Stranger Things: a problemática do queerbaiting

Após o lançamento da 4ª temporada, o público volta a acusar a série Stranger Things de queerbaiting, quando uma obra indica que um personagem é LGBT, mas não afirma com clareza. Por que produções insistem em perpetuar o marketing maléfico do cinema?

Por Deb Alecrim

No dia 27 de maio, a 4ª temporada da série estadunidense Stranger Things estreou no catálogo da Netflix. O novo capítulo iniciou o arco final da história e prometeu explicar fenômenos não resolvidos ao longo dos anos anteriores. No entanto, o interesse de parte do público está em uma questão que os produtores da série não parecem ter interesse em responder: A sexualidade de Will Byers (Noah Schnapp).

Enquanto o problema principal da história está relacionado a monstros de uma realidade alternativa, o relacionamento que o grupo de protagonistas desenvolve é um grande fator-resolução. Na 1ª temporada, é a amizade entre Eleven (Millie Bobby Brown) e Mike Wheeler (Finn Wolfhard) que motiva El a derrotar o Demogorgon, o primeiro antagonista introduzido. 

Sendo assim, o enredo se dedica a explorar a vida social e romântica de todos os personagens, exceto Will. Tudo que temos são duas cenas que mostram alunos do colégio o chamando de gay. Na primeira cena, logo no 4º episódio do capítulo um, o “valentão” da escola provoca ao falar que Byers está “no reino das fadas, todo feliz e gay.”

Foto: Netflix/ reprodução

Depois, durante a 3ª temporada, uma discussão entre Mike e Will motiva Wheeler a irritar o amigo com: “não é minha culpa que você não gosta de garotas.”

Foto: Netflix/ reprodução

Fica claro, portanto, que foi designado ao personagem diversas vezes um rótulo que nunca explicitamente utilizou. Na carta de descrição, também, os irmãos Duffer – escritores da série – fazem questão de apontar que Will “tem problemas com sua orientação sexual”. 

Ainda sim, em nenhum momento o público é introduzido à opinião do personagem. Nenhuma cena é dedicada a explicitar como Byers realmente se identifica. Noah Schnapp, que interpreta Will, afirmou em uma entrevista que o silêncio é a “beleza do negócio, que depende apenas da interpretação do público”.

Em contrapartida, parte dos espectadores acusam Stranger Things de queerbait, quando uma obra dá indícios que um personagem é LGBT, mas sem nunca afirmar com clareza. Assim, a comunidade LGBT é atraída sem que a produção se arrisque a perder o público conservador. 

Foto: Netflix/ reprodução | Will levando um cartaz de Alan Turing para a aula de famosos que inspiram. Alan Turing é conhecido por ser pai da computação e homossexual.

Essa estratégia de marketing se baseia no queer coding, método em que criadores utilizam estereótipos LGBTs para indicar a sexualidade de um personagem. O queer coding foi criado por produtores de mídia nos anos 1930 para driblar o Código Hays, cartilha de normas e censuras impostas em Hollywood. Como a relação homoafetiva não podia ser explícita, autores LGBTs perceberam que os fiscais cis-héteros do Código Hays não reconheciam características específicas do meio gay.  

Personagens masculinos mais afeminados e vaidosos são entendidos pelo subconsciente popular como gays, ao passo que personagens femininas masculinizadas e agressivas são associadas a lésbicas. Além disso, tropos comuns como personagens obcecados pelo melhor amigo de mesmo gênero ou que nunca são apresentados em situações amorosas também acabam sendo identificados por pessoas da comunidade. Assim, a existência de LGBTs não seria completamente apagada dos cinemas.

Entretanto, esses personagens costumavam ser alívios cômicos ou vilões. A falta de complexidade ou qualidades associada a eles causou danos que são refletidos até hoje, já que a desumanização de corpos LGBTs foi implantada no subconsciente da sociedade midiática. O Código Hays foi revogado em 1968, mas técnicas de exploração da cultura LGBT desenvolvidas na época podem ser observadas na construção de Will Byers, como apontado anteriormente. 

A segunda parte da 4ª temporada estreia em 1 de julho na Netflix. Em entrevista à revista Variety, os irmãos Duffer garantiram que discutirão a sexualidade de Will. Mesmo assim, os seis anos de silêncio ainda permitiram que a comunidade se sentisse explorada, mais uma vez. Cada vez mais produtores devem buscar distanciar-se do queerbait e os espectadores não podem deixar de questionar e denunciar essa estratégia de marketing ultrapassada.

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