Leo Dias e Matheus Baldi: jornalistas ou difamadores?

Apesar de possuírem formação em Jornalismo, os influenciadores mostram-se indiferentes aos códigos de conduta e princípios da profissão

Texto por Gabriel Benevides

Nos últimos dias, internautas inundaram-se em publicações sobre a exposição da atriz Klara Castanho, de 21 anos, que colocou para adoção, de forma legal, a criança que gerou após uma gravidez decorrente de estupro. Neste texto, pode-se entender melhor o episódio. 

Entretanto, outros nomes extremamente comentados nas redes sociais foram os de Matheus Baldi, apresentador do programa de televisão Fofocalizando, no SBT, conhecido por expor intimidades de famosos no TikTok, e de Léo Dias, colunista do portal Metrópoles. Baldi foi o primeiro a divulgar o caso da atriz, cujo sigilo era resguardado por lei. Pouco depois do vazamento das informações sobre Castanho, Dias publicou um texto detalhado da experiência traumática vivida pela jovem. Ambos pediram desculpas publicamente à atriz após serem criticados na Internet.

Foto: Reprodução/Twitter/Metrópoles

Além de violarem a legislação, que garantia o sigilo a Klara, os blogueiros ainda desrespeitaram  um importante documento da área em que ambos possuem formação: o Código de Ética do Jornalista Brasileiro. “Respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão”  é um dos regimentos do código. Porém, Dias e Baldi não descumpriram este princípio somente no vazamento do caso Klara Castanho. Afinal, o conteúdo produzido pelos comunicadores- a famigerada fofoca – não se baseia justamente na exposição da intimidade e privacidade de cidadãos?

JORNALISMO SERVE AO INTERESSE PÚBLICO

Leo Dias e Mateus Baldi são graduados em Jornalismo, mas isso não significa que ambos atuam como profissionais da área. Um dos princípios fundamentais dos jornalistas, presentes em códigos de conduta da profissão ao redor do mundo, é prestar serviço ao Interesse Público. Segundo um artigo publicado por Rogério Christofoletti e Guilherme Longo Triches em 2014, o conceito de Interesse Público relaciona-se ao “status semipúblico da mídia”, que possui o papel de fiscalizadora social e informante das divergências que podem afetá-la. Em geral, define-se Interesse Público como aquilo que as pessoas precisam saber. Sua antítese seria o interesse do público, o que as pessoas querem, supostamente, saber.

Por exemplo, o vazamento de um vídeo íntimo da cantora Anitta não condiz com o Interesse Público, pois esse fato não impacta a sociedade socialmente ou um indivíduo, senão a própria cantora, de forma relevante. Portanto, é um tema de interesse do público.

Entretanto, a cobertura midiática do suposto esquema de corrupção no Ministério da Educação (MEC) é de extremo Interesse Público, pois não só instigaria a Justiça a investigar o caso como também informaria a população sobre um desvio ilegal do dinheiro saído de seu bolso. 

A partir disso, pode-se afirmar com quase certeza: Baldi e Dias não fazem Jornalismo. A graduação ofereceu para eles, no máximo, a possibilidade de utilizar técnicas jornalísticas de apuração e redação para espalhar a vida privada de indivíduos detentores de interesse do público. 

NÃO SE PODE FALAR DO QUE O PÚBLICO QUER?

A partir dos argumentos apresentados, pressupõe-se, então, que o Jornalismo não pode abordar temas de cunho mais “popular”, como reality shows, novelas, entretenimento e arte. Porém, a situação também não é essa, há possibilidade de conciliar ambos os interesses dentro da prática midiática.

É totalmente compreensível que assuntos “mundanos” sejam utilizados como gatilho para discussão de temas importantes dentro de uma sociedade. Um exemplo de quando isso foi feito com maestria é neste texto do SOS Imprensa, que utilizou as polêmicas em relação às apresentações sensuais de Luíza Sonza para debater a sexualização feminina na sociedade patriarcal brasileira. 

Foto: SOS Imprensa/ reprodução

Porém, ao acessar a notícia intitulada “Namoro de Wanessa e Dado causa racha na família. Quem apoia e quem não”, publicada na coluna de Leo Dias no Metrópoles, observa-se que o fato é reportado simplesmente com o objetivo de atrair cliques. Um simples fato pelo fato. O caso poderia ser utilizado como base para tratar os efeitos psicológicos da separação em um relacionamento ou sobre o tratamento diferente dado a homens em relação ao ato da traição. 

Foto: Metrópoles/ reprodução

ALÉM DE TUDO, O SENSACIONALISMO

Outro fator condenável pelo jornalismo é o sensacionalismo. A professora da área Rosa Nivea Pedroso, em seu livro A construção do discurso de sedução em um jornal sensacionalista, publicado em 2001 pela editora annablume, descreve a prática como “valorização da emoção em detrimento da informação; exploração do extraordinário e do vulgar, de forma espetacular e desproporcional”.

Os produtos de Leo Dias e Matheus Baldi também possuem esse cunho de transmissão informativa. Os vídeos que trouxeram popularidade a Baldi no TikTok seguem uma mesma estrutura sensacionalista: uma pergunta supostamente enviada por seguidores sobre alguma fofoca, uma exposição dos fatos íntimos e uma “indireta” – que é, na verdade, muito direta – sobre quem seria o famoso exposto. Durante todo o vídeo, o apresentador mantém um caráter despojado e com falas exageradas. 

Neste vídeo, Baldi claramente divulga informações pessoais da influencer Rafa Kalliman (Reprodução/TikTok/Matheus Baldi).

IMPUNES?

O Código de Ética do Jornalismo Brasileiro não possui valor legislativo. Portanto, o descumprimento de suas condutas não é condenável judicialmente. Como jornalistas também não regidos por um Conselho, como ocorre em várias outras profissões, não há cassação de diploma. 

Porém, isso não significa que Baldi, Dias e tantos outros formados em Jornalismos não são passíveis de punição legal. O Código Penal é categórico: “desacreditar publicamente atribuindo a alguém um fato específico negativo” configura crime de difamação. Importante ressaltar: diferentemente do apontado pelo senso comum, para que haja difamação, a característica atribuída ao indivíduo não precisa ser, necessariamente, uma mentira. Portanto, a cobertura midiática popularmente conhecida como fofoca é, por si só, um crime de difamação. 

Mas é preciso saber se há desejo por essa penalização. Independentemente da vontade dos profissionais do jornalismo, a popularidade de conteúdos desse cunho é enorme. Matheus Baldi soma mais de 1,5 milhão de seguidores em suas redes sociais. Leo Dias, além de deter uma das colunas mais lidas no Metrópoles, possui mais de 12 milhões. 

A exposição como a que Klara Castanho sofreu, para muitos, é a cara da imprensa brasileira. Coloca-se em evidência uma mídia que nem sequer faz jornalismo.

Este texto é dedicado à professora Luciane Agnez, que leciona Ética e Jornalismo na Universidade de Brasília (UnB).

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