Jornalismo no front de batalha: vários lados da guerra política

Por Luísa Bretas e Melissa Duarte

O Brasil parou. Na última semana, foi revelado o áudio da conversa do dono da JBS Joesley Batista Sobrinho e do Presidente Michel Temer (PMDB), gravado pelo próprio empresário. A empresa é uma das maiores indústrias alimentícias do mundo e dona das marcas Friboi, Seara e Big Frango. O conteúdo do áudio, prejudicado por ruídos e chiados, revela que Temer estava ciente de esquemas — mais do que isso, concordava com eles — como compra de juízes e pagamentos pelo silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB).

O povo brasileiro, mais uma vez, se indignou. Alguns reforçaram a ideia de golpe, outros se mostraram insatisfeitos com os políticos em geral, defendendo que são todos “farinha do mesmo saco”. Ainda tiveram aqueles que focaram em Temer ao relembrar que ele era da chapa Dilma-Temer. E como reagiram os jornais?

A revista Carta Capital divulgou a notícia e, nela, afirmou que Temer comprou o silêncio de Cunha. O crédito foi dado ao jornal O Globo, o qual divulgou a notícia do áudio em primeira mão na coluna do jornalista Lauro Jardim. Além de contar como foi feita a gravação e a compra de silêncio, a matéria também traz o conteúdo sobre o ex-senador Aécio Neves (PSDB), na qual o ex-candidato à Presidência combina a entrega de propina e ameaça matar alguém. No entanto, o áudio em si só foi divulgado posteriormente.

Já a revista Veja trouxe, na capa de sua edição, texto em repúdio à situação da atual política do País, na qual alega que brasileiros honestos não merecem esse tipo de “desfaçatez”, nas palavras do próprio veículo. Na TVEJA, um vídeo de 13 minutos fala sobre a última edição da revista. O parágrafo explicativo abaixo dele fala sobre um especial de mais de 30 páginas falando sobre o conteúdo do áudio que traz revelações sobre Temer, a quase prisão de Aécio Neves e o fato de que Dilma Rousseff e Lula, ambos do PT, mantinham 150 milhões de dólares em conta no exterior.

No portal da Veja, há matéria sobre a “queda de Aécio”que traz a “pior semana da vida” do ex-senador. Comentam, também, a preocupação dele com a prisão da irmã e o alívio pelo fato de a esposa e os filhos gêmeos não estarem em casa durante esse caos. Há, ainda, um texto do jornalista Reinaldo Azevedo, que afirma que a gravação foi ilegal e a delação feita por Joesley deveria ser anulada.

Como não é a primeira vez que a política brasileira se envolve com revelações escandalosas feitas por gravações, voltamos a março de 2016 com o grampo da conversa telefônica de Dilma e Lula. A Carta Capital deu a matéria com o viés de que a gravação não tinha autorização legal e não poderia ter sido feita, visto que aconteceu após o juiz Sérgio Moro suspender as escutas.

A Veja trouxe a manchete “Grampos revelam golpe de Lula e Dilma contra Lava Jato, e multidão volta às ruas”. A matéria declara que as gravações foram autorizadas por Moro e que provavam que a então Presidenta Dilma Rousseff tinha mentido a respeito da indicação do ex-presidente Lula para ministro da Casa Civil.

Nas matérias de ambos os veículos, os quais possuem posicionamento político definido, é possível observar diferença de tratamento nos dois momentos da política que pode ser resumido em ataque e defesa. Quando Dilma era Presidente, as gravações foram realçadas como ilegais pela Carta Capital e como golpe contra a Lava Jato pela Veja.

Já no áudio recente da conversa de Temer, o qual revela, também, ação de Aécio para tentar acabar com a Lava Jato, a Carta Capital trouxe a fonte d’O Globo e o conteúdo do áudio. A Veja, por sua vez, trouxe a opinião de Azevedo com anulação da delação e a matéria sobre Aécio, sem mencionar a palavra “golpe”, com tom mais pessoal sobre a preocupação dele.

Diante de uma situação delicada e polêmica que envolve diversos partidos e diretrizes da política brasileira, os veículos jornalísticos não podem ser parciais desta maneira por mais que possuam posicionamento político. O ataque à oposição é com palavras fortes como “golpe” e o tom, suavizado quando o alvo torna-se seu ex-candidato. Assim, não é ideologia que se passa, mas falta de credibilidade.

O jornal francês Le Monde Diplomatique trouxe, na manchete, o nome de Michel Temer desonrado pelas revelações. O veículo acredita que os dias do Presidente estão contados e frisa um possível agravamento das crises política e econômica que o País passa, desde 2014, com o surgimento e evolução da Lava Jato.

Considerado por algumas pessoas um gênio do crime, os delitos de Joesley seguem pouco explorados pela mídia. Até a última edição do Fantástico (21), as matérias sobre o caso focavam majoritariamente nos atos de corrupção de Temer, Aécio e demais políticos em detrimento do preparo dos irmãos Batista para o escândalo que se instaurou no País. Antes vistos como uma espécie de heróis, agora passam a ser, finalmente, enxergados como criminosos.

Desde o início da delação, no fim de março, eles venderam grande parte das ações da empresa, compraram grandes quantias em dólares porque sabiam que a crise política brasileira valorizaria a moeda e vem buscando maneiras de transferir a empresa para os Estados Unidos. Mesmo assim, foram os únicos delatores a assinar acordo de imunidade com o Governo — o empreiteiro Marcelo Odebrecht, por exemplo, pode ser condenado a até 30 anos de prisão.

A multa recebida é bem inferior aos ganhos com a valorização do dólar. Há a possibilidade, ainda, de os irmãos Joesley e Wesley Batista serem condenados por esse enriquecimento ilícito nas varas cível e criminal no Brasil e nos EUA. A ideia que fica, entretanto, é a de que o crime compensa.

Vale lembrar, ainda, que a Operação Carne Fraca foi deflagrada em 17 de março, poucos dias antes do início da delação. A Polícia Federal (PF) investigava a má qualidade de carnes brasileiras e as empresas do grupo JBS se encontravam no processo. Fontes oficiais informam e fornecem argumentos de que essa investigação não tem a ver com a delação dos irmãos Batista. Todavia, é, no mínimo, curioso que ambas tenham ocorrido tão próximas uma da outra. Uma das poucas reportagens que relaciona as duas e visa esclarecer os fatos é a do jornal Zero Hora.

Infelizmente, o Brasil se encontra polarizado na formação esquerda versus direita e os jornais não deveriam incentivar esse fato, mas trazer notícias e passar informações como realmente são, prezando sempre pela imparcialidade. Ainda mais quando se tratam de escândalos e envolvimentos de toda a conjuntura atual da política brasileira, sem lado, sem ideologia, sem partido, todos se encontram envolvidos.

Um comentário sobre “Jornalismo no front de batalha: vários lados da guerra política

  1. Yvana Bretas Christino disse:

    Parabéns , jornalistas Luisa Bretas e Melissa Duarte sobre o texto do dia 22 de maio/2017 sobre a situação política que atravessa nosso país ! Esclarecedor , tendo como principal fonte a sintese de diversas informações, fazendo com que o leitor finalmente possa compreender realmente os fatos e fazer um julgamento pessoal. Enriquecedor para quem tenta acompanhar a enxurrada de notícias. Jornalismo, de fato, é sem dúvidas, a imparcialidade! Mais uma vez, parabéns pela brilhante matéria!!!

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