A queda de Pedro Guimarães: de presidente da Caixa Econômica a assediador

Como uma reportagem conseguiu dar voz a inúmeras vítimas de assédio e retirar o presidente do maior banco público de seu cargo

Por Beatriz Magalhães Reis

O portal de notícias Metrópoles divulgou uma série de denúncias de abuso sexual cometido pelo ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, de 51 anos. O material foi publicado a partir de 28 de junho. A reportagem continha depoimentos de funcionárias do banco que afirmaram terem sofrido algum tipo de abuso vindo de Guimarães, desde propostas indecentes até toques sem consentimento. 

Após esses relatos virem a público, mais acusações chegaram à Corregedoria, responsável por apurar casos desse tipo. Contudo, esse setor já falhou antes. Os boatos de que Guimarães assediava as mulheres com quem trabalhava circulavam pelo banco com certa frequência, mas medidas para investigar tais alegações não foram tomadas.  

Os testemunhos das vítimas mostram as objetificações que estas sofriam por parte do economista. Ana, uma das mulheres que concordou em ser entrevistada pelo Metrópoles, afirmou: “Ele trata as mulheres que estão perto como se fossem dele”. Os convites inapropriados com teor sexual eram constantes, assim como o medo de recusá-los. Uma misoginia enraizada na sociedade brasileira se fez presente na sede do maior banco público brasileiro. Situação que se torna ainda mais difícil de se converter quando o próprio presidente do país não demonstra tanto interesse na problemática. 

O presidente Jair Bolsonaro não fez muitos comentários no que tange às acusações que o amigo dele vem recebendo. Pedro Guimarães assumiu a presidência da Caixa Econômica logo após Bolsonaro assumir a da República. Ao longo dos últimos anos, ambos são vistos juntos com frequência, tanto em cerimônias oficiais quanto em lives realizadas pelo presidente. Este, em entrevista em frente ao Palácio da Alvorada se limitou a dizer: “Já foi afastado. Ou melhor, pediu afastamento”.

Pedro Guimarães ao lado de Jair Bolsonaro (Isac Nóbrega/PR)

Os assédios: morais e sexuais 

Em maio de 2020, o economista foi acusado de assédio moral por uma funcionária após, em live,esbravejar com os indivíduos envolvidos na transmissão e ameaçar demiti-los por conta de problemas técnicos, o que vai de encontro com o Código de Conduta do banco. No entanto, Caixa optou por engavetar esse caso, tentando evitar uma polêmica que envolvesse a empresa, e consequentemente permitindo que mais atitudes imorais por parte do então presidente continuassem ocorrendo.

O ex-presidente da Caixa, Pedro Guimarães (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Outras situações também vieram à tona recentemente, como as exigências bizarras que Guimarães fazia aos seus funcionários; desde obrigá-los a fazerem flexões em cerimônias públicas até tirar fotos com ele nos corredores do trabalho. As ações imorais de Pedro Guimarães não se restringiram apenas ao local em que ele trabalhava. Uma série de áudios em que ele ofende alguns de seus subordinados foi divulgada no dia 30 de junho, somando-se a sua longa lista de acusações de assédio. 

Essa postura adotada pelo banco, aliada ao receio de muitas mulheres em denunciar o ex-presidente se deve a um machismo estruturado em nossa sociedade que dita a figura masculina como forte e dominante, em que a atitude de humilhar funcionários é vista como forma de impor respeito. Em um dos depoimentos prestados ao Metrópoles, uma das vítimas afirmou que a alta posição de Guimarães intimidava muitas delas. “Se ele tem o poder, você tem que fazer, tem que fazer o que ele mandar, independente do que seja”, disse. 

Cansadas de permanecerem caladas, essas corajosas mulheres foram responsáveis pela abertura de uma investigação que está sendo realizada, sob sigilo, no Ministério Público Federal. Infelizmente, os casos de assédio sexual ainda são recorrentes no Brasil. Uma matéria publicada pelo portal G1, em outubro de 2021, mostra que mulheres foram mais assediadas sexualmente do que roubadas ao se deslocarem pelas cidades no país. Essa problemática situação deve ser revertida o mais rápido possível, e espera-se que os resultados da investigação de Guimarães reforcem a ideia de que há uma punição para esse tipo de crime, independentemente de quem seja o assediador.  

O Metrópoles  

O veículo vem sendo muito falado por conta de suas publicações recentes. No dia 25 de junho, um dos colunistas do jornal, Léo Dias, foi o responsável por colocar no ar uma matéria sensacionalista que buscava garantir o máximo de audiência com a dor de outra pessoa, se esquecendo dos princípios básicos que regem o Código de Ética do Jornalismo. Nesse caso, a vítima foi a atriz Klara Castanho, que entregou uma criança, fruto de um estupro, para a adoção. O processo, que deveria ter sido mantido em sigilo, ganhou uma repercussão nacional, e um dos principais responsáveis por esse feito foi Dias, com seu furo de reportagem antiético. 

A matéria que expôs o ex-presidente da Caixa foi o bastante para manter o Metrópoles na boca do povo. Muitos se sensibilizaram com os relatos apurados. O portal, que durante alguns dias, após o episódio de Castanho, foi considerado como fonte de fofoca e um péssimo jornal, voltou a cair nas graças de alguns após ter feito o mínimo: divulgar informações de interesse público de forma honesta e bem apurada.

Manchete da matéria que expos Guimarães (Portal de notícias Metrópoles)

Muitos tratam a mídia como uma espécie de “Quarto Poder”, capaz de influenciar pessoas e até mesmo derrubar indivíduos poderosos; considerados por muitos, intocáveis. A história mostra que, talvez, seja mesmo, em determinados momentos. Desde a queda de Richard Nixon, em 1974, após o The Washington Post relatar o caso de espionagem de Watergate até a resignação de Guimarães.  

As chances de que Pedro Guimarães permanecesse em seu antigo cargo caso inúmeras denúncias não tivessem vindo à tona publicamente são altíssimas. Afinal, como já foi mencionado, os boatos sobre sua índole e suas atitudes baixas circulavam frequentemente pelos corredores da Caixa e atitudes não eram tomadas. E não porque não havia provas suficientes para sustentar um caso, mas sim porque um homem branco e poderoso consegue ter seus erros relevados muito mais facilmente do que a maioria das pessoas.

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