Política das 21h

por Pollyana Fonseca

Vida pessoal dos políticos é passada para o horário nobre.

O que muitos jornais precisam e procuram é ter visibilidade, chamar a atenção do público. Na era digital, em que likes e visitas fazem a diferença, fofocas se tornam o tema principal. A tentativa de converter escândalos políticos em roteiros de filme, ou usar a vida pessoal dos envolvidos como pauta, é uma situação comum. Tão comum que praticamente todos os veículos se valem esse tipo de notícia, cheia de comparações e trocadilhos.

Joesley Batista, um dos donos da JBS e réu no processo da Operação Lava Jato, é o novo protagonista do drama da mídia. Na terça-feira (05/09), um áudio do STF mostrou uma conversa entre Joesley e Ricardo Saud, diretor de relações institucionais do grupoO conteúdo era a vida pessoal e sexual do empresário. A notícia saiu em, pelo menos, cinco dos maiores jornais do país e mostrou, com detalhes, todo o material do áudio, narrado, na maioria das vezes, como o roteiro de um livro.

Nas quatro horas de áudio, as únicas partes importantes para o jornalismo que o publicou, de toda a conversa, foram: o relacionamento do empresário com a jornalista Ticiana Villas Boas, os casos extraconjugais e gostos sexuais. No entanto, o que a mídia está tentando fazer, qual a relevância das preferências sexuais de Joesley, o que faz desse assunto algo tão importante para ser uma pauta?

Quando a mídia traz partes da vida pessoal de Joesley, o torna um personagem, alguém que tem uma vida interessante para ser seguida, assim como faz com os artistas. Transforma toda a narrativa em uma história para que o público queira saber o que vai acontecer nos próximos capítulos. A operação da polícia se converte em uma novela de horário nobre.

O valor notícia, nesse momento, é aquilo que vai causar alarde, tirar o foco da investigação e das acusações sobre Batista, ao mesmo tempo em que reforça os estereótipos de gênero ao mostrar a relação tradicional e desigual que ele mantém com a esposa e, ainda, do que é ser homem branco e rico na sociedade, alguém poderoso e controlador, que não tem medo de ser penalizado.

Um exemplo desse fenômeno foi a notícia postada no portal Terra. O texto compara atitudes de Batista com as de Frank Underwood, personagem da série House Of Cards, e mostra como ambos podem ser parecidos na maneira de agir e de posar para fotos. A série, sucesso da Netflix,  e a correlação com a vida real fazem com que Joesley Batista se torne um ícone da cultura pop.

Mas qual o problema? O problema é que a mídia tem o poder de agendar e interferir no que a sociedade pensa, além de disseminar opiniões e posições políticas. Sendo assim, a imagem de vilão hollywoodiano passada por Joesley carrega um “charme atraente” para o público, que escolherá entre amá-lo e odiá-lo. E claro, devido a sua maior exposição, ele será o maior responsável e lembrado entre os vários indiciados na Lava Jato.

O dever do jornalista é saber o que é ou não relevante para a sociedade e, mais do que nunca, o momento político que o país está passando, pede profissionais treinados e capacitados para tal. Da sociedade, que consome diariamente o produto do jornal, é dever ter um olhar crítico sobre o que está sendo informado. Caso contrário, as notícias se tornarão apenas relatos de crônicas, fofocas da semana ou a próxima novela das 21h.

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