Moïse Kabagambe e a desumanização do imigrante não-branco

O Brasil não pode ser a pátria acolhedora que mata imigrantes

Por Daniel Lustosa

O assassinato do congolês Moïse Kabagambe pôs em evidência a situação deplorável em que muitos imigrantes negros e refugiados encontram aqui no Brasil, além de novamente expor a face racista e xenófoba do brasileiro. No entanto, chama a atenção também a frieza e a insensibilidade que os programas televisivos tiveram ao reproduzir o vídeo do espancamento covarde de Moïse. A repetição das imagens, até mesmo em horários de almoço, denota o fetiche que os jornais, especialmente os que destacam o noticiário policial, têm pela violência.

Sejam bem-vindos, pero no mucho

O Brasil clama para si qualidades de bom anfitrião e acolhedor da diversidade, porém a história frequentemente diz o contrário. Após o fim da escravidão, houve no país uma política de branqueamento da população, que contou com incentivos à vinda de europeus e japoneses para trabalharem nas lavouras de café, enquanto os negros libertos ficaram à margem da sociedade. Antes mesmo da Proclamação da República, o brasileiro tinha enraizado o sentimento de que “o que vem da Europa é melhor”, sobrevalorizando os produtos importados da Inglaterra em detrimento aos produzidos localmente.

A Redenção de Cam, 1895. Modesto Brocos. Óleo sobre tela, c.i.d. 166,00 cm x 199,00 cm
Reprodução fotográfica César Barreto

Este sentimento persiste até hoje. O programa Mais Médicos, por exemplo, lançado em 2013 e que contava com a “importação” de médicos cubanos para suprir a carência de profissionais da saúde no interior do país, foi substituído, em 2019, pelo Médicos pelo Brasil, que, entre outras alterações, dificultou a permanência dos cubanos no país. Uma reportagem da revista piauí, publicada em janeiro deste ano, relata as consequências do desmonte do programa para os beneficiários.

A situação dos refugiados não brancos no Brasil também vai de encontro com a ideia de pátria acolhedora. Segundo a embaixada da República Democrática do Congo, Moïse Kabagambe foi o quinto congolês morto no país em sete meses. Venezuelanos e haitianos, apesar de enxergarem no Brasil uma oportunidade de recomeço, relatam ofensas racistas e dificuldades em se encaixarem no mercado de trabalho. Notícias falsas sobre a abertura de fronteiras norte-americanas fizeram com que alguns caribenhos tentassem, em meio à crise econômica brasileira, emigrar para os Estados Unidos. Uma reportagem da BBC News Brasil, publicada em março de 2021, retrata este drama. João Chaves, defensor público e especialista em imigração, foi entrevistado pelo portal e relatou o que viu na fronteira Brasil – Peru: “É uma situação do limite do desalento, da falta de esperança. As comunidades haitianas, africanas, cubanas e de tantos outros países dependem da mobilidade, não têm mais expectativa de uma vida confortável no Brasil, de uma vida segura, por conta da recessão, da crise econômica, da pandemia, buscam desesperadamente outros países e não conseguem.”

Em 2019, a crise de refugiados venezuelanos nas fronteiras brasileiras ganhou o noticiário do país. Em Roraima, por exemplo, o jornal The Intercept fez uma matéria revelando a violência na qual os imigrantes eram recebidos, muitas vezes estimuladas pelas autoridades. Após o caso Moïse, um venezuelano de 21 anos foi assassinado na Grande São Paulo, em fevereiro. Marcelo Antonio Larez Gonzalez devia 100 reais de aluguel e foi baleado após discutir com o locatário. Desde 2018, o Brasil recebeu mais de 66 mil venezuelanos, segundo dados do Governo Federal.

Show de horrores

As imagens do espancamento de Moïse Kabagambe viralizaram nas redes sociais e alcançaram o mundo. Apesar da violência e do destaque que teve, o Jornal Nacional, por exemplo, transmitiu o vídeo das câmeras de segurança desnecessariamente, o que gerou ampla repercussão nas redes sociais.

O debate sobre o poder midiático que a violência tem não é recente. Jornais policiais, como Brasil Urgente, da Band, Balanço Geral e Cidade Alerta, ambos da Record, e o Alerta Nacional, da RedeTV!, são conhecidos por não só transmitir os fatos, mas também por formar opiniões. É comum se deparar, ao assistir aos programas, com chamadas sensacionalistas, exposição exagerada de prisões e perseguições policiais, além do julgamento prévio de pessoas investigadas, algo que viola a presunção de inocência, prevista no Código de Processo Penal (Art. 283).

O crime desperta a curiosidade do telespectador. A violência, o medo. Veículos de mídia procuram capitalizar sobre o medo da população e assim gerar audiência. Ao retratar pessoas negras como bandidos, assaltantes, estupradores e cidadãos brancos como jovens, empresários e estudantes, os meios de comunicação aprofundam as desigualdades sociais e a exclusão social, potencializando a intolerância e o preconceito. O ódio contra Moïse e Marcelo Antonio, duas pessoas não brancas, é proveniente disso, dentre outros motivos. A repetição incessante de cenas de violência contra populações marginalizadas torna o absurdo em tolerável, teoria que Susan Sontag relacionava com as fotos de guerra em seu livro Sobre a fotografia (Cia. das Letras, 1977).

Mãe gentil

O Brasil, que um dia exportou Carmen Miranda e o futebol majestoso de Pelé na Copa do Mundo de 1958, campeonato este que fez os congoleses se apaixonarem pelo país, exporta hoje a dor de imigrantes que fogem de guerras e conflitos e são assassinados por valores irrisórios. Algumas áreas do jornalismo reproduzem desnecessariamente imagens horrendas e bárbaras, o que desrespeita vítimas e seus familiares, além de prejudicar a imagem da profissão. O Brasil não pode ser a pátria acolhedora que mata imigrantes.

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