Made in Clichés

A apresentação de Paris sob uma ótica estadunidense para um público norte-americano

Por Ingrid Ferrari e Layla Abdon

Uma garota americana sai de sua cidade natal rumo ao desconhecido em um país diferente. Trabalhando em uma grande empresa, ela descobre um novo mundo entre suas experiências na cidade. Assim é a trama de muitos filmes e séries de comédia romântica e é também o enredo de Emily in Paris, nova série da Netflix.

A protagonista, Emily (Lily Collins), mesmo não dominando o idioma nativo, é enviada por sua empresa para trabalhar em um escritório de marketing para produtos de luxo na capital francesa. Seu principal papel na nova função é fornecer um “ponto de vista norte-americano” para a firma.

Apesar de ter feito muito sucesso e ter alcançado o primeiro lugar entre os mais vistos da Netflix, a imprensa francesa não recebeu a série com bons olhos e ficou ofendida com o conjunto de estereótipos retratados. De acordo com o crítico Charles Martin, em texto da Revista Première, “(Na série) aprendemos que os franceses são ‘todos maus’, que são preguiçosos e nunca chegam ao escritório antes do final da manhã, que são paqueradores e não estão realmente apegados ao conceito de lealdade, que são sexistas e retrógrados e, claro, que têm uma relação questionável com o banho”.

Além de seu emprego, Emily também cria um Instagram e se torna uma influencer postando fotos e momentos de sua vida em Paris, retratada superficialmente, à típica maneira das mídias sociais, tanto em seu perfil quanto no enredo. Em cenários como um café e a Torre Eiffel, todos os clichês foram representados: desde as roupas extremamente luxuosas à baguette embaixo do braço.

Essa construção de estereótipo não é algo incomum. Outras nacionalidades, em sua maioria de países pobres ou em desenvolvimento, sentem na pele há anos essa representação estereotipada. As produções estadunidenses e de Hollywood usam em diversos filmes,  principalmente o estereótipo latino, visto que é a minoria étnica mais significativa presente no país, constituindo 18% da população dos EUA. Desde as vestimentas até o sotaque forçado, o sex appeal é a caricatura estereotipada do latino, como por exemplo o papel de Sofia Vergara na série Modern Family ou Eva Longoria no seriado Desperate Housewives. O grande problema desta representação da latina sexy é que nega a muitas latinas sua identificação cultural, baseando-se apenas na sua aparência física e sexual, negando seus valores éticos e culturais. 

Apesar de essa questão sempre ter estado presente nos filmes que retratam países pobres ou em desenvolvimento, não é de se surpreender que esta pauta tenha maior visibilidade agora que chegou à Europa. No contexto atual, com o domínio norte-americano, pode-se perceber uma despreocupação em retratar de forma fidedigna a cultura francesa e isso pode ser notado pela maneira como Emily, com seu lema “Fake it till you make it” (Finja até conseguir, em tradução livre),  demonstra esperar que todos saibam falar inglês. 

Além da representação estereotipada dos franceses, pode-se perceber que existe uma arrogância na personagem de Emily, ao acreditar que sempre está certa em suas estratégias no trabalho e atitudes pessoais, considerando o modo de pensar francês como ilógico. Como por exemplo, ao querer ensinar um chef como se prepara uma carne, sob a perspectiva norte-americana de que o “cliente está sempre certo”. Colocando, assim, a visão americana sempre acima, até mesmo, da própria cultura do país onde ela é uma estrangeira.

Por outro lado, algo não tão discutido pela crítica, talvez por ser uma produção norte-americana, é que a série corrobora com a popularização da ideia de que os americanos são arrogantes, superficiais, alienados e só pensam em trabalho. O ator Lucas Bravo, que dá vida ao ao personagem Gabriel, defende o modo de pensar dos franceses, mas contrapõe que seria impossível mostrar todas as versões de Paris: Eles não entendem o fato de que (a série) é apenas uma visão. Eles estão tipo, ‘Oh, isso não é o que Paris é’. Claro. Paris é muitas coisas. 

É também indiscutível que a metrópole francesa abriga grande diversidade étnica e cultural, sendo, assim, uma tarefa árdua, ou até inatingível, representá-la por inteiro em uma só narrativa. Ainda sim, é importante identificar e ter um olhar crítico sobre fórmulas audiovisuais unidimensionais e generalizadoras a fim de proporcionar uma identificação por quem é representado e não alimentar preconceitos daqueles que consomem.

A visão de um estrangeiro nunca será a mesma de um nativo. Seja no turismo, nas redes sociais ou em um produto cultural. O estereótipo surge da falta de conhecimento profundo, do senso comum, de uma imagem pré-concebida e coletivizada. Para representar uma cultura, é necessário mais do que conhecer certos pontos turísticos da cidade e falar meia dúzia de palavras de um certo idioma. “Bonjour” e “Comment ça va?” (“Bom dia” e “Como vai?”, em tradução livre) não são suficientes. A França é mais que Champagne e Camembert, bem como o Brasil vai além de carnaval e futebol. 

Compreende-se a dificuldade de mostrar todas as possibilidades que a cidade oferece, mas é interessante pensar que ao retratar uma cultura, deva-se mostrar além do trivial. Ou talvez esta visão não seja tão vendável assim…

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