Trump racista, mídia conivente

Por Ronayre Nunes, especial para o SOS Imprensa

Por mais que tenha atitudes preconceituosas, Donald Trump, dificilmente, é designado como tal nos meios de comunicação. Dentre os motivos, três se destacam: política de apaziguamento por parte da imprensa, cortina nacionalista abordada por ele e correção por “traço de personalidade” também realizado pelos veículos de comunicação. Tais razões indicam uma complexa estruturação midiática. E, definitivamente, merecem mais atenção social.

Entenda

De acordo com o dicionário brasileiro Aurélio, o significado de racismo se refere a uma forma de autodelimitação de superioridade perante uma determinada característica, mais especificamente trata-se de um “Sistema que afirma a superioridade de um grupo racial sobre os outros, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país (segregação racial) ou mesmo visando o extermínio de uma minoria”.

A essência da palavra é, geralmente, carregada de muito peso e seu uso requer cuidado — principalmente pelos meios de comunicação de massa. Mas será que esse receio ultrapassou os limites?

Donald J. Trump é o responsável por representar uma das maiores nações do mundo, os Estados Unidos da América. Entre muitos tuítes e ataques, seu racismo parece ganhar cada vez mais espaço de legitimação na cobertura midiática, dado — principalmente — a falta de análise crítica sobre o que elas realmente são. Veja alguns exemplos:

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Mudança de foco. Trump transforma protesto contra discriminação policial norte-americano em um símbolo antinacionalista.

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Deixando todo o contexto racial de lado das manifestações em Charlottesvile, o presidente se limitou a defender o fim da violência

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Em uma verdadeira guerra contra os protestos no campo de futebol, Trump convoca a população a ficar do seu lado

Em agosto, um protesto silencioso — ficar de joelhos durante o hino nacional, antes de uma partida — por parte de jogadores de futebol americano, contra a violência policial racial que acontece no país, foi suficiente para acender o estopim já curto de Trump. O presidente reagiu de uma forma abusiva: “Já imaginaram se os grandes chefões da NFL [Liga de futebol americano] demitissem esses ‘filhos da p*’ que se ajoelham durante o hino?”, defendendo, ainda, que a situação tinha “nada a ver com raça”.

Mais do que um comentário absurdo saindo da boca de um presidente, o xingamento toma proporções preocupantes, quando analisada a situação em um panorama geral. Ainda em agosto, outro desafio de Trump foi lidar com a violência gerada por um protesto neonazista, e seus respectivos opositores, que ocorreu em Charlottesville, Virgínia.

Afirmando que os dois lados do protesto eram constituídos por “algumas pessoas muito boas” (“very fine people”, no original, em inglês), o presidente norte-americano assinou um atestado pela proteção dos defensores de uma supremacia branca, que ganharam, publicamente, respaldo governamental. Por mais que o exemplo dos dois eventos possa ser definido como racista, dificilmente você verá essa palavra nos jornais. Por quê?

Essencialmente, por três razões em especial. A primeira é designada por uma ostensiva política de apaziguamento entre ações de Trump e o que pode ser considerado como extremista. A mídia parece encarar o uso da palavra como declaração de guerra a uma figura tão poderosa. Por isso, adiam a exposição dessa verdade em prol de uma possibilidade de melhor conduta, o que se mostra cada vez mais longe de uma realidade possível.

O segundo motivo, também associado ao primeiro, se aplica ao esconderijo nacionalista que o presidente usa para se defender. Tanto no contexto de Charlottesville, quanto na NFL, Trump disfarçou seus atos racistas nos discursos sobre o que era melhor e mais respeitoso para a comunidade norte-americana.

Noutras palavras, respeitar o direito de protesto que faz a democracia daquele país aparentemente tão sólida, no primeiro caso, e o hino nacional, como forte símbolo de devoção a pátria, no segundo. O presidente, em síntese, usa a bandeira nacionalista para encobrir atitudes que poderiam ser designadas como racistas, abrindo uma perigosa porta para que tudo que fosse dito contra seu discurso pudesse ser considerado como anti-americano.

A terceira justificativa se encontra na assustadora razão de caracterizar tais ações como naturais à sua personalidade. Usar a frase “conhecido por suas polêmicas declarações” para se referir a ele é o mesmo que justificar suas ações racistas como “parte de quem ele é” e que, por isso, – supostamente – devesse ser respeitado. Ou seja: um absurdo.

Entender essas razões, mesmo que num contexto internacional, é importante, pois aponta o quanto os veículos de comunicação ainda se abstêm de uma importante discussão racial, fundamental aos dias atuais.

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