Kamala Harris e a vitória há muito esperada

Com raízes na luta por direitos civis e igualdade, os Estados Unidos dão um grande passo para o futuro com a eleição da primeira mulher negra para vice-presidente

Por Layla Abdon

Em um período no qual os Estados Unidos definem quem são, lembram de onde vieram e decidem para onde irão, a eleição da democrata Kamala Harris como vice-presidente carrega grandes significados. O momento histórico, em que a primeira mulher, negra e de descendência asiática foi escolhida para o segundo cargo mais importante do país, se transformou em símbolo de contraste para o período conturbado vivenciado pelos norte-americanos nos últimos anos.

Da esquerda, Doug Emhoff, marido da vice-presidente eleita Kamala Harris, Harris, o presidente eleito Joe Biden e sua esposa Jill Biden

Em sua biografia, The Truths We Hold: An American Journey (Penguin Press, 2019), Kamala diz que, em sua vida, aprendeu que palavras importam. “Como chamamos as coisas, e como as definimos, molda como as pessoas pensam sobre elas. Muitas vezes, as palavras são usadas para degradar nossas impressões sobre os problemas ou nossas impressões uns dos outros”, afirma Kamala. Durante o mandato de Trump, comentários misóginos, racistas e xenofóbicos foram uma constante. O presidente republicano valeu-se de seu poder de fala para corroborar com a estereotipação e exclusão de grupos historicamente marginalizados e vulneráveis.

No entanto, pode-se dizer que a vice-presidente eleita foi devidamente preparada, no decorrer de sua vida, para os atuais desafios enfrentados pelos EUA. Sua identidade reflete cada vez mais a diversidade demográfica da população estadunidense, sendo que, de acordo com O Globo, “a previsão é que, até 2045, o número de americanos não brancos ultrapasse o de americanos brancos”. Além disso, suas origens remontam à história da luta por igualdade racial e de gênero que ainda são um desafio.

Questões de identidade

Os veículos da mídia norte-americana não pouparam críticas aos opositores de Harris que, durante sua campanha, fizeram dela alvo de insultos relacionados à sua identidade. Esses ataques denunciam problemas profundos do passado estadunidense que têm repercussão até hoje. No entanto, ao serem denunciados pela imprensa, o que era menos comum há algumas décadas, fomentam um maior senso crítico por parte dos cidadãos.

Shyamala Gopalan e Donald Harris, pais de Kamala Harris.

Como filha de imigrantes, de mãe indiana e  pai jamaicano, Harris possui uma multitude de raízes e, assim como Barack Obama, tem um nome que não soa comum em seu país. Por esses motivos, teve seu nome, por vezes, propositalmente pronunciado de maneira incorreta. Esse descaso foi repreendido pela mídia como expressão de racismo e outras formas de opressão.

Kamala chegou até mesmo a ser chamada por Trump de phony, termo que significa “não genuíno” ou “fraudulento”, como forma de levantar dúvidas sobre sua identidade perante os eleitores. Esse é mais um ponto em comum com Obama: ambos tiveram suas nacionalidades questionadas pelo simples fato de serem descendentes de imigrantes. Marca disso foi a denúncia na capa da revista The New Yorker, em julho de 2008, que mostra um desenho de Barack vestindo um turbante ao lado de sua esposa, que carregava uma arma nas costas.

A maneira como Michelle Obama foi  retratada na revista levanta outra questão, recorrente e bastante abordada pela mídia, que também entrou em evidência nesta eleição: o estereótipo da “negra agressiva”,  historicamente usado contra inúmeras mulheres pretas que almejaram liderança. A ex-primeira-dama relata em seu livro, Minha História, que, durante a campanha do marido, seus detratores tentaram invalidá-la e silenciá-la com o mesmo clichê.

Deve-se reconhecer, também, que há um claro problema de duplos padrões nos Estados Unidos, em que pessoas pertencentes a certos grupos podem, sem estranhamento, ter determinadas atitudes e outros não. Uma mulher, por exemplo, não pode se posicionar em papéis de liderança ou demonstrar ambição sem ser alvo de críticas e questionamentos. O mesmo aconteceu com Hillary Clinton em suas campanhas presidenciais de 2008 e 2016, em que foi chamada de “ambiciosa demais”.

Debate entre os candidatos a vice-presidente Kamala Harris e Mike Pence.

Apesar de tudo isso, Kamala não se deixa calar. Durante um debate com o vice-presidente de Trump, Mike Pence, em um momento marcante, fez questão de representar todas as mulheres que já foram silenciadas. Quando Pence ameaçou interrompê-la, falou “Sr. Vice-presidente, eu estou falando. Se você não se importar em me deixar terminar, poderemos ter um diálogo.”

Relembrando a história

Os movimentos civis eclodiram nos Estados Unidos nos anos 50 e 60 como parte da luta dos negros por direitos civis e igualdade. Kamala menciona em seu livro que, àquela época, seus pais a levavam de carrinho com eles para as marchas. Para sua família, justiça social era uma parte central das discussões.

Quando ainda criança, ela frequentou Rainbow Sign, um importante centro cultural negro em Berkeley, California, e foi lá que entrou em contato com diversas figuras influentes. Dentre elas, Shirley Chisholm, a primeira mulher negra a fazer uma campanha nacional para concorrer ao cargo de presidente, Alice Walker, que ganhou o Prêmio Pulitzer, e Maya Angelou, a primeira autora negra best-seller.

O discurso da vitória de Kamala Harris

Em seu discurso de vitória, Harris fez questão de honrar o legado de todas as mulheres que lutaram antes dela e de ressaltar a importância das mulheres negras para a democracia de seu país, as quais fizeram diferença, principalmente nesta eleição. “Estou pensando nela, minha mãe, e nas gerações de mulheres — negras, asiáticas, brancas, latinas e indígenas — ao longo da história de nossa nação que pavimentaram o caminho para este momento, esta noite”, ela disse. “Que lutaram e se sacrificaram tanto pela igualdade, liberdade e justiça para todos, incluindo as mulheres negras, que muitas vezes são esquecidas, mas que tantas vezes provam que são a espinha dorsal de nossa democracia”, declarou.

Por meio desse discurso e muitos outros, é clara a intenção de representar grupos marginalizados que ainda buscam seus direitos. Em 2020, ganharam forças os protestos do movimento Black Lives Matter após inúmeros casos de brutalidade policial com a população negra. A visibilidade proporcionada pelas mídias sociais e pela imprensa se mostrou imprescindível para sensibilizar a população e desencadear as manifestações.

O próximo capítulo

Em sua autobiografia, a vice-presidente eleita escreveu que sua mãe costumava contar uma história engraçada sobre ela — quando criança, ao ser questionada sobre o que queria, respondeu “Fweedom!“, liberdade, do inglês, “freedom”. E parece ser isso o que está buscando na vida adulta, não somente para ela, mas para a população norte-americana como um todo.

Alguns críticos apontam inconsistências na época em que Harris foi Procuradora-Geral da Califórnia, como, por exemplo, a falta de atenção às investigações de má conduta policial em seu primeiro mandato. No entanto, segundo publicado no jornal The Guardian, Mary Kay Henry, que dirige o influente Service Employees International Union — sindicato nos EUA que representa quase dois milhões de trabalhadores, afirmou que “o trabalho de toda a sua vida foi lutar para garantir que a América fosse um lugar onde a liberdade fosse para todos, independentemente de sexo, renda ou raça”.

Os Estados Unidos ainda enfrentam grandes problemas que perduram há muito tempo, que estão enraizados em sua cultura e que ainda afetam grande parte de sua população, a qual clama por reformas no sistema de Justiça, por medidas para combater o racismo estrutural e pelo fim a brutalidade policial, por exemplo.
O discurso da mídia aponta um otimismo generalizado com a recente vitória, mas, apesar de ser um avanço a ser celebrado, vale lembrar também que não deve ser o último e que a visibilidade de movimentos por igualdade e liberdade de minorias devem ser uma pauta constante nos veículos de informação. Além do mais, apenas representatividade pode não ser o bastante, os eleitores querem resultados. O objetivo de Kamala Harris já foi pronunciado: “embora eu seja a primeira mulher neste cargo, não serei a última”, o que resta é esperar que suas palavras ecoem para as próximas gerações.

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