continuou operando.

No fim de abril, a prefeitura autorizou a volta da Renova condicionada a um plano sanitário, mas em maio denúncias apontaram contaminações não divulgadas entre os trabalhadores da empresa  (falo no masculino porque se trata da maioria de quem atua no setor). Em 21 de maio, a prefeitura suspendeu as atividades da fundação. No dia 22, o Boletim Epidemiológico da prefeitura trazia a seguinte informação: 65 casos confirmados, dos quais “21 funcionários da Vale, Renova e terceirizados”. No dia seguinte foram 26 funcionários e, no dia 24, 36 (nos dois dias, foram todos os casos novos da cidade). No dia 25, a informação mudou: dos 80 casos, 36 são do “setor privado”.

Até agora, Mariana tem 167 casos, 99 dos quais no “setor privado”. Na última nota técnica, de 28 de maio, também não é exibido mais o perfil dos contaminados. Questionada publicamente a respeito da mudança, a prefeitura não respondeu. Parte da população diz que divulgar os nomes das empresas é discriminação. Em live no dia 26, ao lado do prefeito Duarte Júnior, o secretário de Saúde, Danilo Brito, disse que trabalhadores das empresas passaram a ser hostilizados na cidade. Argumento em outra direção: não divulgar os focos de contaminação é um obstáculo ao trabalho jornalístico  de qualidade e demonstra, novamente, a submissão da cidade à mineração, colocando em xeque a transparência, um dos pilares da atividade pública.

Em todo o mundo, focos de contaminação têm sido noticiados. Foi o caso dos frigoríficos nos EUA, do salão de beleza em Mississipi, do frigorífico da JBS em Rondônia ou dos músicos da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. A imprensa os reporta justamente para controlar e mapear a contaminação em uma situação que é de saúde pública e transcende a imagem das empresas. Além disso, nenhum nome de pessoas contaminadas é revelado nesse processo.

Nomear companhias que representam risco para a saúde pública não é discriminação; é interesse público, um pilar do jornalismo. E isso não leva, necessariamente, à discriminação maciça dos trabalhadores. Ainda que haja casos isolados, é novamente o jornalismo de qualidade que combate o preconceito com informações precisas, corretas, verdadeiras e transparentes.

Ao comparar a situação com a de outras cidades, a prefeitura não consegue disfarçar o que não dá conta de nomear: na transmissão, o prefeito ressalta que Mariana é uma cidade mineradora, e cita exemplos de Nova Lima, Itabira, Paraopebas. É preciso entender a doença e buscar a verdade, disse o prefeito. 

Mas para a população entender a doença e acessar a verdade da pandemia em Mariana, é necessário que o jornalismo tenha à disposição informações transparentes por parte do poder público. Apenas assim a imprensa pode indagar e informar:

-Quantas contaminações diárias em cada empresa
-Como a prefeitura fiscaliza o cumprimento das normas sanitárias nas minas e nos canteiros de obras das empresas
-Como a prefeitura tem atuado em relação aos focos de contaminação e às empresas onde se concentram
-Quais as implicações trabalhistas e jurídicas dessa contaminação em massa
-Por que mudou a nomenclatura das contaminações vinculadas à mineração
-Quantas multas e a quais empresas já foram impostas
-Em que bairros essas pessoas moram
-Qual a forma de acompanhamento das famílias
-Como o plano da prefeitura muda diante desse cenário
-Qual o mapa da contaminação por covid-19 em Mariana

A essa pergunta, o secretário de Saúde deu uma resposta na live. Danilo Brito disse que o mapa existe, e que no momento certo essa informação será passada para a população. Pergunto de volta: qual o momento certo para rasgar o véu de opacidade de informações de interesse público? O momento é agora, a pandemia é hoje, as pessoas morrem todo dia.

Mariana é um pequeno ponto em uma crise global da qual o Brasil é o infeliz epicentro. Mas aqui, como uma miniatura de outras esferas do poder, o combate à covid-19 parece profundamente submetido a interesses econômicos e políticos. Essa interferência embaralha dados, minimiza mortes, subnotifica casos, esconde responsabilidades e torna o trabalho jornalístico, tão agredido e desvalorizado, uma tarefa ainda mais hercúlea. Ao mesmo tempo, necessária como nunca.

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