Debate sobre a violência contra a mulher entra em campo

Processo envolvendo Robinho ascendeu a discussão sobre a cultura do estupro e futebol, mas outros casos de agressões ficaram nos bastidores

Por Júlia Mano, Keity Naiany e Nicolau Ferraz

Na tarde do dia 10 de outubro, o Portal UOL publicou a notícia “Santos aguarda ‘ok’ do Conselho Fiscal para anunciar contratação de Robinho”. O clube estava prestes a comunicar a volta do ex-atacante da seleção brasileira e ídolo da torcida. 

Algumas horas depois, o perfil do time no Twitter oficializou o acordo por meio dos slogans “O Pedalada está de volta” e “The last Pedal” — uma alusão à série documental The Last Dance, sobre a última temporada de Michael Jordan no Chicago Bulls. 

(Reprodução: Twitter)

No entanto, o jogador está condenado a nove anos de prisão na Itália pelo crime de estupro. A decisão, que ainda está na primeira fase, foi tomada em 2017. Apesar dos problemas judiciais do atleta, o Santos tratou a contratação como a volta de um ícone, o “menino da vila”, que teria sua quarta passagem pelo time de coração e aceitou receber um salário simbólico de R$ 1.500 por mês, além de um bônus de R$ 300 mil após dez partidas. 

Por outro lado, logo após o anúncio oficial, o assunto repercutiu negativamente pelas redes sociais e na mídia esportiva. Diversos jornalistas se posicionaram a respeito do caso — tanto em perfis pessoais quanto em colunas. Mas o tema ainda dividia o público: apesar da condenação, muitos internautas comemoraram a chegada do atleta e enfatizaram a ausência de provas definitivas contra Robinho. 

A apresentadora do Esporte Interativo Taynah Espinoza expôs os posicionamentos contraditórios do Santos (Reprodução: Instagram)
(Reprodução: Twitter)

No domingo, 11, o presidente do Santos, Orlando Rollo, concedeu uma entrevista exclusiva à Folha de S. Paulo, na qual chamou a reação do público de “dor de cotovelo”. Além disso, afirmou:

“Quem somos nós para atirar pedra no Robinho?”

A advogada de defesa do jogador, Marisa Alija, publicou um vídeo de esclarecimento no Instagram. Em sua declaração, ela reiterou o fato de que o processo na Itália ainda estava em fase inicial e disse que a imprensa brasileira, de forma sensacionalista, espalhava versões imprecisas sobre o caso.

Na quarta-feira, 14, o clube perdeu o seu primeiro patrocínio. A Orthopride, empresa da área de ortodontia estética, anunciou o seu rompimento com o Santos Futebol Clube por causa da nova contratação. O diretor de operações da empresa, Richard Adam, informou ao ge (antigo globoesporte.com) que eles tinham um público predominantemente feminino e em respeito a elas, não poderiam continuar apoiando o time. O contrato findaria em fevereiro de 2021.

Depois da repercussão negativa e sem pronunciamento oficial, na noite da quarta-feira, o Santos publicou uma nota de esclarecimento à torcida em seu site. Nela, afirmou que: o processo corria em segredo de justiça na Itália; e, que ainda não há uma condenação definitiva – pois a ação ainda deve ser tramitada em segunda instância.

Por esses motivos, o clube disse que não daria uma sentença a Robinho ou o impediria de exercer a profissão. Além disso, enalteceu como a instituição sempre foi inclusiva, socialmente responsável e engajada em diversas causas. Porém, a declaração foi finalizada com uma crítica à repercussão negativa da contratação do jogador.

Infelizmente vivemos na era dos cancelamentos, da cultura dos tribunais da internet e dos julgamentos tão precipitados quanto definitivos, porém há a certeza que o torcedor do Santos FC entenderá que compete exclusivamente à Justiça realizar o julgamento.”

Após alegações de falta de provas a respeito do ocorrido, o ge publicou na sexta-feira, 16, uma matéria que trouxe reviravoltas fundamentais para o caso. A reportagem “As gravações do caso Robinho na justiça italiana: ‘A mulher estava completamente bêbada’” traz trechos exclusivos sobre a sentença judicial, incluindo a transcrição dos grampos feitos pela polícia durante o processo de investigação. 

No texto divulgado, o portal do Grupo Globo, que teve acesso ao conteúdo por meio da própria corte italiana, mostrou detalhes de uma conversa entre Robinho e Ricardo Falco, amigo pessoal do jogador, em que fica evidente a participação de ambos, junto a outros quatro homens, no ato de violência sexual contra uma jovem albanesa em uma boate em Milão. O acontecimento se deu na madrugada do dia 22 de janeiro de 2013, na boate Sio Café.

Para a justiça italiana, as escutas são auto-acusatórias, sendo assim, suficientes para a condenação dos envolvidos. Apesar da quantidade de evidências, o atleta se diz inocente e afirma que o ocorrido entre ele e a vítima foi “consensual”. Em uma outra conversa, Robinho disse para Jairo Chagas, músico que tocou na boate na noite do crime: “Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu.” 

O jogador foi condenado com base no artigo “609 bis” do Código Penal da Itália, que diz: “Qualquer um que, com violência ou ameaça ou mediante abuso de autoridade, obriga outro a ter ou sofrer atos sexuais é punido com a reclusão de cinco a dez anos. Quem induz alguém a ter ou sofrer atos sexuais está sujeito à mesma pena.”

A matéria também informou detalhes da noite do crime, dos depoimentos da vítima e até dos principais recursos jurídicos utilizados na condenação em primeira instância. Logo após a publicação da reportagem, o caso explodiu e se tornou um dos assuntos mais falados no Brasil. O teor das falas de Robinho chocou o público, e a mídia, em diferentes esferas, passou a atacar o jogador e a pressionar o Santos. A defesa se manifestou com o mesmo discurso do dia 10.

Uma das falas de maior repercussão foi a do comentarista da Globo, Walter Casagrande. Na edição de sexta-feira do Globo Esporte de São Paulo, o ex-jogador deu uma declaração forte sobre o contexto:

“Eu fico assustado com o que acontece no Brasil. O Brasil solta traficante, o vice-líder [do governo] é preso com dinheiro na cueca, a Carol Solberg, por se manifestar politicamente, a CBV (Confederação Brasileira de Voleibol) faz censura, e o Santos contrata um jogador que é condenado por estupro”

Casagrande criticou Robinho e disse que “não aceita qualquer sacanagem” — referência à música “Bola de Meia, Bola de Gude”, de Milton Nascimento (Imagem: TV Globo)

Já as falas do também ex-jogador e comentarista da Globo Caio Ribeiro repercutiram nas redes sociais de forma oposta. Em edição de sexta-feira do programa Tá na Área, da SporTV, ele relativizou a situação do jogador por não haver condenação definitiva. “Acho que todo mundo merece o benefício da dúvida”, afirmou.

Após toda a pressão da mídia, da opinião pública e da própria torcida, conselheiros e parceiros do Santos exigiram a suspensão do contrato — inclusive a Philco, principal patrocinadora. Na noite da sexta-feira, o clube e Robinho anunciaram o fim do acordo entre eles.

Porém, certa parcela do público nas mídias sociais continuou demonstrando apoio a ele, ainda sob alegação de falta de provas. No sábado, 17, em edição do programa Aqui com Benja, da Fox Sports, o apresentador Benjamin Back deu espaço ao jogador para se manifestar sobre as acusações. Apesar de tentar manter imparcialidade sobre o tema nas perguntas, no fim o entrevistador não se conteve e mostrou que acredita na versão dita pelo atleta, sob o argumento de que cabe ao público decidir em qual versão deveria confiar. Além disso, comparou o caso de Robinho com a falsa acusação de violêncua sexual feita por Najila Trindade a Neymar e citou a denúncia de estupro envolvendo Cristiano Ronaldo. Nesse último processo, foi feito um acordo com a vítima, que o denunciou por forçá-la a ter uma relação sexual em 2009. Ele deu declarações de que era inocente. Mas, para os seus advogados, o atual atacante da Juventus admitiu que a modelo agredida disse “não” e “pare” durante o ato. O Extra noticiou esse fato em: “CR7 admitiu aos advogados que mulher que o acusou de estupro disse ‘não’ e ‘pare’, diz jornal”.

Robinho concedeu entrevista a programa da Fox Sports (Reprodução: Facebook)

Comparações ao presidente e ataques à Globo

Ao longo do programa, Robinho falou que a sua situação se assemelha à do presidente Jair Bolsonaro por “sofrer ataques sem provas”. Em áudios vazados no dia anterior, 16, ele já havia se comparado ao presidente ao mencionar a cobertura da Globo nas eleições de 2018. Além disso, também afirmou, antes do anúncio da suspensão do contrato, que os ataques não o afetavam pois a emissora dá “muita ênfase a coisa negativa”.

Contudo, mesmo com a demonstração de apoio ao atual governo por parte de Robinho, o presidente não se manifestou sobre o caso. Já a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos — Damares Alves — afirmou nesta segunda-feira, 19, que defende “cadeia imediatamente” para o jogador. Ela declarou que “nenhum estuprador pode ser aplaudido” e citou a transcrição dos áudios que o ge divulgou.

Na noite anterior, o Fantástico exibiu os detalhes do caso e como a polícia italiana fez a investigação. Ao fim da reportagem, a apresentadora Poliana Abritta respondeu à declaração de Robinho lamentando a existência do feminismo. “Eu digo, ainda bem que existe (o movimento feminista)”, afirmou. 

De maneira oposta, a apresentadora do Fala Brasil, Carla Cecato, disse ser comum situações em que jogadores de futebol se reúnem com garotas de programas para a prática de orgias. A jornalista da Record afirmou que é difícil saber até onde poderia ou não ter sido acordado. Segundo ela, “essas mulheres vão a esses encontros sabendo que passarão na mão de vários homens, até por isso cobram mais caro”. Cecato ainda reforçou que tinha o direito de falar por ser “jornalista e mulher”, mas declarou não pactuar com o jogador.

Casos de violência contra a mulher no futebol

O atual técnico do Santos, Cuca, já foi condenado por estuprar uma menina de 13 anos na Suíça. O caso aconteceu em 1987. Na época, ele jogava pelo Grêmio e foi detido por 28 dias no país junto a outros três companheiros de equipe: Henrique, Fernando e Eduardo, que também participaram da violência contra a menor. Dois anos depois da denúncia, em 1989, a justiça suíça condenou os quatro jogadores, mas a pena foi cumprida em liberdade. 

No ano passado, o site Jornalistas Livres publicou uma matéria sobre o fato: Cuca, técnico do São Paulo, foi condenado por estupro na Suíça. Nela, é apresentada uma reportagem, de 1989, das professoras e antropólogas Mirian Grossi e Carmen Rial sobre a recepção dos acusados em Porto Alegre, após a liberação deles para retornar ao Brasil. Sob o título “Os estupradores que viraram hérois”, o jornal feminista Mulherio expõe o quão errado é idolatrar homens que cometeram um ato de violência. Além disso, nos mostra que esse debate é antigo e está longe de chegar a uma solução.

Depois do anúncio da contratação de Robinho, a jornalista Lívia Laranjeira publicou uma reportagem no ge expondo que há outro jogador condenado por violência contra a mulher atuando na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Wesley Pionteck é atacante do Red Bull Bragantino e no momento cumpre pena em regime aberto por agredir a ex-namorada em janeiro do ano passado. 

Além dele, também está em atividade o goleiro Jean, que atua pelo Atlético Goianiense. Ele foi acusado de agredir a ex-esposa, em dezembro de 2019, durante uma viagem de férias aos Estados Unidos. Na ocasião, o jogador foi preso em flagrante depois da vítima pedir socorro através das suas redes sociais. O processo foi arquivado em Orlando e Milena Bemfica não prestou queixa contra o ex-marido.

Um dos casos mais famosos no mundo futebolístico é o do goleiro Bruno, que foi condenado a 17 anos e seis meses por homicídio triplamente qualificado, três anos e três meses em regime aberto por sequestro e cárcere privado e um ano e seis meses por ocultação de cadáver. Ele foi o mandante do assassinato de Eliza Samudio em 2010. Atualmente defende o Rio Branco, time da série D, mas, depois que saiu da cadeia, foi procurado por outros clubes. Além disso, é constantemente glorificado por parte da torcida do Flamengo, sendo considerado um ídolo e uma pessoa influente, ao ponto de ter sua conta verificada no Instagram.

Apesar de os clubes brasileiros ainda não tratarem com seriedade os casos de violência contra a mulher cometidos por seus jogadores, na Argentina, essa questão é debatida e tenta-se encontrar soluções eficientes para punir os agressores. O Vélez Sarsfield foi pioneiro no movimento ao ser o primeiro clube argentino com um departamento de combate à violência contra a mulher. Desde 2018, a equipe de Buenos Aires conta com um protocolo especial para tratar o assunto. San Lorenzo, Boca Juniors e River Plate também se mobilizam para criar cláusulas nos contratos dos jogadores e projetos condenando a violência contra a mulher. 

A comparação entre os casos brasileiros e argentinos mostra que, mesmo havendo por onde começar, o país do futebol ainda tem muito chão pela frente para levar o debate sobre a violência contra a mulher realmente à sério. O que não falta nesse mundo são casos como os citados acima. Grande parte desses crimes não chegam a público, pois como nos exemplos mencionados, muitas vítimas temem não ter a justiça que merecem. Quando se trata de violência – principalmente a de destaque nesse texto – é inadmissível a omissão. Não existe separar o pessoal do profissional. Homens que espancam, estupram, violam e até matam filhas, fãs, esposas, namoradas, amantes ou o que quer seja não merecem ser tratados como heróis. Eles não são. Violência contra mulher é crime e deve ser encarado como tal, não é um debate sobre qual cor é mais bonita, estamos falando de vidas.

A mídia possui um papel fundamental nessa luta. Segundo o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, é dever de todo jornalista divulgar informações de interesse público e buscar provas que as fundamentem, como foi feito nas matérias veiculadas pelo ge e no Fantástico do último domingo. Mas isso não pode acontecer somente em casos que envolvem celebridades. Além disso, definitivamente não cabe ao jornalismo defender criminosos, culpabilizar vítimas ou deixar o público decidir em qual lado quer acreditar. 

O processo envolvendo Robinho foi um importante movimento feito pela maioria dos veículos e profissionais da classe, mas não deve ser o único e, muito menos, o último. Por isso, deve ser questionado a razão pela qual o caso do jogador do Bragantino teve baixo engajamento e poucos veículos noticiaram o fato. Por qual motivo Cristiano Ronaldo ainda é considerado pela imprensa um dos jogadores mais importantes da atualidade. E, sobretudo, retomamos à indagação de por que a vida das mulheres não importa no meio futebolístico.

2 comentários sobre “Debate sobre a violência contra a mulher entra em campo

  1. Andrea Andrade disse:

    Parabéns pelo texto!! Relatou tds os fatos ocorridos e se posicionou contra a violência contra as mulheres!!! O país do futebol tb poderia ser o país que não tolera o estupro.

    Curtir

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