Imperatriz e a cobertura da imprensa sobre a Covid-19

Na segunda maior cidade do Maranhão, o protagonismo do jornalismo local ficou por conta das televisões

Por Izani Mustafá
*Professora adjunta da Graduação e da Pós-Graduação de Comunicação Social/ Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão, campus Imperatriz. Doutora em Comunicação Social (PUCRS), coordena o Grupo de Pesquisa Rádio e Política no Maranhão (RPM), certificado pelo CNPq

Imperatriz fica na Região Tocantina, é banhada pelo Rio Tocantins, que nos separa do Estado de Tocantins. É a segunda maior cidade a sudoeste do Maranhão, tem o segundo maior PIB do Estado e população está em torno de 254 mil habitantes, conforme dados do IBGE (2010). Por isso, diariamente atrai moradores de outras cidades de menor porte, que procuram o comércio e os serviços públicos como os hospitais e os bancos. Durante a semana, o movimento é intenso. Moro em Imperatriz, ainda carente de infraestrutura e, de saneamento básico, há quase dois anos, desde que assumi como professora adjunta do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão.

Em termos de comunicação tradicional, Imperatriz tem seis rádios comerciais, todas com transmissão FM e pela internet: Mirante (95,1), Difusora Sul (105,1), Nativa (99,5), Terra (100,3), 102 e Cidade Esperança FM (106,9); duas emissoras de televisão, a Mirante, que faz parte da Rede Globo, e a Difusora, retransmissora do SBT. E apenas um jornal, O Progresso, que tem circulação diária em papel, e está disponível no site. No entanto, o jornalismo local nem sempre está próximo da comunidade. Existem pelo menos três canais no Instagram que também ocupam um espaço com o intuito de levar aos internautas algumas informações, mas sem as técnicas de apuração jornalística. Divulgam textos embasados em assessorias de comunicação, fotos e vídeos enviados por seguidores, sendo que alguns em tons jocosos. O que é lamentável. Uma das redes tem 157 mil seguidores, outro 75 mil e o terceiro 41 mil.


Créditos: Izani Mustafá

Claro, a narrativa das mídias on-line numa rede social é diferente. Então, por isso, vou me ater aos veículos tradicionais para expor como está sendo o papel deles desde o início da pandemia causada pelo vírus da Covid-19. No entanto, neste artigo vou me colocar como observadora, já que não fiz uma pesquisa científica a respeito.

Desde que tivemos o primeiro caso de morte por causa do coronavírus, em 15 de abril, um mês depois do início da quarentena na cidade, adotada pela prefeitura e seguindo as orientações do governo estadual, foram os programas locais das televisões que passaram a divulgar diariamente os boletins oficiais da secretaria de saúde estadual a respeito do número de infectados, mortos e recuperados da Covid-19. As duas estações têm realizado quase que diariamente entrevistas com fontes oficiais como prefeito, secretários e especialistas da área da saúde para esclarecer aspectos sobre o funcionamento do comércio essencial, do distanciamento social, da necessidade do uso da máscara e da importância da higienização das mãos e das compras do supermercado, por exemplo. Também mostraram imagens das filas enormes em bancos quando recursos federais do auxílio emergencial foram sendo liberados para os trabalhadores. Quando começaram a ocorrer recuperação de casos, as duas emissoras passaram a mostrar as imagens dessas pessoas saindo dos hospitais e sendo recebidas pela família e amigos. O âncora do jornal do meio-dia da Difusora sempre foi mais enfático e nos comentários procura alertar os telespectadores para que estejam sempre lavando as mãos, saiam o menos possível de casa e, se sairem por obrigação, usar máscara e evitar aglomerações.

Já nas seis rádios, considerando que o rádio é ouvido por quase 85% da população (Kantar Ibope Media/2019), a programação deixou a desejar. É importante ressaltar que a maioria tem programas de variedades e não radiojornais embasados na prática jornalística, com apuração local por meio de repórteres. Assim que foi decretada a quarentena, algumas rádios deram férias a funcionários e/ou reduziram a presença de pessoas das áreas administrativas e da comunicação em seus espaços físicos. Na maior parte da programação ouviu-se muito mais música do que informações sobre como a cidade e as pessoas estavam se comportando por causa da pandemia.

Para não ficarem tão omissos durante a pandemia que está provocando um sério problema de saúde pública, alguns apresentadores, âncoras de programas populares, têm lido notícias oficiais, divulgadas pelas assessorias de comunicação da prefeitura e do governo estadual. Infelizmente, o veículo mais popular em Imperatriz, que prestaria um serviço de interesse público e local, praticamente não existe em termos de comunicação comunitária. Não cumpre o seu papel social como prestador de serviço para os interesses da sociedade. Mas, ouvindo duas rádios, identifiquei programetes pagos que têm como porta-voz um médico, alertando sobre o coronavírus, e encerrando com uma propaganda chamando para o seu consultório.

O único jornal impresso é O Progresso, como dito. Criado em 1950, hoje também está numa página on-line e tem como slogan “Expressão Regional”. Logo que Imperatriz entrou em quarentena, o veículo criou a aba “Covid-19”. Para ler as notícias a respeito, o leitor precisa apenas clicar no link. A primeira informação divulgada nessa área aconteceu em 19 de janeiro, com a manchete “China constata mais 17 casos de pneumonia viral”. A segunda notícia, de 26 de março, teve como título “Saiba como está o avanço do coronavírus no Brasil”. Dois dias depois, o jornal se aproximou da realidade local e divulga “Covid-19: número de casos confirmados sobe para 14 no Maranhão”. A partir dessa data, o veículo passou a divulgar informações sobre a pandemia na cidade, no Maranhão, no Brasil e no mundo. Mas, com poucas matérias apuradas na cidade e boa parte provenientes das assessorias de comunicação das secretarias de Saúde e prefeitura de Imperatriz, do governo do Estado e também da Assembleia Legislativa. Nessa aba disponível no site a última notícia é de 27 de maio com a seguinte manchete: “Disque Covid já realizou 2 mil atendimentos a pacientes em tratamento domiciliar no Maranhão”.

As informações mais recentes sobre a pandemia, agora, são encontradas no jornal impresso disponível no site em formato de PDF. No dia 11 de junho, na editoria regional, o título em destaque era “Maranhão é o 3º estado que mais testa para coronavírus no país”. Em 13 de junho, o jornal divulgou uma matéria local intitulada “Força-tarefa coíbe aglomerações e conscientiza moradores sobre a Covid-19”. Com a chegada do verão na região, muitas pessoas estão indo para as praias, mesmo sendo alertadas pela prefeitura de que este ano não serão instaladas as infraestruturas para bares e outros equipamentos, significando que a cidade não terá a tradicional temporada de praias e festas na beira do rio Tocantins. Mas como impedir que as pessoas se divirtam e queiram curtir as praias da região em plena pandemia se na metade de maio a prefeitura decidiu flexibilizar a reabertura do comércio garantindo fiscalização nas ruas para impedir aglomerações?

Segundo o prefeito, mesmo durante a quarentena, algumas lojas e o comércio do Mercadinho que concentra a venda de carne, frutas, verduras, hortaliças, temperos e utensílios domésticos, funcionou clandestinamente.

No meio deste contexto, infelizmente, a cidade carece de uma cobertura local para criar um vínculo com a comunidade imperatrizense. Quem sabe se as rádios tivessem essa aproximação, conseguiriam dar informações relevantes e contribuir para que as pessoas seguissem as orientações da Organização Mundial da Saúde e ficassem em distanciamento social por mais tempo? Até 13 de junho de 2020, Imperatriz registrou 2.963 casos, 151 óbitos e 2.349 recuperados. Essa aproximação e a produção de conteúdos que dialogassem com a realidade da cidade ainda precisam ser construídos. Como professora do curso de Jornalismo da UFMA, acredito que quando tivermos mais alunos formados, conseguiremos abrir mais espaços nos veículos de comunicação para que produzam reportagens e notícias de interesse local.

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