Entre a cozinha e o quarto de empregada: a representação de trabalhadoras domésticas no audiovisual

Desumanizadas e em segundo plano, as domésticas da televisão e do cinema refletem dramaticamente a experiência de milhares de mulheres que exercem a atividade em lares por todo o país

Por Luiz Oliveira

A novela Laços de Família, exibida pela TV Globo nos anos 2000, teve uma enorme repercussão e sucesso. A história de Helena e sua filha Camila, respectivamente interpretadas por Vera Fischer e Carolina Dieckmann, ganhou o coração dos brasileiros. No entanto, há uma personagem que teve destaque não pelo protagonismo, e sim pela frase marcante: “Cafezinho, dona Helena?” A responsável por proferir essas palavras era a trabalhadora doméstica Zilda, papel defendido pela atriz Thalma de Freitas. Na trama de Manoel Carlos, a personagem não tinha nenhum contexto, a sua única função narrativa era servir de apoio para as histórias dos patrões brancos. A maneira como o autor escreveu a personagem foi questionada por parte do público, recentemente, após a reexibição da novela no Vale a Pena Ver de Novo, em 2021. 

Nas redes sociais, a audiência criticou o fato de Zilda ter poucas falas; ser visivelmente explorada pela família; não ter horário fixo; além de ficar responsável por todas as atividades da casa como cozinhar, limpar e fazer compras. 

A história de Zilda é apenas um dos exemplos de representações de trabalhadoras domésticas em novelas, filmes e seriados brasileiros. Destinadas ao segundo plano, as personagens, de algum modo, refletem dramaticamente a experiência de milhares de mulheres que exercem a atividade em lares por todo o país. 

    Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (Pnad) de 2018, o Brasil é o país que mais tem trabalhadoras domésticas no mundo, cerca de 6,2 milhões de pessoas exercem a profissão,  92% sendo mulheres e, entre elas, 68% negras. 

Para compreender esse cenário em que se vive as trabalhadoras domésticas nos meios de comunicação audiovisuais e na vida real, é necessário olhar para trás, mais precisamente para o processo histórico em que o Brasil foi construído: a colonização. 

O período colonial deixou sequelas latentes e intrínsecas na realidade de milhares de pessoas que habitam neste país, com destaque para as mulheres negras. De acordo com a filósofa e escritora Lélia Gonzalez, no artigo Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira, publicado na  Revista Ciências Sociais Hoje em 1984, “cabiam a elas os papéis de trabalhadoras braçais no campo, reprodutoras de novos escravos, objetos sexuais de seus senhores e de mucamas que lavavam, passavam, cuidavam dos afazeres domésticos e cozinhavam”, enumerou.

A mucama do passado abriu espaço para a doméstica dos dias atuais. Boa parte das mulheres negras ainda são as responsáveis por limpar, cozinhar, passar e cuidar dos filhos das famílias das classes médias e altas brasileiras. Suas subjetividades são negadas e mascaradas por um pseudo afeto a partir da frase “como se fosse da família”— algo visto na história de Zilda, na novela Laços de Família. 

O principal papel destinado às mulheres negras no audiovisual brasileiro é sintetizado pela escritora bell hooks. A autora ressalta no livro Olhares Negros: raça e representação, publicado pela editora Elefente em 2019, que “mesmo quando a representação das mulheres negras está presente nos filmes, nossos corpos e seres estão lá para servir – aprimorar e manter mulheres brancas como objeto do olhar falocêntrico”, pontuou. 

A reflexão de hooks abre espaço para se pensar em outra personagem emblemática da literatura e televisão brasileira: a tia Nastácia. A cozinheira e babá de Pedrinho e Narizinho, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, está presente na memória afetiva de milhares de crianças ao longo dos anos. Contudo, a representação e descrição pelo autor Monteiro Lobato parte de uma visão racista. 

Lélia Gonzalez descreve que esse ponto de vista aponta para um outro lugar permitido a este grupo a ocupar no imaginário popular. “A outra figura da mulher negra na sociedade brasileira é a mãe-preta, a “bá”, vista pelos brancos como exemplo de amor incondicional pelos filhos das mulheres brancas e que, hoje, representa a figura da babá”. 

Mais um  ponto significativo para a questão da representatividade de trabalhadoras domésticas nos meios de comunicação se refere às oportunidades destinadas a atrizes negras brasileiras. 

    Grandes nomes como Zezé Motta e Taís Araújo já interpretaram ao longo das carreiras personagens domésticas, no entanto, as duas encabeçam um grande grupo de profissionais que têm questionado a maioria dos papéis oferecidos para as mulheres negras. A reflexão parte da premissa pela forma como os autores estão escrevendo essas histórias. 

    Estereotipadas e, na maioria das vezes, sem contextos ou até mesmo falas, as trabalhadoras domésticas na dramaturgia parecem ter uma única função: servir. São poucos exemplos que fogem do habitual e apresentam essas mulheres como protagonistas e plurais. 

    No Brasil, o filme Que Horas Ela Volta?, da diretora Anna Muylaert, protagonizado por Regina Casé, é uma dessas tentativas em se contar uma narrativa a partir do olhar de uma trabalhadora doméstica. No longa, acompanhamos a história de Val, que se muda para São Paulo e vai trabalhar na casa de uma família burguesa branca. 

No entanto, a dinâmica deste ambiente muda com a chegada de sua filha Jéssica. A partir da mistura do drama com toques de comédia, a obra retrata as entranhas de uma sociedade racista e classista que não se diferencia muito da vivida no período escravista. Ao escolher filmar do ponto de vista da doméstica, o público pôde conferir o dia a dia de muitas trabalhadoras do país. 

Em tempos no qual o podcast da Folha de São Paulo, A Mulher da Casa Abandonada, ganha a repercussão por apresentar um crime de trabalho análogo à escravidão de maneira romantizada e fetichista, o caminho ainda parece ser grande para que as trabalhadoras domésticas sejam enfim reconhecidas como seres humanos e não objetos que a única função é servir as vontades de uma branquitude previlegiada e racista.

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