Resiliência, uma nova palavra para o discurso meritocrático

Sequência jornalística de matérias que contam histórias de superação vai na contramão de um país onde a fome e desemprego crescem diariamente

Por Camilla Fernandes

A palavra resiliência está associada à capacidade do indivíduo de lidar com os próprios problemas, de sobrevivência e superação de obstáculos difíceis. Apareceu como tema do programa Globo Repórter exibido na última sexta-feira (26 de março). No momento em que o país coleciona desempregados e aumenta o índice de fome, o único jeito de aplicar resiliência seria com o sentido original da palavra que vem do latim, Resilire: “voltar atrás” e eleger um governo que governe na direção oposta do descaso com a população que temos presenciado.  No entanto, além de lidar com a falta de recursos fornecidos pelo estado, estamos também assistindo a colocação da meritocracia como discurso de esperança na grande mídia.  

Em 2021, o número de desempregados  no Brasil ultrapassou o número de moradores de São Paulo, a mais populosa cidade da América do Sul e com a quarta maior população do mundo. Segundo Sirlânia Schappo, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no artigo “Fome e insegurança alimentar em tempos de pandemia da covid-19”, a pandemia pode influenciar em até 56% no aumento da pobreza em países como o Brasil, baseado em previsões da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Enquanto a população conta com a promessa da volta do auxílio emergencial, dessa vez ainda mais restrito, que varia entre R$ 150 a R$ 370 por família, o preço do arroz chega a R$ 40 (cinco quilos) e o gás de cozinha,  segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), está  alcançando até R$ 105. Os grandes veículos de informação criam a falsa ideia de que a pobreza é um problema individual e não nacional ao investir em matérias de superação no período atual.

O caso de Artur Ribeiro Mesquita, de 15 anos, morador de uma zona rural onde não há fácil acesso à internet, ganhou visibilidade no Jornal Nacional. O adolescente conta na reportagem, também disponível no G1, que para ter acesso a internet e assistir às aulas sobe em um pé de manga. O JN exibiu o caso focando no empenho de Arthur, não em como o grande absurdo que é ou como a denúncia ao desmonte da educação que poderia ter sido. São milhares de meninos como o Arthur em todo o Brasil e, com o número de obstáculos na educação aumentando durante a pandemia, 36 mil vagas no setor educacional foram fechadas durante o último ano.

Além de Arthur Ribeiro, no Jornal Nacional, o Globo Repórter exibiu na mesma semana um programa inteiro contando histórias de pessoas e famílias que conseguiram de alguma forma “persistir” em meio às dificuldades. Entre os casos estão: mãe e filha despejadas que construíram a própria casa com garrafas encontradas no lixo e um homem que sustentava a família, ficou desempregado e conseguiu se restabelecer. Histórias contadas com tom de superação, pessoas que precisaram ser excepcionais para conseguirem o mínimo dignidade, apesar de tudo, ocultando perguntas que fogem do discurso meritocrático: e quanto às centenas de famílias que estão sendo despejadas todos os dias? Os milhares de trabalhadores que perderam seus empregos e agora contam com um auxílio quase irrisório? A utilização de exceções como exemplo para milhares de telespectadores ignora a situação do Brasil e glamouriza esforços extraordinários para obter o mínimo.

O adjetivo resiliente se dá ao indivíduo com capacidade de superar os próprios problemas e não problemas nacionais de um governo sem nenhuma diretriz plausível em meio a uma pandemia global e ascensão da fome no país. A utilização de um termo que caracteriza alguém forte e persistente no contexto em que uma minoria microscópica consegue “vencer”, cria um discurso meritocrático no momento em que todos os brasileiros enfrentam o pior cenário possível, onde não há ferramentas com as quais se possa lutar pelo mínimo. Resiliência, no Brasil, sobretudo é uma mentira cruel de se contar em rede nacional.

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