“Viralatismo” à brasileira

Texto da Revista Bula reflete comparação injusta e desconhecimento da história e do mercado audiovisual brasileiro

Por Pedro Sales

Complexo de vira-lata é uma expressão comumente usada para designar a pessoa que reduz ou deliberadamente despreza seu próprio país. No esporte, por exemplo, existe uma resistência nada velada à Seleção Brasileira e uma forte torcida a outras equipes. O termo, inclusive, surge nesse contexto. Nelson Rodrigues, criador da expressão, a usou para criticar os brasileiros que se colocavam em situação de inferioridade após a derrota para o Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950.

Entretanto, o complexo de vira-lata não se restringe aos campos de futebol. Pelo contrário, ainda é comum a crítica à cultura brasileira, à música, à televisão e ao cinema. Em 8 de agosto (de 2022?) , a Revista Bula, que se intitula “o maior site de jornalismo cultural em língua portuguesa”, publicou uma matéria cujo título despreza obras brasileiras em detrimento das argentinas: “6 filmes brasileiros na Netflix que são tão bons, mas tão bons, que parecem cinema argentino”. É claro que essa manchete foi polêmica, rendendo debates acerca da valorização do cinema brasileiro.

Clickbait ou opinião sincera?

A primeira discussão surgiu pela matéria reforçar o complexo de vira-lata ao afirmar com todas as letras uma suposta superioridade do cinema argentino. Contudo, depois os internautas questionaram se a matéria não seria um clickbait. Usar uma manchete polêmica apenas para conseguir cliques e repercussão, mesmo que negativa. 

O clickbait parece ser uma explicação razoável, tendo em vista que outros títulos de reportagens da Revista Bula também são exagerados. Apesar disso, a manchete não é simplesmente caça-cliques, a opinião da jornalista Fernanda Kalaoun é essa.  No início do texto, Kalaoun deixa claro os motivos que a fazem avaliar o cinema argentino como superior, cita desmontes do cinema brasileiro e prêmios que os hermanos conquistaram. Além do Chile, a Argentina é o único país sul-americano a ganhar o Oscar de Filme Internacional, com A História Oficial (1985) e O Segredo dos Seus Olhos (2009).

Mas se prêmio é parâmetro para qualidade, faltou citar a Palma de Ouro conquistada pelo Brasil com O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, o único sul americano a ter  a maior premiação do Festival de Cannes. Para focar no presente, cinco dias após a veiculação da matéria, a brasileira Lúcia Murat ganhou o Leopardo de Ouro, prêmio máximo do Festival de Locarno, na Suíça, com o longa Regra 34. 

Portanto, se esse for o fator que mais diferencia o nosso cinema do deles, é uma comparação pobre e injusta. Um critério melhor seria avaliar investimentos e incentivo à cultura, pois de fato são medidas que representam valorização do audiovisual e sua consequente popularização. 

Debates

Naturalmente, a manchete, de caráter visivelmente polêmico, encontrou um público disposto a debater e apontar os erros na abordagem. Para a bacharel em cinema, na ESPM – Rio, Marina Rodrigues, o texto não expõe a cooperação entre os dois mercados, sendo comum coproduções entre Brasil e Argentina. O professor e crítico de cinema Phillippe Leão fez um vídeo no qual caracteriza o texto como desserviço e destaca a educação artística dos argentinos.

Até mesmo a Netflix, que é base do texto da Revista Bula, se manifestou. A maior rede de streaming do mundo publicou no seu Twitter uma alteração minuciosa do título, valorizando o cinema nacional. “6 filmes brasileiros na Netflix que são tão bons, mas tão bons, que parecem cinema brasileiro”. Em seguida citou os seis filmes destacados e recomendados na matéria. 

Investimento e desmonte do cinema nacional

Desde o início do governo do Presidente Jair Bolsonaro é notável o sucateamento da cultura. Primeiro, foi dissolvido o Ministério da Cultura, que se tornou apenas uma secretaria vinculada ao Ministério do Turismo. Por ela passaram Roberto Alvim, envolvido em uma polêmica com simbologia nazista, e os atores Regina Duarte e Mário Frias. Nesse mesmo período houve também o incêndio da Cinemateca Brasileira. 

Nada disso é novidade, o presidente sempre demonstrou aversão ao incentivo cultural, e ataca frequentemente a classe artística e políticas de incentivo, como a Lei Rouanet. A Ancine (Agência Nacional de Cinema) também sentiu o efeito-Bolsonaro. Segundo os dados da Ancine, o lucro do audiovisual brasileiro foi de R$ 27,5 bilhões em 2019. Apesar do crescimento em relação a 2018, falta transparência do governo na divulgação dos lucros de 2020 e 2021. A inexistência de dados pressupõe a ocultação de uma possível queda em relação aos períodos anteriores. 

O início do governo Bolsonaro, somado à pandemia, representou uma queda vertiginosa em investimentos e, consequentemente, em retornos da indústria audiovisual. Em 2021, com a reabertura de cinemas, os dados disponíveis no site da Ancine apontam que dos quase 900 milhões de reais arrecadados com bilheteria, o público de filmes brasileiros representou apenas 15 milhões de reais, ou melhor, 1,77% do total. Falta, portanto, uma política mais forte da cota de telas, a fim de garantir a exibição de filmes brasileiros no parque exibidor. 

Dados disponíves indicam que o governo insiste em invisibilizar a cultura, ameaça censurar, veta leis de incentivo, com  a chamada Lei Paulo Gustavo, e oculta dados de fomento ao audiovisual. No site da Ancine não existem dados referentes ao investimento na área desde o início do mandato de Jair Bolsonaro. O último relatório avança somente até 2018, quando Michel Temer ainda era líder do Executivo. 

Dessa forma, reconhecendo toda dificuldade que o cinema brasileiro enfrenta nos tempos atuais, é injusto e mal intencionado escrever um texto dando louros da vitória ao cinema argentino. Pior ainda é um veículo de jornalismo cultural fechar os olhos para a realidade tão dura que a indústria cinematográfica nacional vive. E, mesmo depois da polêmica, insistir neste discurso caça-cliques, ao publicar uma nova matéria com manchete ainda mais esdrúxula: “5 filmes argentinos na Netflix que valem 50 anos de cinema nacional”. 

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