José Mayer, BBB e Ísis Valverde: vários lados de machismo num só globo

Por Melissa Duarte

Atos de machismo e de misoginia perpassam gerações e séculos. Vão de assédio a feminicídio, mas também englobam chantagem emocional, humilhação, agressão e estupro. Antes mais permitidos ou escondidos, atualmente, esses fatos são mais noticiados, sobretudo devido aos movimentos organizados e às mídias sociais. Recentemente, vieram à tona dois casos que envolvem a Rede Globo: o assédio de José Mayer contra a figurinista Susllem Meneguzzi Tonani e o relacionamento abusivo de Marcos e Emilly, no Big Brother Brasil 17.

Su, como é conhecida pelos colegas de trabalho, denunciou o abuso na carta “José Mayer me assediou”, publicada no blog #AgoraÉQueSãoElas do jornal Folha de S. Paulo. Nela, conta que recebeu cantadas, teve a intimidade violada, se sentiu humilhada e que relatou a situação à emissora. Num primeiro momento, o ator negou as acusações. “Respeito muito as mulheres, meus companheiros e o meu ambiente de trabalho e peço a todos que não misturem ficção com realidade”, afirmou ao veículo, referindo-se a Tião Bezerra, seu personagem na novela A Lei do Amor (2016-2017).

Porém, após grande campanha nas mídias sociais, sobretudo a “Mexeu com uma, mexeu com todas” de atrizes da Rede Globo, Mayer assumiu a culpa em carta divulgada na revista Veja. Se, antes, não havia sofrido punição, foi suspenso indefinidamente do canal depois de toda a repercussão, sendo retirado, inclusive, de uma novela para a qual se encontrava reservado. Evaristo Costa leu o pronunciamento da emissora durante o Jornal Hoje, na qual ela declara que “se solidariza com a manifestação [das profissionais], que expressa os valores da empresa”.

Sobre o episódio, vale lembrar o caso da suposta traição entre o Ísis Valverde e Cauã Reymond, então marido de Grazi Massafera, durante as gravações da minissérie Amores Roubados, em 2013. Ela, que vinha construindo uma grande carreira na TV Globo – com destaque para as personagens Rakelli, de Beleza Pura (2008), e Sereia, de O Canto da Sereia (2013) –, teve a trajetória bastante abalada. Enquanto Ísis ficou três anos afastada da teledramaturgia, com estigma de “destruidora de lares”, Cauã seguiu interpretando bons papeis na televisão e no cinema.

Paralelamente, o namoro do médico Marcos Harter, de 37 anos, e da estudante Emilly Araújo, 20, no BBB 17, repercute nacionalmente nos últimos meses. O casal vivia uma relação conturbada que ainda divide a opinião popular. De um lado, fãs torcem pelo relacionamento. Do outro, espectadores criticam a diferença de idade, mas, sobretudo, o modo abusivo e machista com que ele a trata.

O abuso foi televisionado e explorado midiaticamente em prol da audiência. Se, mesmo assim, parte da sociedade ainda duvida que o relacionamento seja abusivo e tenta justificar os atos do médico com base no comportamento e na personalidade de Emilly, é impensável a situação de quem tem menos provas numa situação parecida. O participante foi expulso somente após a Delegacia da Mulher instaurar inquérito com base na Lei Maria da Penha e apoio da família da estudante.

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Arte sobre violência contra a mulher. Créditos: Não me Kahlo.

O que começou como conto de fadas evoluiu para inferiorização, chantagem emocional, agressão verbal e física. Nas palavras de Emilly, corroboradas pelas câmeras, Marcos apertou-lhe o pulso e beliscou o braço. Além disso, julgam-na por sofrer, defender e tentar justificar atos do agressor. No entanto, é falta de empatia não compreender que a reação dela, infelizmente, é normal: o envolvimento afetivo pode iludir que a violência é passageira ou um rompante de raiva – porém, não é e nada a justifica. A culpa, que jamais é da vítima, e a dependência emocional advém desses fatos.

É importante ressaltar que outros casos de violência à mulher já ocorreram na atração, como mostra o jornal Estadão. Um dos mais famosos é o do tatuador Laércio de Moura, do BBB 16, que assediou uma integrante do programa e admitiu estuprar uma garota de 16 anos, crime pelo qual foi preso nesse ano. Também nessa edição, a participante Ana Paula Renault foi expulsa após dar dois tapas no colega Renan. Se agressão não é apenas física, por que a mesma punição não foi aplicada imediatamente a Marcos?

No campo da comunicação, discute-se se a mídia reflete a sociedade ou o contrário. Todavia, é fato que a primeira trata os casos de Mayer, de Marcos e Emilly e de Ísis com pesos distintos. A suposta traição da atriz, solteira na época, recebeu ampla condenação da sociedade ao passo que as atitudes masculinas foram menos rechaçadas e a veracidade dos fatos, inclusive, discutida. Felizmente, a pressão popular, em especial via Twitter e Facebook, contribuiu para a penalização de ambos.

Para finalizar, algumas reflexões. O fato da carta de Susllem Tonani ter sido divulgada num blog da Folha de S. Paulo, depois, excluída – e republicada – e a de José Mayer, na revista Veja tem algo a dizer sobre os veículos? Além disso, mesmo com mobilização popular, o caso terá tanta influência negativa na carreira do ator sexagenário quanto na de Ísis, com o suposto relacionamento com Cauã? Quais os motivos para relações abusivas serem tidas como normais? Por fim, por que a emissora trata com pesos diferentes casos parecidos?

Arte de capa por Grazi Jardim

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