Está faltando fair-play no meio futebolístico

No período mais crítico da pandemia no país, clubes e editorias de esportes dão show de indiferença

Por Malu Sousa

Entre as temporadas de futebol de 2020 e 2021 o intervalo foi de apenas três dias. As partidas que encerraram o Campeonato Brasileiro e deram início aos estaduais ocorreram em fevereiro, em meio ao ponto mais crítico da pandemia no Brasil. Mas, a contragosto de dirigentes dos clubes, os campeonatos estaduais vêm sendo suspensos em diversos estados pelo país nas últimas semanas. A imprensa esportiva também não parece estar muito satisfeita e mostra isso pelo teor das manchetes recentes.

“Brasileirão: R$27 milhões de prejuízo com portões fechados; veja a renda líquida negativa de cada clube” é o título de um levantamento publicado pelo Lance! em 24 de fevereiro, dia em que o Brasil registrou 1.433 mortes pelo coronavírus. Nessa mesma data, chegamos à trágica marca de 250 mil vidas perdidas, vítimas da covid-19. Não sendo suficiente, o perfil do portal no Twitter replicou a matéria nos dias 7, 10, 14, 15 e 16 de março. No dia da última postagem batemos mais um triste recorde: 2.841 mortes em 24 horas, alcançando 282.400 mil vítimas no total.

O Lance! não é o único a publicar reportagens de enquadramento semelhante. Diversos veículos têm se dedicado a divulgar, nesse momento, o quanto times deixaram de ganhar por não poderem vender ingressos ou por perderem contratos com TVs no ano passado e chamam isso de “prejuízo”. É o exemplo do Uol Esporte que publicou, em 25 de fevereiro, um texto intitulado “O buraco da pandemia”, onde faz um panorama geral das receitas não arrecadadas e de especulações de prejuízos possivelmente sofridos pelos clubes brasileiros.

Absolutamente todos os veículos de imprensa esportiva publicaram matérias falando sobre como a ausência de bilheteria e a baixa adesão ao sócio-torcedor podem ter gerado aos clubes um déficit que passa de R$550 milhões. O que não está incluso em todos os textos publicados é que o valor foi estimado pelo consultor esportivo da Ernst & Young (EY Brasil), Pedro Daniel, que admite ser impossível dar um número exato. O valor tem como base as contas dos times do ano de 2019 e não é possível dar exatidão quanto ao valor porque se trata de uma simples projeção de receitas que entrariam, não necessariamente de um prejuízo.

Sobre o mesmo assunto, dispararam Uol Futebol e Cosme Rímoli (R7), respectivamente: “Com cenário econômico nebuloso, Palmeiras recua e encerra tratativas por Santos Borré” e “Prejuízos pela pandemia fazem Palmeiras desistir de Borré”. O clube em questão, apesar de possuir 32 jogadores no elenco, deixou de contratar mais um. O prejuízo quer dizer apenas que o time do Palmeiras deixou de ganhar com bilheteria, isso não o deixou no vermelho, muito pelo contrário, foi um dos clubes brasileiros que mais faturou na última temporada.

Uma característica comum desses textos é que dentro deles sempre tem um ponto que reconhece, mesmo que timidamente, a importância da paralisação do futebol. Mas a necessidade por caçar clicks aparenta falar mais alto e os resultados são manchetes chamativas e indiferentes à situação sanitária atual. Como acontece na Coluna de Vídeo do Lance!, em que a chamada é: “O prejuízo de não ter Copinha é imenso”. Frase solta que chama a atenção, mas, ao ler o texto ou assistir ao vídeo, pode-se ver que o colunista, Luiz Fernando Gomes, disse logo em seguida que considera acertada a medida de segurança adotada pela Federação Paulista de Futebol.

Acertos

Há manchetes que usam a palavra prejuízo de forma sincera também, como essa do Globo Esporte: “Cancelamento de jogo contra o Palmeiras em Minas Gerais evita prejuízo de R$18 mil ao São Bento”. Barrados de realizarem jogos no estado de São Paulo, os clubes tentaram jogar em outros estados. Para times pequenos, como o São Bento, isso é sinônimo de prejuízo. O time de Sorocaba teria que desembolsar R$18 mil para mandar o jogo em Belo Horizonte, muito mais do que gastaria na cidade de origem do clube.

Outro título acertado foi feito pelo Metrópoles, “Pandemia: Flamengo deixa de ganhar R$110 mi e terá de vender atletas”. O veículo entendeu que “deixar de ganhar” é mais adequado que a palavra prejuízo. O Flamengo, além de possuir o elenco mais caro do país, é mais um clube que dispõe de uma grande gama de atletas. Não fará mal vender alguns ociosos. Vale lembrar que o clube trata como assunto pessoal do próprio atleta situações que vão totalmente contra os protocolos bem elaborados que o Flamengo diz ter desde o início da pandemia. É o caso recente envolvendo o jogador Gabriel Barbosa, o Gabigol, que foi surpreendido em um cassino com mais de 200 pessoas aglomeradas.

Em sua coluna no Uol, Rodrigo de Mattos comentou sobre o episódio do jogador Gabigol no cassino. Para Mattos, o ocorrido só reforça a necessidade da suspensão do futebol na pandemia. Mattos afirma que “é péssimo o simbolismo de ter uma bola rolando enquanto pessoas morrem aos milhares.” De fato, contrasta com a dor de tantas mães e pais que perderam os filhos e de tantos filhos que choram a morte de mães e pais, além de reforçar a interpretação de que os dirigentes não demonstram empatia pelos que sofrem com a crise sanitária.

É importante ressaltar que nem todos os profissionais endossam esse tipo de posicionamento. É o caso do comentarista da Rede Globo, Walter Casagrande que criticou duramente os dirigentes São Paulo Futebol Clube, que foi o único time grande de São Paulo a votar para exigir na justiça a continuação do campeonato paulista nesse período extremamente delicado da saúde brasileira. “São Paulo dá vexame ao votar a favor de entrar na justiça para retomar Paulistão” disse o comentarista “votar para entrar na Justiça contra uma decisão do Ministério Público e do Governo mostra total falta de respeito com as leis colocadas para fazer o futebol colaborar para que a pandemia diminua” completou.

Outro que se opõe à continuação dos campeonatos é o apresentador André Rizek. No último dia 17, Rizek defendeu ao vivo no programa Seleção SporTV do canal fechado, SporTV, a suspensão dos campeonatos como medida de contenção do coronavírus e foi confrontado por seguidores em seu perfil pessoal no Twitter: “Rizek que pare o futebol? Isso é teu emprego, pare teu emprego?”. O apresentador respondeu prontamente: “Meu emprego não é melhor que o de ninguém… Se a conclusão for de que a realização do futebol coloca em risco a vida das pessoas, que piora a situação da pandemia, que pare também.”.

Só pensam em dinheiro no futebol

A coluna do Rodrigo Mattos no Uol afirmou que a suspensão do futebol vai prejudicar os cofres de clubes caso continue em abril. Segundo o colunista, por enquanto, os times conseguem se manter, mas em abril os contratos de televisão relevantes já seriam afetados pela falta de jogos. É importante destacar que tais “contratos de televisão relevantes” são os times grandes que conseguem.

É como disse Casagrande ao criticar a ganância dos atores desse universo que são contra a paralisação dos jogos: “só pensam em dinheiro no futebol”. Afirmação que é reforçada pela atitude tomada pelos dirigentes de retornarem aos estádios no ano passado pois, mesmo com o calendário congestionado, os desfalques gerados pelo novo coronavírus e o desgaste dos times, os prejuízos foram menores do que cancelar a competição e renunciar às verbas de transmissão e patrocínio.

O país atravessa atualmente o seu pior momento no enfrentamento da pandemia de covid-19. Somos o epicentro da doença e temos uma variante devastadora que fez com que 108 países suspendessem voos para o Brasil e, além disso, proibissem a entrada de brasileiros em seus territórios. O sistema de saúde está colapsado, os leitos de UTI são insuficientes, as filas à espera de uma vaga não param de crescer e falta oxigênio.

A economia brasileira já não tinha boas perspectivas antes da pandemia e agora amarga o impacto da crise sanitária, mas, por alguma razão, os clubes de futebol, com toda a arrogância de que dispõem, não querem sofrer impactos. Na mesma toada vão as editorias de esportes da imprensa brasileira pois, no país do futebol, esses campeonatos garantem a existência dos conteúdos nessas páginas. Agora, só resta escrever sobre prejuízos de times milionários que sem as bilheterias, sem os acordos de patrocínios (já que as marcas querem ser vistas e essa ramo não tem sido uma boa vitrine), contratos de transmissão, etc., estão ficando menos milionários.

“A pandemia institucionalizou o futebol como uma atividade essencial”, disse o jornalista Luiz Gomes no portal Terra. O presidente do São Paulo Julio Casares explicou que a paralisação do Paulistão pode ser prejudicial ao controle da saúde dos profissionais envolvidos no futebol. O aval dado pela sociedade para que o futebol pudesse continuar em meio à tragédia, fez com que os times se sentissem mais importantes que a própria sociedade e a imprensa está sendo utilizada como um meio para que essa ideia seja propagada. Um verdadeiro desserviço.

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