Imune à desinformação: o papel da imprensa no combate ao coronavírus

Enquanto se fala em voltar à normalidade com a possível chegada das vacinas, a imprensa precisa lembrar que temos um longo caminho de despreparo, boicotes deliberados e pronunciamentos absurdos adiante

Por Heloíse Gonçalves e Lucas Guaraldo 

Desde março, o Brasil tem sofrido as consequências da pandemia do novo coronavírus, que se soma à crise política e à negligência do governo federal. Com a chegada do fim do ano e o início das campanhas de vacinação por todo o mundo, aliado ao medo causado por um novo crescimento no número de infecções, a população espera cada vez mais ansiosamente a volta à normalidade. Mas a imunização, vendida como algo rápido e trivial, se trata na verdade de um processo que durará anos e que pode se tornar ainda mais difícil se as campanhas de desinformação que cercam as vacinas não forem combatidas.

    A única solução para a crise que paralisou boa parte do país só pode ser superada com uma campanha generalizada de vacinação, mas após os ataques do presidente e de membros influentes do governo, que defendem a não obrigatoriedade da vacina, a parcela da população que pretende se imunizar caiu dramaticamente. Se mesmo após as campanhas de conscientização elaboradas pela mídia, e a decisão do STF de tornar a vacinação obrigatória, o número de pessoas que não querem se vacinar seguir aumentando, o Brasil seguirá sofrendo com a pandemia da Covid-19 e com os milhares de brasileiros mortos.

O Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19

O Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 foi apresentado dia 16 de dezembro, durante cerimônia no Palácio do Planalto. O documento tem como principal objetivo elucidar questões a respeito da distribuição das vacinas no país. Apesar disso, em uma solenidade tão simbólica, que anuncia para a população brasileira a esperança da imunização, o mau exemplo tomou conta. Contrariando os protocolos de segurança recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), além de aglomeração, havia também muitas pessoas sem máscara presentes no local. Dentre elas, as figuras mais relevantes do evento: o presidente da República e o ministro da Saúde.

Zé gotinha marcou presença na cerimônia de máscara e manteve as mãos bem protegidas.

Imagem: Gabriela Biló

Pazuello, inclusive, protagonizou um dos momentos mais comentados da cerimônia. Sua fala a respeito das vacinas, “para quê essa ansiedade, essa angústia?”, repercutiu negativamente nas redes sociais e na imprensa, que cobraram do ministro uma postura no mínimo realista a respeito do momento e condizente com o seu cargo. As matérias jornalísticas sobre o pronunciamento de Pazuello quase sempre apresentavam em seguida dados com os altos números de mortes por COVID-19 no país até então: 182.799 pessoas ao todo. Desde essa data, mais de 20 mil pessoas morreram vítimas do coronavírus, ultrapassando a marca de 200 mil mortos.

Essa conduta do ministro, no entanto, está em consonância com a gestão de Bolsonaro na sua forma de lidar com a pandemia. O que inclui atraso, displicência e inconsistência: características que podemos notar presentes também no Plano Nacional de Imunização, que foi finalizado somente em meados de dezembro, depois de render até cobrança do Tribunal de Contas da União (TCU). Além disso, inseriu a assinatura de 36 cientistas que deveriam contribuir com a elaboração do documento, mas sequer o viram antes de ele ser enviado para aprovação no Supremo Tribunal Federal (STF). Assim relatou a pesquisadora Ethel Maciel em entrevista para a Globo News e no seu perfil do Twitter:

Mas, afinal, quando o Plano prevê que vamos ter acesso à vacinação? Mesmo com os pedidos de uso emergencial realizados pela Fiocruz e pelo Instituto Butantan, não existe também previsão para o início das imunizações. No dia 11 de janeiro, o ministro da Saúde se limitou a dizer que a campanha de vacinação nacional seria realizada “no dia D e na hora H” No momento, só é possível dizer que, depois que a primeira vacina for aplicada de fato, a estimativa do Ministério da Saúde é que em 16 meses todos os brasileiros sejam devidamente vacinados, sendo os quatro primeiros meses destinados aos grupos prioritários. 

Os grupos prioritários da versão final do documento incluem os trabalhadores da área da saúde e profissionais de apoio (motoristas de ambulância, pessoal da limpeza dos hospitais etc.), cuidadores de idosos, além de indígenas aldeados em terras demarcadas, idosos, comunidades tradicionais ribeirinhas e quilombolas, população em situação de rua, pessoas com determinadas morbidades, trabalhadores da educação, pessoas com deficiência permanente severa, membros das forças de segurança e salvamento, funcionários do sistema de privação de liberdade, trabalhadores do transporte coletivo, transportadores rodoviários de carga e população privada de liberdade. 

A primeira versão do documento enviada para aprovação não incluía alguns desses grupos, tais como população em situação de rua, trabalhadores do transporte coletivo e população privada de liberdade. 

As vacinas

    O caminho para a imunização nacional não é fácil. Ainda na compra das vacinas, o governo terá que tomar decisões difíceis, já que cada uma das opções representa um preço, uma eficácia e, mais importante, um desafio logístico diferente. Além disso, a corrida pelas doses produzidas já se iniciou e, enquanto grande parte dos países já está preparando seu estoque, o Brasil corre o risco de ficar com sobras nesses primeiros meses de vacinação.

    No momento, as opções do Ministério da Saúde são poucas. Com o atraso da mobilização por parte das autoridades nacionais, que também rejeitou um acordo com a empresa americana Pfizer no começo de agosto, o povo brasileiro passou a sonhar com o resultado do consórcio Covax Facility, uma iniciativa da OMS que pode dar acesso a nove vacinas em desenvolvimento. O Brasil também irá produzir cerca de 100 milhões de doses da vacina desenvolvida pela Oxford-AstraZeneca, suficiente para imunizar 50 milhões de pessoas quando for liberada pela Anvisa. 

    Além de todas as dificuldades esperadas de um programa de combate a uma pandemia, Jair Bolsonaro também tem se empenhado na politização da campanha. O presidente se posicionou contra a obrigatoriedade da vacina e chegou a sugerir a criação de um termo de responsabilidade ilegal, em uma óbvia tentativa de boicotar a vacinação. Foi apenas após sofrer pressão da imprensa que o governo federal e o STF se articularam para apresentar um plano nacional de vacinação e garantir a obrigatoriedade da vacina.

    No momento, as vacinas das americanas Pfizer e Moderna, além da inglesa AstraZeneca, são as principais opções para a campanha de vacinação. A vacina chinesa também pode ser uma opção, mas sofre com o preconceito e a campanha de difamação encabeçada pelo presidente, principalmente devido à guerra política que surgiu após a aquisição de 40 milhões de doses pelo governo estadual de São Paulo.

*informação parcial

    É importante ressaltar que, como detalhado na tabela acima, cada uma das opções de vacina é acompanhada por dificuldades. A vacina da Oxford-AstraZeneca, por exemplo, foi questionada por cientistas após uma confusão com a dosagem dos testes, que acidentalmente descobriu que receber meia dose em uma primeira vacinação resultava em uma resposta imune melhor, então os dados podem mudar. Já as vacinas da Pfizer precisam ser armazenadas em ultracongeladores, o que dificulta o transporte e a lógica de distribuição.

As questões que rondam cada opção de vacina estão sendo amplamente debatidas pela imprensa, que vem conscientizando a população acerca das dificuldades da campanha, mas o mesmo ainda não foi feito pelo governo. Em seu plano de vacinação, por exemplo, o ministério da Saúde não especifica de onde virão os freezers que reforçarão a rede de frios do SUS. A falta de estratégia pode atrasar ainda mais o início da imunização, além de encarecer o projeto. 

A volta à “normalidade”

O Ministério da Saúde prevê no Plano de Vacinação que para o fim da transmissão do vírus é preciso que entre 60% a 70% da população se vacine. É primordial garantir que esses índices sejam altos porque são eles que vão indicar quando nós poderemos voltar a conviver socialmente com tranquilidade e a circular sem máscara. Isso se dá porque a eficácia das vacinas não é 100%, o Sars-cov pode sofrer mutações que tornem mais eficiente sua propagação, fora que nem todos podem ser vacinados, a exemplo da população menor de 18 anos, que por si só representa uma enorme parcela populacional. Além disso, é importante lembrar que mesmo entre os brasileiros aptos a se vacinar, há quem não tenha essa intenção. 

Isso é o que mostra a seguinte pesquisa do Datafolha realizada em dezembro em quatro capitais brasileiras, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife. A pesquisa aponta ainda que a adesão à vacina caiu em relação a uma feita em agosto, ou seja, menos pessoas têm intenção de se vacinar. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95% para ambas.

Gráficos: PDF da pesquisa do Datafolha.

    A resistência é maior em relação à vacina chinesa, alvo de ataques do presidente, e também de disputa política com o governador de São Paulo, João Dória. A Coronavac só foi incluída na última versão do Plano de Vacinação, depois de muita pressão, mas não estava prevista na primeira. Bolsonaro se refere a ela depreciativamente como “vachina”, e o termo circula nos grupos mais conservadores de Whatsapp, que compartilham sobretudo desinformações sobre supostos efeitos colaterais das vacinas, como por exemplo que elas são capazes de causar alterações no DNA, desencorajando aos poucos parte da população a se vacinar.

    Reforçando a ideia de que a vacina pode ser perigosa, Bolsonaro segue afirmando que não vai vacinar. Sobre a da Pfizer e seus possíveis efeitos adversos, ele chegou a dizer que “se você virar um jacaré, o problema é seu”. O presidente também declarou que pretendia assinar uma medida provisória que obrigaria a assinatura de um termo de responsabilidade para quem quisesse ser vacinado, mas a Câmara vetou a exigência. Caso fosse aprovada, o Brasil seria o único país a adotar a norma. Todas essas ações refletem na população a desconfiança e o medo em relação às vacinas e são uma tentativa de burocratizar o processo de vacinação, que deveria ser simplificado para garantir maior adesão possível.

    Outra disputa do presidente que dificultaria ainda mais a atingir um alto número da população imunizada é pela vacinação não obrigatória. Mas no dia 17 de dezembro, o STF votou a favor das medidas restritivas para quem não se vacinar, por dez votos a um, sob argumentação principal do ministro Ricardo Lewandowski: “a saúde coletiva não pode ser prejudicada por pessoas que deliberadamente se recusam a ser vacinadas”.

Papel da imprensa

    Na mesma cerimônia em que anunciou o plano de vacinação nacional, o ministro da Saúde prometeu também uma campanha de conscientização acerca da importância da vacinação. A proposta, ainda que muito vaga, é uma clara resposta às pressões sofridas pelo governo em resposta aos baixíssimos índices de intenção de vacinação. Além disso, a campanha de informação passará inevitavelmente pelos grandes veículos de imprensa, que já foram acusados pela alta cúpula do governo de inflar os números da pandemia para ganho próprio.

Desde o início da pandemia, a imprensa nacional tem se mobilizado para a cobertura de seus efeitos em todo país. A cobertura extensa e diária foi essencial para a conscientização da população e para o monitoramento das instituições, que em certos casos, como as mudanças na divulgação de informações no portal do Ministério da Saúde, tentavam acobertar a dimensão real da crise.

    Representantes de diversos grupos de notícia, como Folha de S. Paulo, O Globo e Estadão, formaram um consórcio de imprensa, com o objetivo de informar com maior clareza os números do coronavírus no Brasil. O grupo obtém as informações a partir de dados divulgados pelas secretarias estaduais de Saúde e com isso consegue evitar alguns problemas da divulgação federal, como a supressão de dados e informações sobre os números totais de casos.

No entanto, com o início dos debates acerca da campanha de vacinação, a mídia tem sido tomada por um otimismo compreensível, mas que pode ter efeitos danosos na campanha de imunização, já que seu início não representa de forma alguma o fim real da pandemia. Ao ignorarem as etapas de combate à pandemia que seguirão a campanha de vacinação, os veículos de comunicação correm o risco de sabotar as outras etapas da prevenção. Mesmo com a divulgação do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, é dever da imprensa informar sobre os longos meses de combate que ainda estão por vir.

Além disso, a mídia tradicional tem um papel fundamental na garantia de que pessoas o suficiente irão se vacinar. Seja reforçando o combate às notícias falsas, divulgando a segurança das vacinas ou pressionando governantes e instituições para garantir a celeridade das ações, a imprensa precisa garantir a eficiência da comunicação a respeito do enfrentamento à pandemia, já que os projetos do governo demonstraram claramente a lentidão com que o governo federal lidará com essas questões.

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